Opinião

Quando o futebol não está preparado para receber o que pediu

Quando o futebol não está preparado para receber o que pediu

Duarte Gomes

Diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol

O Conselho de Arbitragem suspendeu os programas de televisão, criados esta época, que visava explicar e analisar as decisões de arbitragem em Portugal. Infelizmente, bastaram poucos meses para percebermos que a opção, em vez de aproximar ou esclarecer, acabou apenas por alimentar mais focos de perturbação e ruído. Comunicar bem não é apenas falar, mas também perceber se quem está do outro lado está preparado para ouvir. Neste caso, parece-nos claro que muitos não estão

Há muito que o futebol português exigia à arbitragem maior transparência, menos corporativismo, mais voz ativa.

Durante muito tempo clubes, adeptos e imprensa foram unânimes a desafiar o setor a sair do seu habitual manto de silêncio para abordar publicamente questões relacionadas com arbitragem. 

Uma das solicitações mais repetidas era a da necessidade de se explicar abertamente lances de jogo, assumindo acertos e erros sem quaisquer tipo de tabus. 

Esta época, o Conselho de Arbitragem da FPF e a sua Direção Técnica decidiram responder afirmativamente a esse repto, por acreditarem que poderiam contribuir para melhorar a relação entre os vários agentes desportivos. 

Além da divulgação dos áudios entre árbitro e VAR (já existente em formato televisivo), criámos um programa no Canal 11 onde, entre outros temas, analisámos situações de jogo das ligas profissionais, explicando os critérios técnicos subjacentes às decisões. A escolha recaía sobre lances que geravam mais dúvidas, que tinham maior mediatismo ou bom conteúdo formativo.

Infelizmente, bastaram poucos meses para percebermos que a opção, em vez de aproximar ou esclarecer, acabou apenas por alimentar mais focos de perturbação e ruído.

As explicações técnicas dadas após os jogos amplificaram a histeria em torno dos frames e abriram novas frentes de ataque, dispensáveis numa classe já de si demasiado exposta e criticada.

Criou-se um fenómeno curioso e, diga-se de passagem, preocupante: ao primeiro momento de contestação - o que se seguia após o fim de cada jornada - juntou-se um segundo, aquele em que Diretor Técnico os abordava publicamente. Ou seja, o que nasceu para ser um passo rumo à eterna pretensão dos adeptos culminou com o aumento da polarização.

Esses danos colaterais (expectáveis, mas não a um nível tão irracional) obrigam a uma inversão de tática, conforme referiu e bem o Presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, numa entrevista dada esta segunda-feira. 

Comunicar bem não é apenas falar, mas também perceber se quem está do outro lado está preparado para ouvir. Neste caso, parece-nos claro que muitos não estão. E não estão não porque criticam ou discordam, mas porque utilizam a iniciativa como arma de arremesso com propósitos liminarmente opostos aos nossos.

Tal como também referiu Luciano Gonçalves, continuaremos a comunicar de forma franca, regular e responsável se entendermos que a mensagem é bem interpretada. Se não for, recusaremos a opção de sermos gasolina numa floresta propensa a incêndios. 

Talvez em breve a pedagogia e a vontade de encurtar distâncias possam ser vistas como aquilo que realmente tentam ser: um contributo sério para elucidar, desmontar mitos e humanizar uma função difícil, falível, mas, como qualquer outra na indústria, digna e respeitável.

A verdade é que, neste momento, o futebol precisa de serenidade e de responsabilidade coletiva e todos os que estão ligados ao fenómeno têm obrigação ética de contribuir nesse sentido. Nós também, ainda que sem nunca desfocar da meta. 

Se tem que ser com baby steps, que seja. 

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt