Oleksandra Oliynykova foi até à Austrália espalhar a mensagem: “A guerra na Ucrânia não acabou. Precisamos da vossa ajuda”
Oleksandra Oliynykova durante o encontro perante Madison Keys no Open da Austrália
James D. Morgan
Fugiu para a Croácia com 10 anos, devido às críticas que o pai fez ao então presidente Yanukovych, mas hoje descreve-se como a única tenista profissional que vive e treina em Kiev. A ucraniana estreou-se num quadro principal de Grand Slam contra Madison Keys e aproveitou os holofotes de Melbourne para criticar a presença de jogadoras russas e recolher dinheiro para a brigada de defesa anti-drone do seu pai
Mesmo a fechar a conferência de imprensa, Oleksandra Oliynykova confessou que o encontro que acabara de disputar tivera um espectador especial. O seu pai, que desde o verão de 2024 é voluntário no exército ucraniano, enviara-lhe uma mensagem, descrevendo a exibição da filha como “fantástica”.
“Concretizei um sonho dele. O que é mais importante? Haveria maior motivação? Não consigo imaginar algo maior”, disse a tenista, de 25 anos.
Oliynykova ainda tinha as pernas doridas da estreia no quadro principal de um major. Na verdade, a ucraniana nunca havia competido, sequer, no quadro principal de um WTA 250, a mais baixa categoria do circuito mais importante do ténis feminino.
A primeira vez foi logo em grande. Do outro lado esteve Madison Keys, campeã em título do Open da Austrália. A 92.ª do ranking WTA vendeu cara a derrota na primeira partida, só caindo no tie-break (8-6) contra a 9.ª da hierarquia, tendo o segundo set sido bem mais desequilibrado, com a norte-americana a impor-se por 6-1.
No court, Oleksandra chamou a atenção pelo visual arrojado, pelas tatuagens, pela semelhança com uma heroína de um qualquer videojogo passado num universo paralelo de fadas e elfos. Mas foi fora do terreno de jogo que as palavras da ucraniana ecoaram com mais força, tanto antes como depois do embate da primeira ronda.
Oliynykova é a 92.ª do ranking WTA
Robert Prange
A conta de Instagram da tenista começa logo a espalhar a mensagem. O handle é @_drones4ua.org, uma forma de anunciar a página que a jogadora criou com o objetivo de recolher donativos para a brigada de defesa anti-drone à qual o seu pai se juntou há ano e meio.
Em entrevista com o conhecido jornalista Ben Rothenberg, Oliynykova deixou bem claro que está nos maiores torneios para “contar uma história”, consciente que este palco “pode ajudar imenso”: “Há imensas raparigas na Ucrânia na mesma situação que eu: à espera dos seus pais, irmãos ou maridos, porque eles estão no exército. Disse a mim mesma que estaria aqui para contar isto”, explica quem assegura que, “se antes trabalhava a 100%”, agora esforça-se “a 300%” para estar nestes cenários.
Honesta, diz que “a maior motivação não é o ténis”, mas sim “ter uma grande plataforma para representar os ucranianos”, com uma mensagem fundamental: “A guerra na Ucrânia não acabou. Precisamos da vossa ajuda.”
Na conferência de imprensa que se seguiu à derrota com Keys, a tenista surgiu com uma camisola que ajudava, em inglês, a partilhar a ideia. “Preciso da vossa ajuda para proteger as mulheres e crianças ucranianas, mas não posso falar sobre isso aqui”.
Algo enigmática, manteve a reserva quanto questionada pelos jornalistas presentes. Disse saber como “ajudar a proteger os ucranianos contra os drones”, mas sublinhou que só poderia dizê-lo “fora do torneio”, talvez para não ferir alguma regra do Open da Austrália ou da própria WTA.
Da Ucrânia para a Croácia, da Croácia para Kiev
Viver na instabilidade não começou em 2022 para Oleksandra. Natural de Kiev, foi viver para Odesa aos oito anos. Em 2011, quando tinha 10 anos, fugiu com a família para Zagreb e tornou-se refugiada, porque o seu pai criticou publicamente Viktor Yanukovych, o então presidente pró-russo que viria a ser condenado por traição e vive exilado na Rússia.
Carlos Alcaraz e Jannik Sinner na final do último US Open
A família Oliynykova pôde regressar à Ucrânia em 2014, na sequência da Revolução da Dignidade, mas Oleksandra manteve-se em Zagreb. Chegou a competir com a bandeira croata enquanto jovem tenista, mas acabaria por voltar a Kiev.
Ao contrário de Marta Kostyuk (21ª WTA), que vive em Monte Carlo, ou Dayana Yastremska (43ª WTA), que reside em Lyon, Oliynykova mantém-se a treinar em Kiev, definindo-se a si própria como a única tenista profissional que se mantém na capital ucraniana. As dificuldades do quotiano são inúmeras: “No dia antes de viajar para a Austrália, houve um enorme ataque russo. O meu apartamento começou a tremer, porque houve uma explosão bastante próxima. Ficamos muitas vezes sem eletricidade, frequentemente por períodos de cerca de 15 horas, o que significa ficar sem aquecimento”, contou a Ben Rothenberg.
A ascensão e as russas
2025 foi um ano de grande crescimento competitivo da ucraniana. Com o fogo interior de dar visibilidade à causa do seu país, nomeadamente à unidade do seu pai, Oliynykova saltou de fora das 250 primeiras, onde estava em janeiro de 2025, para dentro do top 100, onde terminou a época passada e iniciou esta.
O impulso maior deu-se entre setembro e novembro. De forma consecutiva, venceu torneios WTA 125 em Itália, Argentina e Chile, ganhando pontos para se estrear na primeira centena do ranking e garantir vaga no Open da Austrália sendo virgem em presenças em quadros principais de provas do circuito principal.
Phil Walter
Oliynykova teme que a guerra, “por já ser muito longa”, seja “esquecida”. E não poupa nas críticas à presença de bielorrussas e russas no ténis profissional feminino.
A ucraniana diz que as jogadoras dessas nacionalidades “deveriam ser desqualificadas”: “Podem parecer divertidas, com roupas giras, filmando Tik Toks, publicando no Instagram e parecendo miúdas normais. Mas são perigosas”, atira, acusando “muitas delas” de serem “apoiantes” de Vladimir Putin e de Aleksandr Lukashenko, ainda que sem concretizar.
A nº1 feminina, Aryna Sabalenka, é bielorussa. Entre as 30 primeiras, há cinco russas: Mirra Andreeva (7ª), Ekaterina Alexandrova (10ª), Ludmilla Samsonova (18.ª), Diana Shnaider (19ª) e Anna Kallinskaya (30ª). Todas competem, oficialmente, como neutrais, sem bandeira.
Ao disputar a competição em Melbourne, Oleksandra Oliynykova recebeu, de longe, o mais chorudo cheque da sua carreira, no valor de €86 mil. A tenista foi até à Austrália sozinha, sem treinador ou qualquer auxílio técnico ou físico, tudo para poupar nos gastos. E garante que, mesmo que este tipo de encaixes se torne mais comum, manter-se-á pouco gastadora.
“Quando não sabes o que acontecerá amanhã, não te sentes bem em gastar dinheiro ou a viajar com uma grande equipa. Provavelmente continuarei a ir aos torneios sozinha, tentando maximar esta oportunidade — também do ponto de vista financeiro — para ajudar soldados ucranianos”.