O melhor Sporting da era moderna teve a grande noite europeia de que precisava
O efusivo festejo dos jogadores do Sporting após o quarto golo marcado ao Bodø/Glimt
Gualter Fatia
Alvalade presenciou, nos últimos 15 anos, duas graves crises que abalaram o estatuto dos leões. Mas o clube reergueu-se, é bicampeão nacional e, perante o Bodø/Glimt, conferiu dimensão europeia ao período dourado que vive, alcançando uma reviravolta de proporcões e sabor raros
Fosse este Sporting aquele Sporting, o Sporting que transportava consigo um certo aroma a desgraça, um peculiar tipo de trauma existencial, uma angústia carregada às costas em mochila pegada como íman, e o arranque do prolongamento poderia ser um momento para a equipa se encolher. Fosse este Sporting o Sporting dos complexos, do quase, com medo da sombra, e o remate ao poste de Nuno Santos, que faria o 4-0 e evitaria os 30 minutos suplementares, traria um gosto de “era aqui”, de chance desperdiçada.
Mas este Sporting não é aquele Sporting. É possível mudar o ADN? Talvez não. Mas é possível alterar relatos, guiões, narrativas pré-estabelecidas. Há menos trauma em Alvalade, sabe-se o que é ganhar, não há fatalismo.
O 4-0 de Nuno Santos não entrou, mas mantém-se a energia. A eliminatória vai para prolongamento, então entramos nele como no tempo regulamentar.
Ou ainda melhor. Se nos primeiros instantes do fim de tarde houve uma fuga de Maxi Araújo pela esquerda para Trincão falhar o alvo, ali os papéis inverteram-se, o português do bigode assistiu e o uruguaio que tresanda a uruguaio pela competitividade que evidencia finalizou. E não falhou.
Tinham decorrido 83 segundos desde o apito do árbitro para o período suplementar. Foi o golo mais precoce da história dos prolongamentos da Liga dos Campeões. Mais do que isso, foi o Sporting a rejeitar o velho Sporting, a negar as sensações de momentum perdido, de “não os ‘matamos‘ nos 90 minutos, agora demos-lhes uma vida extra”.
O resultado final do Sporting-Bodø/Glimt, um marcador para a história
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É apenas a segunda vez que os leões, clube nascido sob o desígnio de ser “grande, tão grande como os maiores da Europa”, estão entre os oito melhores do continente. A primeira foi em 1982/83, quando a Real Sociedad eliminou os lisboetas nos quartos de final da Taça dos Clubes Campeões Europeus.
O fim de tarde que se transformou em noite contra o Bodø/Glimt representou a noite europeia que este Sporting, o novo Sporting, tanto necessitava. O período é de alegrias em Alvalade, com três títulos de campeão nacional desde 2020/21, os últimos dois seguidos, algo que não se via no lado verde e branco da capital desde os anos 50.
Não restavam dúvidas que, no futebol profissional masculino, este é o melhor Sporting da era moderna, o mais ganhador desde a fase dos sete campeonatos em oito anos no pós-Segunda Guerra Mundial. A reviravolta perante os noruegueses deu a esta pujança doméstica o selo internacional, completando o círculo da recuperação do clube.
Por vezes é fácil esquecer que, no passado recente, houve em Alvalade crises que ameaçaram, até, o estatuto do Sporting como força capaz de ganhar títulos. Em 2012/13, o sétimo lugar na I Liga, pior classificação de sempre, conjugou-se com uma brutal crise financeira para obrigar quase a um recomeço desportivo. Pior sucedeu na primavera de 2018, quando a invasão à Academia de Alcochete atirou os leões para o caos institucional e a incerteza desportiva.
Maxi Araújo a celebrar efusivamente o seu golo contra o Bodø/Glimt, que deu ao Sporting a passagem aos quartos de final da Champions
Menos de 13 anos depois do sétimo lugar e antes do oitavo aniversário do ataque ao plantel leonino, eis o melhor Sporting da era moderna: bicampeão nacional, nos quartos de final da Liga dos Campeões, com uma estabilidade diretiva, também ela, quase desconhecida, com saúde financeira. Na última vez que se festejaram duas ligas seguidas no clube ainda nem as competições da UEFA eram uma realidade. O tetra verde e branco foi entre 50/51 e 53/54 e a Taça dos Clubes Campeões Europeus é uma criação de 1955/56. Esta projeção na principal prova continental, somada a esta competitiva interna, é inédita por aquelas paragens.
Uma reviravolta em modo avalanche
Ver Rui Borges no banco na segunda mão dos oitavos de final foi como assistir a uma versão acelerada do transmontano, um Rui Borges com uma grande dose de cafeína em cima. Gesticulava, esbracejava, pedia mais e mais aos seus futebolistas, como que empenhando em que a energia - a palavra mais comum do léxico do técnico - não baixasse.
Chegou a parecer que Diego Simeone aterrara em Lisboa, tal a ânsia de percorrer cada centímetro quadrado da área técnica, de puxar pelo público, de jogar um jogo a partir da linha lateral. Terminada a remontada, Borges pegou na adrenalina para reinvindicar o seu próprio estatuto.
“Continuem a dizer que o treinador é fraco para o Sporting, que o treinador não tem capacidade para o Sporting. Mas esquecem-se que o treinador é campeão nacional e merece mais respeito“, atirou o técnico, complementando a resposta com uma outra, em que fez uso do clássico “quanto mais duvidam, mais eu ganho“, ao dizer: “O meu trajeto fala por mim e o meu trabalho. Não sou de estatutos, sou de trabalho, e vou continuar a ser assim.“
A exultação de Morte Hjulmand, o capitão do Sporting, no final do jogo contra o Bodø/Glimt
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O caudal ofensivo do Sporting impressionou. Foram 38 remates, 14 deles enquadrados com a baliza, 16 cantos, largas dezenas de minutos passados encostando a equipa da moda no continente à sua baliza.
O arranque foi com o vigor e a agressividade que se desejavam, qualidades que não se perderam com o passar dos minutos. Nunca uma equipa portuguesa apontara cinco golos na fase a eliminar da Liga dos Campeões, juntando-se o Sporting a Deportivo La Coruña (2003/04, frente ao AC Milan), Barcelona (2016/17, perante o PSG), AS Roma (2017/18, contra o Barcelona) e Liverpool (2018/19, novamente com o Barça do outro lado) como conjuntos capazes de dar a volta a uma desvantagem de três ou mais golos no mata-mata da Champions.
O derrubar do teto de cristal da Liga dos Campeões
“O Neto disse que conhecíamos o melhor Bodø, mas o Bodø não conhecia o melhor Sporting.”
Rui Borges revelou o conteúdo das palavras de Luís Neto, o antigo futebolista que agora faz parte do staff leonino, antes do apito inicial. E o “melhor Sporting” não se refere só à exibição, mas ao patamar histórico.
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Para os leões, os oitavos de final da Liga dos Campeões teimavam em ser uma maldição. Depois de terem antigido os quartos de final da Taça dos Campeões nos anos 80, a mudança de formato não foi muito amiga do Sporting, que durante largas épocas somente teve aparições esporádicas no degrau cimeiro da pirâmide da UEFA.
Com efeito, apenas duas vezes na era Champions estivera, até agora, nos oitavos de final da Liga dos Campeões. Em ambos os casos, os desfechos foram duras goleadas, primeiro com o histórico 12-1 contra o Bayern, em 2008/09, depois com um 5-0 perante o Manchester City, em 2021/21.
Esta é a primeira eliminatória que o Sporting ultrapassa na era Champions. No global da competição, desde que superaram o CSKA Sófia para se juntarem à Real Sociedad nos tais quartos de final da edição de 1982/83 que os lisboetas não se impunham nesta fase a eliminar do torneio.
O grito final dos jogadores do Sporting com os adeptos, após a goleada ao Bodø/Glimt
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Para esta campanha histórica - e milionária, já agora -, com vitória perante o campeão europeu em título incluída, muito tem contribuído a força caseira do Sporting. Houve cinco vitórias nas cinco partidas em casa, numa equipa que já vai em 16 triunfos consecutivos, somando todas as competições, enquanto visitado. Está a uma de se isolar como a melhor série de sempre no seu reduto.
Para conectar as proezas internas ao êxtase internacional, levando o Sporting para o lago dos tubarões dos quartos de final, até os goleadores do já eterno 5-0 tiveram um simbolismo romântico: começou-se com um produto da formação, passou-se para o jogador mais significativo do amorismo, continuou-se com o grande goleador do presente, ganhou-se vantagem no agregado com um candidato a MVP da época e selou-se a contagem com novo produto da formação.
O círculo cerrou-se. O melhor Sporting de que há memória já tem uma campanha europeia a condizer.