Râguebi

África do Sul e Nova Zelândia fizeram grupinho à parte no râguebi e inventaram uma competição

A última vez que os All Blacks e os Springboks se defrontaram antes da estreia da Greatest Rivalry Tour aconteceu em setembro de 2025
A última vez que os All Blacks e os Springboks se defrontaram antes da estreia da Greatest Rivalry Tour aconteceu em setembro de 2025
Icon Sportswire

Batizada de “Rugby's Greatest Rivalry”, a nova prova realizar-se-á a cada quatro anos nos moldes de um país fazer uma digressão pelo outro para se defrontarem em vários jogos. Vencedores, entre si, dos últimos cinco Mundiais, Springboks e All Blacks vão dividir irmamente as receitas da competição que criaram num período em que o râguebi está a experimentar remodelações no calendário internacional. O primeiro jogo é este sábado (16h, Sport TV5), em Joanesburgo

Há muitos sóis que no calendário oval o Rugby Championship, outrora denominado de Três Nações, depois Quatro Nações, chegando ao nome atual com a entrada da Argentina, era uma competição anual. Era certa, não falhava. Mas em 2026, pelos caprichos de dois países com apetite glutão, a prova ficará a cochilar porque os mastodontes do râguebi decidiram inventar um potencial pote de ouro e ver no que dá.

Vencedores, entre si, das últimas cinco edições do Mundial, e sem dúvida as seleções de maior apelo popular nos admiradores da modalidade, África do Sul e Nova Zelândia não se acanharam: a “Rugby’s Greatest Rivalry Tour”, batizaram-na como tal, é uma nova digressão com periodicidade quadrienal restrita às duas nações, rivais histórias do hemisfério sul do râguebi, apostadas em aproveitar o magnetismo da sua fama.

Os Springboks bicampeões do mundo, equipa mais dominadora desde a conquista da edição de 2019 do maior torneio do râguebi, sintonizaram agulhas com os All Blacks, seleção que é uma marca, famosa pelo Haka e as suas tradições maori, também conquistadora de dois Mundiais consecutivos (2011 e 2015) este século. Pertencendo hoje o púlpito aos sul-africanos - desde o final de 2019 que estiveram cerca de 75% do tempo na liderança do ranking da World Rugby -, uniram os seus interesses aos dos neozelandeses num período movediço do calendário da modalidade.

Ou, noutro resumo possível, juntaram-se para acautelarem as suas carteiras.

As federações de râguebi vão partilhar irmamente as receitas da digressão, concordando num 50-50 sobre os ganhos em bilheteira, direitos televisivos ou patrocínios. A série terá quatro jogos, três deles na África do Sul e o último, para dissipar dúvidas de que a invenção preocupada está com proveitos financeiros, ficou marcada para Baltimore, nos Estados Unidos, onde se constatou no recente Mundial de futebol como a tarifa dinâmica aplicada aos preços dos bilhetes pode engordar os cofres de quem os vende. A partida inaugural é este sábado (16h, Sport TV5) no Ellis Park, mítico estádio de Joanesburgo, palco da final do Mundial de 1995.

Em 2025, os sul-africanos foram a Wellington, na Nova Zelândia, vencer por 10-43: a mais pesada derrota na história dos All Blacks
Joe Allison

Uma digressão à British & Irish Lions

A Greatest Rivalry Tour nasce durante um período de reformulações no râguebi. Além de provocar um interregno no Rugby Championship do hemisfério sul, deixando a Austrália e a Argentina no limbo de terem de improvisar test matches num calendário cada vez mais atravancado de compromissos, surge em ano de estreia do Nations Championship, prova criada pela World Rugby para chocalhar e rejuvenescer o apelo do jogo de seleções.

De cadência bianual, disputa-se no verão e no outono, repartindo-se por duas janelas internacionais que antes eram preenchidas com encontros que as seleções combinavam entre si. Este novo torneio junta os países do Tier 1, os mais fortes, com o Japão e as Ilhas Fiji, desenrolando-se em paralelo com a Nations Cup, que replica o formato com países do segundo patamar da pirâmide oval - e inclui Portugal, atual segundo classificado do grupo onde se congregam as equipas europeias, africanas e asiáticas.

Escolhendo realizar-se no intervalo entre as fases dessa também recém-nascida prova, a Greatest Rivalry Tour pode remexer com as prioridades de Nova Zelândia e África do Sul, quiçá fazendo-as dar primazia este seu torneio e causarem consequências na necessária jigajoga a ser feita na escolha dos seus jogadores: a World Rugby limita os atletas, desde o ano passado, a 30 partidas completas por época, ou seis semanas consecutivas de jogos.

Em 2030 será a vez dos sul-africanos aconchegarem as malas e viajarem ao país para satisfazer um apetite de quatro anos, numa espera émula do que acontece com os British & Irish Lions, famosa seleção dos melhores jogadores das Ilhas Britânicas que se reune para visitar um país do hemisfério sul. De novo, a fome por uma refeição financeira não será inocente: em 2025, a Austrália e a sua endividada federação de râguebi acolheu a digressão, reportando depois lucros de €21 milhões relacionados com os atos de anfitriã dessa digressão. Neozelandês e sul-africanos saberão disto e quererão rentabilizar a popularidade das suas seleções.

Em caso de empate divide-se o troféu

A tête-à-tête tem vindo a inclinar-se a favor dos homens de Rassie Erasmus: venceram sete dos últimos 10 confrontos (e cinco dos derradeiros seis), além de terem conquistado as duas últimas edições do Mundial e do Rugby Championship. O experimentalista treinador, ávido em inovar para manter a África do Sul na proa dos acontecimentos - foi ele, por exemplo, quem começou a moda de compor o banco de suplentes com seis avançados e apenas dois 3/4, para refrescar a cavalagem da equipa nas segundas partes dos encontros -, vem liderando o râguebi de seleções no plano técnico e tático.

No mais recente duelo entre as tectónicas nações, os Springboks visitaram os All Blacks e, em Wellington, venceram por 10-43, resultado traumático para os ilhéus. Foi a mais pesada derrota da história da seleção neozelandeza, tendo precipitado o despedimento de Scott Robertson para entrar o atual treinador, Dave Rennie. É tempo para novas faíscas no rol de visitas de um país ao outro, generosas em centelhas e, ao início, em igualdade de forças - algo que se quis honrar nesta nova competição.

Porque em 1921, quando os sul-africanos foram à terra do rival em digressão, deu-se uma vitória, um empate e uma derrota para cada lado, filme repetido em 1928, na primeira viagem da Nova Zelândia ao país no rés-do-chão de África. Como tal, neste ano de véspera de Mundial, desenharam um troféu de forma triangular que é a junção de duas peças gémeas. E no campo, caso empatem ao fim dos quatros jogos, deixar-se-ão estar assim: não haverá partida de desempate. E cada país levará um pedaço igual do caneco.

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