Ronaldo e Jesus vieram para uma conferência. Afinal, foi um espetáculo com piadas, aplausos e centenas na plateia
Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo a entrarem no palco da conferência de imprensa de antevisão do Portugal-Gales que a FPF pôs no centro da sua Football Summit
ANTÃNIO PEDRO SANTOS
A seleção arranca uma nova era na quinta-feira (19h45, RTP1), com um jogo frente ao País de Gales na Liga das Nações. Antes, como é protocolar, houve a antevisão à partida, mas a FPF decidiu colocá-la no centro da sua Football Summit, com honras de arena principal. O espaço encheu com centenas de pessoas para ouvirem Jorge Jesus e, como surpresa, Cristiano Ronaldo. E o que seria uma costumeira conferência de imprensa acabou a ser uma coisa híbrida, quase show de entretenimento
O sol esquenta e ouve-se a voz de Pizzi, ecoa vinda lá do fundo. O retirado jogador fala, palestrante de uma das éne conferências na Cidade do Futebol. A dele acontece ao ar livre, no meio do átrio que boa-vinda quem chega com dúvidas existencialistas: as rulotes de comida, do prego no pão à pizza em forno de lenha, são banhadas por um bar de cerveja que completa os tiques de festival de música; para aqui e para ali circulam dezenas de corpos com credencial ao pescoço, etiquetados com o seu nome e o do empregador, unidos na frequência do networking a falarem o idioma LinkedInês.
Era a primeira impressão ao entrar-se na inglesada Football Summit, a uns 40 minutos do prato do dia ser servido.
Neste primeiro de três dias do evento-mor da Federação Portuguesa de Futebol, repleto de oradores vindos de outras latitudes, o evento para empanturrar a curiosidade era o que, na teoria, não pertencia à ocasião. Ia falar o novo selecionador nacional antes do Portugal-Gales da Liga das Nações, a sua estreia. Era “uma oportunida exclusiva para para assistir ao vivo a um momento habitualmente reservado aos Media”, assim descrita no programa, um bombom para quem pagou entre 90€ a 750€ por um bilhete da cimeira.
À pinha se pôs a ampla arena — um pavilhão de futsal redecorado — , preenchida com três dígitos em cadeiras, cortinados pretos mascarados de paredes, e um ecrã horizontal, gigantesco, posto atrás do palco. À hora da conferência de imprensa, além das centenas de lugares sentados, um maralhal de gente arranjou um espacinho para assistir, em pé, e receber a boa-nova de uma surpresa: teria companhia Jorge Jesus, o jogador escolhido para o parlapié era Cristiano Ronaldo.
O aparecimento de ambos em palco foi um “mãos ao ar”. Ergueram-se telemóveis em punho, vídeos e fotos-mil enquanto o selecionador, com fatiota de treino, e o capitão da seleção, t-shirt negra, cabelo dourado, fio ao pescoço sobre o tecido, se ajeitavam nas cadeiras. Já acomodados, partilharam o espanto. “Acho que nunca falei para tanta gente ao mesmo tempo”, admirou-se Ronaldo, escondendo o lábio de cima atrás do inferior, “mas ‘tá bom, ‘tá bom, é um desafio”. Quando lhe tocou falar, Jesus assentiu, “é bom as gentes estarem com o futebol e a seleção”.
Essas gentes superaram, em números obesos, os jornalistas, em cujas mãos o microfone andou a pular para propagar as perguntas pela sala. Aí decorreu o habitual modus operandi, mas, aos poucos, a conferência de imprensa híbrida de nascença, parida já em condições inventivas, transmutou-se noutra coisa qualquer.
Aos 41 anos, Cristiano inicia novo cíclo na seleção
A boa-disposição de Ronaldo, mais do que o conteúdo das respostas, teve o seu peso. Depois de agradecer ao ido Roberto Martínez, dando-lhe “os parabéns” pelo “trabalho” na seleção (pela segunda vez, mais duas do que fez com Fernando Santos, seu comparsa campeão europeu), brincou com as turras do Benfica com a FPF — “agora já não jogamos mais no estádio do Benfica, foi o que li”. Conversou também, num tu cá tu lá de perguntas, com uma jornalista que o inquiriu sobre ele jogar, ou não, todos os 90 minutos dos próximos jogos da seleção: “O que achas? Vês os meus jogos no Al-Nassr?”
A plateia riu, timidamente mas riu, não tanto quando o capitão soltou um “mestre da culinária?” ao ser lembrando que Fábio Silva, na véspera, o tratara por tal; nem quando ele ajeitou a mão, como quem segura na pega de uma mala, e logo a seguir a levantou, roçando o polegar no indicador, ao perguntar “pasta ou pasta?” em jeito de chalaça ao ouvir a palavra numa pergunta. Os gestos de Cristiano entretinham as hostes, o eco das gargalhadas enchia ainda mais a arena, e a conferência de imprensa foi resvalando, roçando o espetáculo, intuindo à apoteose, havendo quem usasse do microfone para lhe agradecer o que fez pela seleção.
Perante o elogio a fazer as vezes da pergunta, ouviu-se o aplauso inaugural.
Esse foi um gesto de carinho, do que Ronaldo disse “provavelmente” ter “recebido mais este ano”, ao contrário do tratamento de “alguns canais” dos quais se queixou: “Tentam atacar e ‘matar-me’ há muitos anos, mas isso só com caçadeira. Já estou bastante acostumado.” O capitão emulou-se, em Dallas, nos Estados Unidos, o seu desabafo fora o mesmo antes da despedida do Mundial. Agora queixou-se “da meia-dúzia” de jornalistas, insistiu, que o pretendem ver longe.
As salvas de palmas
Cristiano foi a lado algum quando deixou de ser a sua vez de ter pio. “Posso ficar aqui a ver ou não?”, ouviu-se o capitão a perguntar, zeloso do seu lugar, quando o assessor da FPF chamou Jorge Jesus à conversa. Outra pitada de diferente: por costume, nestas conferências o jogador zarpa dali para fora quando já não lhe toca responder mais.
O capitão ficou, recostado na cadeira, a escutar Jesus dar como certa a sua titularidade contra o País de Gales sem garantir como o seu coração reagirá quando entoar o hino nacional, pela primeira vez, como selecionador. “Tenho sentimentos, sou português, amo o meu país, não sei como me vou sentir”, confessou, meio atrapalhado, quando já elogiara “uma pergunta inteligente“, acerca de futebol e não de carinhos ou injustiças. “Mas uma coisa vos garanto: sei o hino nacional todo”, concluiu o tema, soltando a mola a uma gargalhada na sala, mais uma.
Jorge Jesus a falar perante a plateia da Football Summit
ANTONIO PEDRO SANTOS
As cachinadas, por muito que coletivas, tiveram concorrência das mãos dos presentes, outra raridade em conferências de imprensa onde a uns cabe perguntar e a outros toca responder.
Incumbido esteve Jorge Jesus de dizer o que pensa sobre coisas que lhe arrancaram prazer, como uma questão sobre que mudanças esperar das dinâmicas do meio-campo com ele ao mando, outra que elogiou, além de outras, mais batidas, curiosas sobre se o capitão irá jogar os 90 minutos frente a Gales, sucedâneas às que inquiriram o recordista português sobre o seu prazo na seleção. “Noto em vocês jornalistas a preocupação de até quando o ‘Cris‘ vai jogar…”, retumbou o treinador, injetando um segundo de pausa antes de declarar que“o ‘Cris‘ é um símbolo de Portugal e da seleção”.
Embrulhada a afirmação, o salão desmoronou-se num estrondoso aplauso, como se uma prestação artística tivesse findado o seu ato. Foi uma apoteose. Não seria o última. Jesus completou o seu raciocínio. “Perante isto, se tem depois direito a jogar os jogos, não lhe dá esse direito, agora, eu sei o que é esta referência“, explicou, puxando o lustro à convivência de ambos no Al-Nassr. “Nós fizemos jogos em Hong Kong, no que ele não jogou, estavam três mil, no que ele jogou estavam 55 mil. É a diferença.” E outra salva de palmas irrompeu pelos ares.
Foi essa a partidura da ocasião com partes de conferência de imprensa e outras costelas de show de entretenimento, um concerto de inusitado na véspera de a seleção nacional voltar a jogar. Houve espaço, apesar de pouco, para o futebol. Jesus da sua “forma de olhar para jogo” que “é diferente do antigo selecionador”, ele não disse ser melhor, mas “é natural que vá permitir, jogando se calhar com os mesmos”, uma equipa com “uma nova dinâmica e cultura” de jogo. “É nisso que eu acredito”, benzeu com palavras o mais velho treinador (72 anos) a estrear-se pela seleção nacional.
Batidos os aplausos, captadas tantas fotografias com os telemóveis espertos, para “abrir um bocadinho o livro“ Jorge Jesus anunciou que “vão jogar“ na certa “três ou quatro jogadores que já têm um base tática“ trabalhada com ele, do passado. Tinha um deles ali mesmo ao lado, pelos vistos dado aos gestos neste dia: Cristiano Ronaldo despediu-se da plateia esticando um braço, fechando a mão, deixando o indicador e o anelar. Dois dedos para a paz.