Luis Suárez e a fusão do cidadão com o profissional
Luis Suárez, avançado colombiano do Sporting, de cabisbaixo no final do jogo entre os leões e o Vitória para a I Liga 2026/27
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É difícil, quase impossível, separar o jogador do cidadão. Quando Luis Suárez dá uma entrevista ou publica nas suas redes sociais, mesmo que o faça como cidadão, o foco de interesse no que diz e porque o diz radica quase exclusivamente no facto de ser um craque de futebol. Quando as mensagens não são óbvias, maior é a curiosidade que suscitam. Ademais, se com constância e cadência as publica numa rede social, a sua intenção é essa mesmo: que haja reações
Advogado, Docente Universitário e ex-secretário de Estado do Desporto e da Juventude
Luis Suárez é um brilhante avançado, vinculado contratualmente à Sporting SAD, tendo recentemente representado a seleção do seu país, a Colômbia, no Mundial de Futebol.
Antes disso, Luis Suárez é um ser humano, um cidadão como qualquer um de nós, que para além da dimensão profissional, lida, no quotidiano, com múltiplas questões pessoais, desde logo de índole familiar.
Todavia, é difícil, quase impossível, separar o jogador do cidadão. Quando Luis Suárez dá uma entrevista ou publica nas suas redes sociais, mesmo que o faça como cidadão, o foco de interesse no que diz e porque o diz radica quase exclusivamente no facto de ser um craque de futebol. E de tal forma as questões se intersetam que em tempos, quer numa entrevista, quer num comunicado publicado nas redes sociais, o jogador falou abertamente do seu sofrimento fruto de não conseguir ver os três filhos mais velhos há mais de dois anos, “apesar de decisões judiciais favoráveis”. As redes sociais deste futebolista revelam também a sua fé, o seu compromisso com a religião, numa clara dimensão humana.
Serve este introito para tentar enquadrar as recentes publicações do goleador leonino na rede social Instagram, que têm suscitado interesse e, na medida em que são enigmáticas e alicerçadas em fontes bíblicas, fazem multiplicar especulações. Rui Borges, o treinador sportinguista, parece sugerir ser estulto tentar interpretar as palavras de Suárez: “Em relação a redes sociais, tantos jogadores metem mensagens. Não somos ingénuos, é a interpretação de cada um. Eu posso ler a mesma palavra e interpretar de outra forma. Ele mete, há volta de um ano, várias publicações. A malta lembrou-se agora de pegar nas publicações do Suárez. Não é assunto.”
Tem razão o treinador Sportinguista quando refere a dificuldade na interpretação. De facto, quando o atleta, sem dar nomes nem identificar as situações, alude, no Instagram, a “dificuldades” e a “angústia”, a quê e a quem se refere, se é que se refere a alguém? Desabafa por questões profissionais ou pessoais? E quando confessa ter “fracassos” e de seguida diz que “Deus não terminou a sua obra em mim”, estará a pensar em novos desafios pessoais ou futuras oportunidades profissionais? Mais: quando diz que, por força de Deus, “não deve ter medo”, pergunta-se: não ter medo de quê ou de quem? E serão questões pessoais ou obstáculos profissionais? Mesmo não criticando expressamente qualquer pessoa ou instituição, estará o atleta a deixar no ar que terceiros estarão a causar-lhe danos? E os terceiros, se os houver, serão do foro pessoal ou profissional?
Já não concordo, no entanto, com Rui Borges, noutro plano. Creio, salvo melhor opinião, que temos mesmo de tentar interpretar as palavras de Suárez. O que o cidadão e/ou atleta diz suscita interesse dos seguidores, dos fãs, dos media, do clube, do mercado de transferências (em curso…), de muita gente… E quando as mensagens não são óbvias, maior é a curiosidade que suscitam. Ademais, se Suárez, com constância e cadência, as publica numa rede social, a sua intenção é essa mesmo: que haja reações. Não são apenas reflexões pessoais, íntimas. Têm destinatários. Fazem eco. Geram consequências.
Mesmo que se invocasse que as publicações foram feitas pelo cidadão e não pelo futebolista [e aqui opino que até quando os futebolistas se apresentam sem as cores do clube ou da seleção e mesmo que numa conta pessoal/não institucional, o cidadão é indissociável do profissional], a verdade é que já causaram impacte na dimensão profissional.
São mensagens com contexto temporal: Suárez terá querido abandonar precocemente um treino; não tem jogado a titular; foi assobiado em Alvalade por muitos adeptos leoninos que não esquecem os alegados contactos, nunca verdadeiramente esclarecidos, entre o jogador e um candidato à presidência de um clube turco, o Fenerbahçe. Escreveu-se até que clubes como Newcastle e mesmo o Barcelona (este, entretanto, desmentiu) estariam a tentar aproveitar a aparente desmotivação do jogador e consequente vontade de sair, para o contratarem e … a ‘bom preço’ – “se a cabeça do jogador já não está em Alvalade, será então mais fácil e mais barato contratá-lo…”.
Aqui chegados, vem a importância das regras e da sua compatibilização, harmonização, concordância prática, a serem resolvidas caso a caso, em situações como esta de relação entre a entidade empregadora (titular do poder disciplinar) e o trabalhador, num domínio específico, o da relação laboral desportiva.
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Ora, desde logo, enquanto cidadão, Luis Suárez pode sempre invocar direitos humanos e fundamentais como a liberdade de expressão, a liberdade religiosa, até mesmo a reserva da vida privada.
Mas, simultaneamente, Luis Suárez deve lealdade à sua entidade empregadora, a Sporting SAD, impondo-se que se comporte no respeito pela ética e pela disciplina. Tal resulta do contrato de trabalho assinado com aquela sociedade desportiva, mas também por força da ‘Lei do Contrato de Trabalho Desportivo’, do Contrato Coletivo de Trabalho Liga/Sindicato, e de eventuais normas internas – Regulamento Interno/Código de Conduta. E é nesse quadro que também se deve abster de adotar condutas ou utilizar expressões (mais ou menos explícitas) suscetíveis de diminuir o seu valor comercial/os seus direitos económicos, porquanto tal vai logo afetar também quem lhe paga o salário e o pode ‘vender’.
Mais: sabendo-se que a cláusula de rescisão (no caso, 80 milhões de euros) protege a SAD, ao mesmo tempo que, uma vez paga, ‘desblinda’ o jogador, a verdade é que o mercado atual mostra que se negoceiam cada vez mais transferências abaixo daquele valor…
Luís Suárez, como cidadão e como profissional, não pode deixar de o saber: essas duplas qualidades fundem-se e, concorde-se ou não, se para muitas situações um futebolista deve ser juridicamente qualificado como um trabalhador como outro qualquer, noutras, assim já não é. E estão aí as leis, a doutrina e a jurisprudência a atestá-lo.
Direito no Desporto é um espaço de opinião semanal de Alexandre Mestre.