Portugal

Ronaldo e a seleção: entre a pirraça e o diz-que-diz, o caldo entornou

Cristiano Ronaldo a segurar um copo no relvado do estádio de Malmö, onde compareceu mas não chegou a treinar com a seleção nacional
Cristiano Ronaldo a segurar um copo no relvado do estádio de Malmö, onde compareceu mas não chegou a treinar com a seleção nacional
NurPhoto

Nos dois dias seguintes a Cristiano não jogar contra a Noruega, em Oslo, onde mostrou o seu desagrado, o ambiente em torno da seleção nacional virou um circo — mais uma vez após Ronaldo ser suplente. O capitão não treinou com a equipa, a FPF diz que fez trabalho no ginásio no hotel e Pedro Proença, pela noite, viajou para Copenhaga de modo a reunir com o jogador e Jorge Jesus, que entretanto terão feito as pazes. Esta quarta-feira o selecionador falará na conferência de imprensa (às 16h) onde não se vai querer falar de outra coisa

Ronaldo e a seleção: entre a pirraça e o diz-que-diz, o caldo entornou

Diogo Pombo

Editor de Desporto

Os factos neste tão insuflado assunto, porque quando o tema é este há polémica ao mínimo movimento, não são assim tantos.

Jorge Jesus escolheu ter Ronaldo como suplente em Oslo, onde a seleção ganhou à Noruega, por 1-2, e deixou-o no banco durante todo o jogo, apesar de o capitão, às tantas, ter ido aquecer na segunda parte. Fizeram-se perguntas no dia e ouviram-se respostas do treinador, esta à RTP: “Eu estava a pensar metê-lo, mas depois o jogo ditou outra coisa.” E depois viu-se a reação de Cristiano mal o último apito do árbitro soou: estava já de pé perto do túnel de acesso aos balneários, deu meia-volta, foi logo embora, enquanto abanou um braço em jeito de desprezo.

Eis onde a factualidade se esgota e o subjetivo se espreguiça: o gesto foi de desprezo ou de amuo? Talvez de indiferença? Era uma manifestação de pirraça? Ou um sintoma de birra de quem, por não ter jogado, quis fugir dali para demonstrar o seu desagrado?

O verídico só regressaria a esta história dois dias depois, na terça-feira.

Nas 48 horas de interlúdio houve comentariado, painéis televisivos e rodapés de “última hora” cheios de suposições e coisas hipotéticas, que não sabemos serem verdade.

Como Jesus ter faltado ao combinado com Cristiano quanto a ele jogar, num diz-que-disse de resumo curto: eles teriam previsto que Ronaldo jogaria em Alvalade e no Dragão, as duas partidas caseiras nesta série de quarto, e não na Noruega nem na Dinamarca, mas o selecionador, nos entretantos, terá dito a Ronaldo, segundo a SIC, que afinal planeava lançá-lo durante a segunda parte em Oslo, coisa que não sucedeu.

E mais, pois contou-se, com especial afinco no Now, canal de televisão propriedade do grupo Medialivre onde Cristiano é acionista e tem uma participação de 30%, que Ronaldo estaria decidido a abandonar a seleção após o Mundial (aliás, o próprio confessou, há uma semana, que pensou nessa hipótese), mas Jesus e Proença tê-lo-ão convencido a ficar.

A camisola 7 que Cristiano Ronaldo não chegou a usar em Oslo, contra a Noruega
Boris Streubel - UEFA

Chegados a terça-feira, eis que em Malmö, cidade na Suécia bastante vizinha de Copenhaga — fica a meia-hora de caminho — onde a seleção estagiou até à véspera do jogo contra a Dinamarca, mais factos abanaram o tema e o empurraram, por força do mediatismo, a ser uma polémica, mais uma relativa a Cristiano Ronaldo.

A meio da tarde, aquando do treino de Portugal no estádio do clube da cidade, o capitão português apareceu no relvado, sozinho, de telemóvel na mão e copo de cartão na outra, durante os 15 minutos em que os jornalistas podem espreitar. A câmara da Sport TV focou nele, mostrou-o a ir sentar-se num dos bancos. Então surgiu Jesus, trocou umas palavras com Ronaldo e o jogador foi embora, não reaparecendo no campo com os restantes da seleção. Apesar de ter companhia (João Félix e Francisco Conceição tão-pouco treinaram, mazelados), apenas a sua ausência provocou um tumulto.

Perante a estranheza de Cristiano não participar no treino de campo, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) confirmou à Tribuna Expresso que Ronaldo “voltou ao hotel” para “trabalhar lá”, onde tinha os seus equipamentos próprios de ginásio e recuperação. O capitão não padecia de qualquer arrelia física, nem tal constou no comunicado publicado pela entidade, tendo a mesma fonte oficial da Federação indicado que o capitão da seleção fez “gestão” de esforço. No dia anterior, o jogador do Al-Nassr treinara com os restantes futebolistas, sem limitações.

Já terça-feira conhecia a noite quando do aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, saiu Pedro Proença. Estavam lá jornalistas para o ouvir, mas só o viram a ir, órfãos de declarações do presidente da FPF. Partiu em viagem rumo a Copenhaga para falar, em pessoa, com Jorge Jesus e Cristiano. A essas horas do relógio já se resumia o que estava a acontecer com vários termos: lia-se e ouvia-se que isto se tratava de uma “crise”, do “caso Ronaldo”, a “polémica” e a “tensão” pareciam descrições ultrapassadas.

Depois há o resumo factual: a equipa nacional que representa Portugal, onde estão 25 futebolistas, envolta se vê neste clima após o treinador decidir não dar tempo em campo a um deles, o capitão de 41 anos que até Oslo jogava sempre, de quem agora se fala mais do que sobre a vitória na Noruega ou da partida que aí vem contra a Dinamarca. A seleção de um país virou de novo monotemática.

E há uma parente nada afastada na memória: em 2022, no Catar, onde Fernando Santos substituiu Ronaldo num jogo do Mundial para de troco ter uma reação do capitão da qual não gostou, fazendo dele suplente utilizado nas duas partidas seguintes. Era o fim de ciclo do treinador, cujo contrato ia até 2024, mas rescindido ficou, por mútuo acordo com a Federação, após Portugal ser eliminado nos quartos de final e o caldo entornar com quem nós sabemos.

Ainda Pedro Proença estava nos ares, com asas em direção à Dinamarca, e no Canal 11 propriedade da FPF falava Cândido Costa, que foi treinado por Jorge Jesus quando era jogador e muitas histórias já contou acerca dele, de lá para cá. “O mister não é perfeito, mas se há coisa que ele tem é isto de não carregar durante muito tempo o que tem cá dentro: manda cá para fora, diz o que sente e o que pensa. Às vezes provoca fissura ou discussão, mas encara o problema, não anda por trás, nem por caminhos sinuosos”, disse o antigo futebolista.

Na alvorada desta quarta-feira já a RTP dizia que o selecionador e capitão tinham falado, sintonizado as antenas e “solucionado o desentendimento“ ainda antes de reunirem com o presidente da FPF. À Tribuna Expresso dizem que a conversa aconteceu depois do jantar, que o ambiente entre Jesus e Ronaldo nunca deixou de estar “muito calmo”, que tudo isto não foi a algazarra mediática montada em seu torno.

Diga o que disser Jorge Jesus na tarde desta quarta-feira, já em Copenhaga, na conferência de imprensa de antevisão ao Dinamarca-Portugal onde forçosamente se quererá falar de outra coisa, existe um facto instalado: mais uma vez, depois de Cristiano começar um jogo sem ser a feijões no banco de suplentes, o ambiente mediático em torno da seleção nacional virou um circo. Por força de quem?

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