Opinião

O outro lado do apito: a preparação invisível dos árbitros

O outro lado do apito: a preparação invisível dos árbitros

Duarte Gomes

Diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol

Os árbitros treinam no duro fisicamente, seguem planos nutricionais, vão ao ginásio, analisam sistemas táticos e estudam as regras do jogo. O afinco é tanto ou maior do que o dos jogadores. Depois há outro trabalho invisível: o da preparação mental. Porque os erros nunca deixarão de existir, serão magnificados por jornais e redes sociais, e o segredo para minorar essa imperfeição é simples: trabalhar, trabalhar, trabalhar

Quando pensamos na figura do "árbitro de futebol", surge-nos quase sempre a imagem daquele homem/mulher de apito na boca, a tomar decisões discutíveis, rodeado por jogadores exaltados e por milhares de adeptos que assobiam a cada gesto.

O que poucos imaginam (ou nem sempre se lembram) é o que existe para lá desses noventa minutos de bola: um universo de preparação intensa, sacrifício e exigência. Uma exigência tão ou mais rigorosa do que a dos atletas que fazem do futebol a sua atividade diária.

Hoje em dia, a arbitragem do futebol profissional está longe de reduzir-se a infrações assinaladas ou ao agitar da bandeirola durante o jogo. É bom que se perceba isso.

Os árbitros seguem a passos largos para a profissionalização plena e vivem num regime de disciplina constante.

Treinam fisicamente quase todos os dias, seguem planos nutricionais pensados para a exigência diária, estudam e testam as leis de jogo, analisam sistemas táticos e vídeos sobre decisões complicadas. Além disso, participam em dezenas de seminários, têm sessões de coaching psicológico e são avaliados amiúde.

O nível de preparação técnica e física que lhes é pedido é altíssimo, embora possa ainda ser aumentado, melhorado. Naturalmente.

Há também um trabalho invisível que é feito com o apoio de uma equipa especializada: o da preparação mental. Um árbitro de topo tem que saber gerir pressão como poucos. Precisa de decidir em frações de segundo com milhões a observá-lo e sabendo que alguns erros, em função do palco ou da consequência, podem ser ampliados infinitamente na imprensa e redes sociais. É ainda importante que lidem adequadamente com a ansiedade pré-competitiva e com o impacto pessoal e familiar que resulta do escrutínio feito às suas atuações.

É necessário que tenham uma estrutura mental e emocional forte e é fundamental que aprendam a ser emocionalmente intransponíveis. Resilientes. Seguros.

Mas por muito que esse quotidiano de labuta esteja hoje num patamar elevado, há duas realidades incontornáveis: a primeira é que é sempre possível fazer melhor. É sempre possível trabalhar mais, com outro afinco e exigência, para obter melhores desempenhos individuais e coletivos.

A segunda é que os erros nunca deixarão de existir. Seria utópico exigir perfeição ou infalibilidade num universo demasiado humano, cuja essência do trabalho raramente é objetiva. E precisamente por isso que nas maiores ligas do planeta, nas grandes competições europeias, nas mais prestigiadas provas mundiais, há boas e más decisões.

O segredo para minorar essa imperfeição é simples: trabalhar, trabalhar, trabalhar. Exigir mais compromisso, foco, empenho e atitude. E esse compromisso existe. Essa vontade está lá, identificada, diagnosticada, balizada.

É também fundamental que cá fora todos percebam (e conheçam) a forma como se treina, prepara e analisam jogos. A demonstração do que é feito cá dentro credibiliza e desmonta a ideia de leviandade, de desonestidade, de premeditação maquiavélica.

Já percebemos há muito que a maioria dos erros resulta de inexperiência, comunicação deficiente, foco errado, precipitação, distração momentânea ou incompetência pontual (má aplicação da regra). O que também percebemos é que, apesar disso, não há desonestidade.

Todos os árbitros têm família. Têm filhos, pais, avós, tios e primos, amigas e amigos, colegas e vizinhos. São pessoas íntegras.

Devem ser responsabilizados por erros evitáveis, sim. Devem aceitar as consequências desportivas de más decisões que sejam impactantes, estruturantes. Certo. Mas o que não devem nem podem é serem rotulados de ladrões ou corruptos. Não é justo, nem é verdade.

Penso que é tempo de olharmos para estes agentes desportivos não como os vilões do costume, mas como alguém que é parte integrante do jogo, da indústria. Talvez seja tempo de reconhecermos que, se queremos um futebol melhor, precisamos de ser mais justos e equidistantes. As emoções são parte bela do espetáculo, a irracionalidade não.

Se todos fizermos a nossa parte, o futebol só tem a ganhar.

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