A frieza de Jakub Mensik foi o melhor antídoto para o bombardeiro João Fonseca
A celebração de Mensik após vencer
Dan Istitene
Em dois sets muito seguros e um terceiro altamente equilibrado, o checo triunfou na cimeira de jovens contra o brasileiro por 6-4, 6-3 e 7-6 (3), após duas horas e 47 minutos, chegando às meias-finais de Roland-Garros. Mensik não enfrentou qualquer break point até ao derradeiro parcial, quando Fonseca pareceu estar melhor, mas a consistência do menos expressivos dos dois prevaleceu
No fim, vindos de uma partida final a roçar os 90 minutos de duração, concretizado o sétimo match point, Jakub Mensik quis festejar resumindo o estado mental em que se apresentou nestes quartos de final de Roland-Garros. Nem para celebrar mostrou os dentes, apresentando uma face confiante, quase desafiante, dominando as emoções, clamando para si a vitória, mas sem perder as estribeiras.
O checo tem 20 anos, mas cometeu poucos pecados de juventude perante o mais inconsistente — para o bem e para o mal — João Fonseca. Até ao set de conclusão, o trabalho de Mensik foi de desarmar lenta, mas convictamente, o seu apetrechado adversário. Para fechar houve um trabalho mais entusiasmante, no limite, dando até a sensação de lutar contra o seu próprio corpo, ainda que jamais perdendo a postura.
Os 6-4, 6-3 e 7-6 (3) levam Mensik para as meias-finais, onde defrontará Zverev, o grande favorito neste Roland-Garros do inesperado, do caos, das oportunidades que se abrem para quem costuma viver na sombra dos demais. Mas Mensik tem luz própria.
O Philippe-Chartier encontrava-se inundado com o cheiro a nova geração. 20 anos para o checo, 19 para o brasileiro, um embate de petizes a fazer recordar outra eliminatória de quartos de final, há duas décadas, em Roland-Garros, entre um tenista de 20 anos chamado Rafael Nadal e outro de 19 de seu nome Novak Djokovic. Viriam a erguer, entre ambos, 46 majors.
Pois bem, para contraste, não há qualquer campeão de torneio de Grand Slam em prova desde os oitavos de final, algo que não sucedia desde 1968 no evento gaulês. As lesões, o calor ou adversários mais novos foram tirando grandes campeões de cena, abrindo espaço para gente como Mensik e Fonseca, os dois em estreia entre os oito melhores de competições do nível maior da bola amarela.
As duas ucranianas abraçam-se na rede no final do jogo: há muito mais do que ténis entre elas
O encontro decorreu com o teto fechado, respondendo à ameaça de chuva. Já não se vive a mesma canícula em Paris, que foi vendo a noite chegar lá fora, no exterior deste court principal onde um checo de 1,96 metros foi fazendo um exercício de inexpressão facial.
Jakub Mensik é frio, cerebral, regular. Calcula possibilidades, pensa as pancadas, não pareceu afetado pelo peso do momento nem pelo fogo de artifício alheio.
E é fácil ficar embasbacado perante a potência, velocidade e poderia das bombas que saem da raquete de João Fonseca. Embalado pelo apoio do público das bancadas, o jovem brasileiro lançou torpedos como uma direita, no parcial inaugural, a 185 quilómetros por hora, a mais veloz de Roland-Garros até ao momento. Os adeptos brasileiros voltaram a ser muito vocais, por vezes em excesso, manifestando-se durante os pontos e recebendo avisos por parte do árbitro.
Cedo se depreendeu que Mensik era o mais estável em cima da terra batida. Até aos problemas que teve no terceiro set, realizou duas primeiras partidas quase perfeitas, isentas de erros, sólidas. A agressividade de Fonseca era bem defendida por Jakub, também ele regularmente a mostrar as garras. O jogo de rede do checo foi-se evidenciando — voleando com elasticidade de bailarino e aplicando o smash com confiança incomum — e foi perto do seu limite de espaço que foi confirmado o break no segundo set.
Fonseca estreou-se em quartos de final de torneios do Grand Slam
Clive Brunskill
Os 6-4 e 6-3 a abrir traduziram a qualidade do bloco de gelo talentoso que equipava em parte de branco, em parte de preto. João mostrou o seu descontentamento, recolhendo ao balneário antes do recomeço para o terceiro parcial.
Passada mais de hora e meia de ténis, João Fonseca dispôs do primeiro ponto para quebrar o serviço alheio. À segunda chance, fê-lo mesmo. Mensik deu, no terceiro set, janelas de oportunidade a João Fonseca, que fisicamente denotava menos o desgaste.
Lentamente, o encontro foi tendo sucessões de breaks desconhecidas até aí. João Fonseca levantou o público com momentos Alcarezcos, entre a direita com fogo e toques leves junto à rede. A 6-5, o brasileiro resumiu a sua exibição, flutuando entre equívocos e brilhantismo. É o primeiro homem do seu país a habitar esta fase de um major desde Guga em 2004. Gustavo Kuerten estava nas bancadas e, como toda a gente, sairá com a convicção de que Fonseca regressará a este nível em breve.
O tie-break final voltou a trazer Mensik em modo fiabilidade. Esqueceu as fragilidades físicas, leu a sala, compreendeu que era o momento de fechar a eliminatória. O “Fonsequismo” sai de Paris com a moral em alta, mas é um checo que vai atrás do outro neste Roland-Garros do imprevisível.