A festa brasileira voltou a Roland-Garros. O culpado é João Fonseca, fundador do “Fonsequismo“
João Fonseca a celebrar um ponto durante Roland-Garros
James Fearn
João Fonseca é um jovem carioca, de 19 anos, tornou-se o mais novo brasileiro a chegar aos quartos de final de um Grand Slam. A campanha em que já eliminou Novak Djokovic e Casper Ruud reacendeu memórias de Gustavo ‘Guga‘ Kuerten e trouxe o barulho de volta aos courts de Roland-Garros, onde está nos quartos de final
Gustavo Kuerten estava sentado nas bancadas de Roland-Garros quando o compatriota João Fonseca derrotou Casper Ruud e tornou-se, aos 19 anos, o mais jovem brasileiro de sempre a chegar aos quartos de final de um Grand Slam. Paris viu um miúdo do Rio de Janeiro escrever um novo capítulo da história do ténis enquanto, a poucos metros, o homem que na década de 90 transformou a terra batida francesa num território brasileiro assistia a tudo como um espetador da própria herança.
Nos últimos anos, Roland-Garros virou uma fotografia antiga para o ténis brasileiro: as camisolas amarelas de ‘Guga‘, o cabelo desgrenhado, os mergulhos no pó de tijolo, os gritos de entusiasmo em português que ecoavam por todo o court. Agora, de repente, Paris voltou a ouvir o mesmo barulho. Só que vindo de outra geração, outra linguagem, outro corpo, outro ritmo.
João Fonseca chegou ao torneio como quem entra numa sala onde não conhece ninguém: discreto, mas com a sensação íntima de que, se lhe dessem espaço, dançaria melhor do que todos. E dançou. Saiu da primeira semana como um dos protagonistas absolutos do torneio. Pelo caminho, eliminou Novak Djokovic numa batalha de cinco sets e a seguir afastou Casper Ruud, duas vezes finalista em Paris.
À volta começou-se a ver bandeiras do Flamengo nas bancadas, cânticos de futebol, jornalistas espanhóis a escreverem que “mais uma estrela nasce em Paris” , e um país inteiro a trocar o velho debate sobre a seleção brasileira por vídeos de passing shots e golpes cruzados.
A imagem que melhor resume esta campanha talvez seja a de um fotógrafo brasileiro que, ao registar a reviravolta contra Novak Djokovic, acabou a chorar atrás da câmara. “Foi uma loucura”, contou à Globo. Paris viu o jogo, o Brasil sentiu-o.
Djokovic cumprimenta João Fonseca depois de ter sido derrotado pelo brasileiro, em Roland-Garros
DeFodi Images
A campanha já garantiu ao jovem carioca um prémio de cerca de 330 mil euros e abriu caminho para uma sequência de vitórias que ninguém ousaria prever. Mas o ténis, como a vida, raramente respeita o que está escrito no papel. A primeira explosão veio contra Djokovic. Não foi apenas uma vitória: foi um verdadeiro abalo sísmico. O sérvio saiu rendido ao brasileiro e a imprensa internacional chamou ao feito “épico”.
E como se Djokovic não bastasse, veio Casper Ruud, especialista no saibro, como se diz em português com sotaque do Brasil. Fonseca não quis saber. Explicou depois que o encontro tinha sido “meio que uma batalha de quem era mais agressivo“. Ruud, antes da partida, já o tinha descrito como “jovem talento especial”. Acabou por perceber que não era exagero.
A naturalidade do brasileiro tem sido uma constante. Após garantir os quartos de final, limitou-se a dizer: “O sonho continua.” E talvez seja isto que torne tudo isto tão difícil de enquadrar: João Fonseca não se comporta como um prodígio fabricado para o estrelato, é antes um rapaz de 19 anos que joga ténis de forma assustadoramente séria.
A festa brasileira na terra batida
O percurso até aqui já teria dimensão histórica mesmo sem o nome de Djokovic no caminho. Mas foi precisamente aí que Paris começou verdadeiramente a parar para olhar e, sobretudo, ver.
Na noite da vitória sobre o sérvio, Roland-Garros ganhou um ambiente raro para um jogo que não envolvia franceses. Os brasileiros transformaram as bancadas numa espécie de estádio sul-americano transplantado para Paris. O barulho foi tanto que vários relatos da imprensa internacional falaram num ambiente “de futebol”.
A Globo escreveu que os brasileiros trocaram as pretensções do hexa no Mundial de futebol por Roland-Garros nas redes sociais e descreveu a repercussão internacional da vitória como “épica”. Cantam entre pontos, gritam o nome de João Fonseca em coro, berram “out“ em bolas do adversário que caem dentro do campo, levam bandeiras e obrigam os franceses a lidar com uma energia que o protocolo do ténis normalmente tenta domesticar. E João Fonseca alimenta-se disso. Quanto mais caótico o ambiente, mais confortável parece ficar.
Djokovic percebeu imediatamente o que tinha acontecido. “Ele deve estar orgulhoso de si mesmo”, disse o sérvio após o encontro, elogiando o “nível alto” da batalha. Noutra declaração reproduzida pela imprensa brasileira, Fonseca admitiu em relação ao sérvio: "Ele estava a destruir-me.” Uma frase que ajuda a perceber o jogo por dentro: não houve um adolescente inconsciente a atropelar uma lenda, houve um miúdo obrigado a sobreviver mentalmente contra um dos maiores competidores da história do ténis. Talvez por isso a vitória tenha impressionado tanto quem conhece o circuito.
A imprensa espanhola fala numa nova estrela. Em França, os jornalistas começaram a seguir-lhe os treinos com uma atenção normalmente reservada a campeões estabelecidos.
Sem Jannik Sinner, Carlos Alcaraz e Novak Djokovic em prova, Roland-Garros abriu uma porta improvável a uma geração nova. A ideia de João Fonseca poder “fazer uma gracinha”, expressão portuguesa perfeita para estes momentos, deixou de soar totalmente romântica. Ainda não é o favorito do torneio, mas deixou de ser absurdo imaginá-lo numa conversa.
A comparação com ‘Guga‘ apareceu naturalmente, embora Fonseca fuja dela sempre que pode. Depois de vencer Ruud sob o olhar do tricampeão brasileiro na terra batida de Paris, fez questão de sublinhar o significado daquele momento: “É um prazer tê-lo aqui.”
João Fonseca durante o jogo com Casper Ruud, em Roland-Garros
Clive Brunskill
A nova geração que desafia o circuito
A Gazeta do Povo faz o retrato do jovem brasileiro, deixando perceber que Fonseca não é o produto de uma academia rígida, mas de um país onde o improviso é uma forma de sobrevivência.
Fã de Roger Federer, Fonseca cresceu a jogar ténis no Rio de Janeiro, mas também futebol na rua, surfava quando podia e tinha energia para três vidas. É expansivo, afetuoso, fala com as mãos, ri alto, abraça toda a gente. Um talento bruto com uma maturidade competitiva que não combina com a idade. Contra Casper Ruud, recusou entrar no jogo paciente do norueguês. Frente a Djokovic, sobreviveu emocionalmente aos momentos em que pareceu prestes a cair.
Jogam-se agora os quartos de final e com eles vem uma pressão que ainda não existia verdadeiramente. Até aqui, tudo encaixava num perfil de descoberta, promessa, surpresa. A partir deste momento, começa a existir expectativa real. O próximo capítulo traz o gigante checo Jakub Mensik, apenas um ano mais velho que o brasileiro. É alto, pesado, experiente, dono de um serviço potente. Fonseca já o elogiou, considerando “um jogador muito bom, muito completo” que joga bem na terra batida”.
O encontro está marcado para terça-feira (19h15, Sport TV). Dos 330 mil euros já assegurados passará para cerca de 580 mil com a presença nas meias-finais. Se chegar à final, o prémio ultrapassa 1 milhão de euros e, se ganhar o torneio, leva mais de 1,65 milhões de euros e entra num território que nenhum brasileiro pisa desde 2001. Mas mais do que dinheiro, ranking ou estatística, o que está realmente em jogo é outra coisa: a confirmação de que este miúdo de 19 anos não é apenas uma surpresa de duas semanas, mas o início de algo maior.
Já tem nome de movimento e tudo. Os brasileiros chamam-lhe “Fonsequismo”.