FC Porto

A maratona de Farioli que deu a melhor 1ª volta de sempre ao FC Porto começou na frase de Jorge Costa: “Voltámos a ter uma equipa”

A maratona de Farioli que deu a melhor 1ª volta de sempre ao FC Porto começou na frase de Jorge Costa: “Voltámos a ter uma equipa”
Diogo Cardoso

Finda uma metade do campeonato histórica, com 16 vitórias em 17 jornadas, só quatro golos sofridos e 13 clean sheets, o treinador do FC Porto falou durante quase uma hora, à Sport TV, na primeira entrevista que deu em Portugal. Francesco Farioli diz que se vê a ficar muito tempo no clube, repetiu a analogia à maratona para afugentar o trauma do Ajax e emocionou-se a contar uma história de Jorge Costa que serve de slogan para a equipa que adora ver a correr

Ele não soube de pronto, não ouviu a frase, quem a escutou não lha disse logo, o FC Porto já se vestia como um de esperança, era pré-época mas viam-se os sinais de que a equipa estava a fugir do sonambulismo recente. No Dragão ainda acalorado de verão, venceu com autoridade o Atlético de Madrid no último dos jogos a feijões dando o prenúncio que fez Jorge Costa, quilometrado com tanto futebol, confidenciar com certo alívio, no final, “voltámos a ter equipa”, sem que o desabafo do diretor para o futebol chegasse aos ouvidos do treinador. 

Nesse 3 de agosto Francesco Farioli estava de manga curta e sapatilha branca, não janota de camisa e gravata como a 7 de julho, nem com o sobretudo e a gola alta com que falou à Sport TV, neste 5 de janeiro do ano novo, na primeira entrevista em Portugal onde uma lágrima lhe escorreu do olho ao contar a história da frase que lhe chegou póstuma, dita pelo homem com quem conviveu durante coisa de um mês. O italiano apenas a soube no 5 de agosto em que Jorge Costa morreu, contada por Tiago Madureira e Henrique Monteiro, diretor-desportivo e vice-presidente: “É o slogan, é o nosso compromisso, a nossa responsabilidade para a memória do Jorge.”

O contentamento da ida lenda ficou guardado no italiano, emocionado ao recordar a história, a puxar os dedos das mãos e a pausar a fala para dar um dique às lágrimas. “O que o Jorge foi, é e será para o FC Porto é muito claro. Sentes a presença dele em todo o lado, o legado dele estará sempre cá”, disse com o Dragão vazio, em pano de fundo, o sol a raiar contra uma das bancadas do que ajudou a transformar de estádio em fortaleza: sete vitórias e um empate em oito jogos do campeonato, com apenas dois golos sofridos. Os mesmos que lhe conseguiram marcar nos outros nove que a equipa teve longe de casa.

A equipa que Jorge Costa viu de novo o FC Porto assenta na impermeabilidade defensiva, o destaque da temporada tem sido esse. A equipa é segura a proteger a baliza, os jogadores fartam-se de correr, a pressão alta está como regra, a reação à perda um mantra, os quilómetros que todos correm fazem o italiano sorrir por ter um fraquinho pelo cuidado com a capacidade atlética de quem treina. Sou um bocado paranoico com a parte física do jogo e a trajetória para onde o futebol vai é clara. Em todos os jogos corremos sempre mais do que o adversário”, salientou o treinador, à Sport TV.

Farioli tem 36 anos e, antes do FC Porto, treinou o Ajax, o Nice ou o Alanyaspor
Diogo Cardoso

A comer metros atrás de metros o FC Porto acumulou 16 vitórias em 17 jornadas de meio campeonato. Em 13 os dragões não sofreram golos, uma primeira volta histórica por ser a melhor de sempre, superando a do Benfica de Bruno Lage, em 2019/20. 

Desenrolar o novelo portista equivale a adensar a competência de metade do trabalho feito. Nenhuma equipa encaixou menos remates na baliza (28) do que o FC Porto, meros 17,3% do total de tentativas, mostram os dados da FBRef. A equipa mais próxima, o Sporting, registou quase o dobro (33,6%). Os dragões também foram a que menos toques dentro da sua área (188) permitiu aos adversários, olhar para os números sublinha a consistência da equipa e reforça a confiança que se nota a olho nu nos jogadores. Com prioridade depositada em controlar os jogos ao máximo, doseando o risco e obrigado os adversários a errar para daí extrair oportunidades de golo, mais do que as fabricar, o FC Porto vai avançando com saúde.

A prudência de Farioli não lhe permite um regozijo muito ousado, ele nunca esquecerá as últimas semanas vividas no Ajax, onde era líder com desafogo e liderou uma equipa que sucumbiu nas últimas jornadas, pontos atrás de pontos perdidos, um campeonato perdido com a meta à vista. O italiano chama-lhe “cicatrizes”, todos carregamos as nossas, as dele deram-lhe cautela. “O que estamos a fazer é especial. Mas os recordes de meio de época não dão troféus. O que está feito, está feito. Não há nada para celebrar”, reconheceu na sua estreia em entrevistas por cá, a responder em inglês a perguntas colocadas em português.

Não há tempo, vincou ele, “para auto-celebrações”, tê-lo como trauma pode ser um exagero, mas o que Farioli viveu em Amesterdão terá servido de aprendizagem para aplicar agora num lugar onde se vê a demorar. Os treinadores apreciam as hipóteses de longevidade, é comum ouvi-los gabar os projetos. “É a primeira vez na minha curta carreira que sinto que posso construir algo em cima de algo”, admitiu à Sport TV, já depois de em conferência de imprensa recente ter dito coisa parecida para enxotar rumores de que seria uma das hipóteses para preencher o banco sem dono do Chelsea.

Falador com pouco pé para travão e homem dado a analogias, já frisara também que o campeonato é uma maratona, “é longa e estamos a meio, temos de continuar”. Repetiu a metáfora depois do AFS e do Santa Clara, o treinador não quer revisitar o passado nos Países Baixos e sentado, de perna cruzada, aperaltado para a Sport TV, fez as costas de um punho bater na palma da outra mão ao falar do mini-estágio que o FC Porto fará esta semana, no Algarve, proporcionado pela eliminação precoce na Taça da Liga, único dissabor da época: “Vamos trabalhar no duro e refrescar a mente.” Já com Thiago Silva, o quarentão de muitas conquistas, defesa que vem para enrijecer a mentalidade que está a ser cultivada no Dragão.

Nas costas do brasileiro estará o 3, número outrora de Pepe, outro central que soube ser relevante até ao que dizem ser os novos trinta. Não o 2, esse era e será de Jorge Costa, o ‘Bicho’ querido do FC Porto. Ele falava-me da mentalidade de trabalho, da ligação com a cidade, que suar a camisola é inegociável. Ele estava connosco todos os dias nos treinos, a ver os jogaodres a sofrer, quase a vomitar no relvado. É por isso que ele continua connosco, contou Francesco Farioli na entrevista que o viu a emocionar-se ao revelar a frase simbólica. Foi a partir dela que este FC Porto partiu na sua maratona.

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