Odeio Futebol Moderno

Onze homens e nenhuma estátua

Francisco Conceição, rapaz ágil e de espírito inquieto, discutiu com o homem do apito, foi punido e teve de sair do jogo. Os onze eram agora dez. Nenhuma estátua. A Noruega insistiu, Rúben Dias e Renato Veiga foram fechando os caminhos, Diogo Costa guardou a baliza. Passaram os 90 minutos, passaram os cinco anunciados depois. Aos 96’, ouviu-se pela última vez o apito. Os homens podiam descansar

Um homem soprou num apito e a esfera rodou sobre si mesma. Descobriu-se então que um pé podia entregá-la a outro pé e continuar a correr, certo de que a encontraria mais adiante. A bola podia ir ter com qualquer um e qualquer um podia dar-lhe um destino. Os portugueses experimentavam estas novidades com evidente agrado. Nuno Mendes de um lado, João Cancelo do outro, subindo, descendo, reaparecendo como as primeiras espumas dos primeiros mares. Vitinha, oferecendo o objecto redondo a quem o instinto lhe ordenava, contanto que vestisse de igual. João Félix aparecia onde momentos antes só existia espaço. Gonçalo Ramos recebia de costas, devolvia, voltava-se, disposto a recebê-la outra vez. Os portugueses estavam a gostar uns dos outros. Era um diálogo feito com os pés. E era bom.

Os noruegueses também tinham vindo jogar. Antonio Nusa, escandinavo apesar do nome, rematou e Diogo Costa lançou-se para lhe impedir o sucesso. Aos trinta e seis minutos, na sequência de um livre de Martin Ødegaard, Kristoffer Ajer encontrou a bola à entrada da área e, com a parte de fora do pé direito, mandou-a para dentro da baliza dos rapazes portugueses. Fora um remate muito bonito. A rede acolheu a esfera e agitou-se com a força do impacto, dando assim a novidade aos que estavam mais longe. Bruno Fernandes, incumbido de liderar o conjunto, não fora capaz de cortar a bola ao homem da Noruega. Mas não desanimou, pois tudo era novo. E era possível.

No grande rectângulo luminoso apareceram os números um e zero.

Dois minutos depois, junto a uma das longas linhas brancas, Nuno Mendes ergueu a bola nas mãos e confiou-a a João Cancelo. A esfera bateu no chão, levantou-se, deu-se a jogar; e o rapaz, diante do grande rectângulo traçado à frente da baliza, mediu o que havia a medir e acertou-lhe em cheio. Foi uma pancada magnífica. Selvik estendeu-se, mas não chegou; já a bola estremecia naquele lugar da rede que nenhum braço seria capaz de alcançar.

Nas bancadas, gente colorida com os tons do conjunto português levantou-se de repente, como se aquele remate lhes tivesse restituído uma mobilidade perdida, e soltou um bramido no modo próprio de pronunciar a palavra “golo” na região onde a partida se disputava.

Ao intervalo, um golo para cada lado. Os rapazes recolheram para beber água e ouvir os homens que tinham ficado cá fora a pensar.

Quando regressaram, continuaram a conversa. Cancelo voltou a rematar, Selvik voltou a defender. Erling Haaland falhou o alvo e, pouco depois, saiu. Os espectadores de Portugal aplaudiram-no, no que parecia ser um sinal de quem está satisfeito com a própria vida e pode dispensar uns segundos a um adversário. E aplaudiram bem. Rúben Neves apareceu sozinho ao segundo poste e mandou a bola por cima: havia aquele céu enorme, que remates assim nos faziam recordar.

Aos setenta e nove minutos, Rúben Neves confiou no juízo de Vitinha, e Vitinha encontrou João Félix para lá dos defesas. Não é possível ter certeza do sentido que o passe levava, mas João Félix acrescentou-lhe a cabeça e encaminhou a jogada para Gonçalo Ramos que acompanhara tudo. Bateu-lhe na barriga da perna e entrou. Dois a um. A bola estava na rede e cada um tinha feito alguma coisa pelo outro.

Francisco Conceição, rapaz ágil e de espírito inquieto, discutiu com o homem do apito, foi punido e teve de sair. Simples. Os onze eram agora dez. Nenhuma estátua. A Noruega insistiu, Rúben Dias e Renato Veiga foram fechando os caminhos, Diogo Costa guardou a baliza. Passaram os noventa minutos, passaram os cinco anunciados depois. Aos noventa e seis, ouviu-se pela última vez o apito. Os homens podiam descansar.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

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