Antes de ir trabalhar em gestão de património, o show de Gaël Monfils despediu-se do US Open com um recorde
Gaël Monfils tornou-se no US Open de 2026, a par de Roger Federer e Novak Djokovic, um de três tenistas que venceram jogos em Grand Slam durante 22 temporadas consecutivas
Mike Stobe
Nova Iorque viu a última aparição de Gaël Monfils num Grand Slam. Aos 40 anos, o francês perdeu na segunda ronda contra Learner Tien sob aplausos constantes do público, reconhecedor do legado do tenista que nunca venceu um Grand Slam, nem entrou no top 5 do ranking, mas, como ele disse na despedida, tentou “sempre dar um grande espetáculo” quando entrou em campo. Está a acabar a temporada de adeus de um dos jogadores mais acarinhados do circuito
Há coisa de um mês Learner Tien fez figas, em Montreal, para o que acabara de acontecer sucedesse uma vez mais, pelo menos uma, mesmo “não havendo muitas mais oportunidades”. Esperançado pela bênção da juventude, o canhoto norte-americano, cheio de costelas vietnamitas, já tivera o que pretendia de Gaël Monfils ao derrotá-lo no Masters canadiano - e nem era a vitória. Conseguira um autógrafo do francês, seu adversário mas antes disso um dos seus ídolos.
Foi ele, um tenista profissional, a personificar a apreciação tida por muito boa gente. Com 20 anos vividos, calhou ao felizardo Tien coincidir de novo com quem o dobra em idade no US Open para ficar com mais uma assinatura do tipo sem Grand Slams conquistados, dono de 13 títulos ATP, jamais entrado sequer no top 5 do ranking mundial e apesar de tudo encantador de incontáveis corações ao longo de duas décadas de carreira.
O filho de refugiados Hoa, minoria étnica chinesa do Vietname, que se fixaram na Califórnia, Learner Tien não gozou do apoio do público do US Open apesar de nascido no país. Enquanto se sobrepôs sem espinhas, em três sets (6-3, 6-4, 6-3), ao parisiense, as bancadas do estádio Louis Armstrong, o segundo maior do Grand Slam nova-iorquino, veneraram Monfils ao entoarem o seu apelido entre pontos.
Com o desenrolar do resultado todos souberam que seria uma noite de despedida. Aos 40 anos, gastas as suas articulações depois de tantas pancadas batidas em suspensão como se calçado com molas ao invés de sapatilhas, corporizando um ténis rockeiro, a fazer guitarra da raquete com acordes drásticos, era a última vez de Gaël num major. Passado nos ecrãs gigantes do recinto o vídeo de homenagem que provou o legado de raquetadas espetaculares, com ritmos fortes, muitas no court batizado com o nome do lendário trompetista de jazz, tocou depois a Monfils agradecer o carinho dos presentes.
Fê-lo mais uma vez, como na Austrália, em Wimbledon e na sua casa tenística de Roland-Garros. “Obrigado a todos. Foi uma longa viagem, vim cá pela primeira vez em 2003, ainda era júnior, e cá estou eu em 2026. Senti todo o amor e posso dizer-vos que são o meu segundo melhor público a seguir a Paris, claro. Foi uma honra absoluta jogar diante de vocês ao longo de todos estes anos, tentei sempre jogar um ténis de alta performance”, disse o francês, adicionando um ponto crucial que substancia quem ele é, e porque é tão adorado:
—“Também tentei sempre dar-vos um grande show.”
Monfils realçou que nunca se esquecerá do amor recebido em Nova Iorque, onde se estreou no quadro principal sénior em 2005 contra Novak Djokovic. O sérvio ganhou em cinco parciais a caminho de ser um dos mastodontes do ténis, cujo legado é inamovível como as caras da Ilha da Páscoa. O francês teve a fortuna, ou azar, de coincidir com ele. Como tantos outros contemporâneos, a carreira de Gaël esbarrou contra essa parede e as de Roger Federer e Rafael Nadal, mas despediu-se do US Open com um registo positivo de 34 vitórias e 18 derrotas. Lá chegou às meias-finais, em 2016, oito anos após o fazer em Roland-Garros.
Sem trepar às mesmas façanhas da estratosfera, Monfils logrou neste US Open um feito antes só concretizado pelo suíço e o sérvio: ganhar pelo menos um jogo em Grand Slams durante 22 temporadas consecutivas.
Com um sorriso omnipresente no seu rosto e alcunhado de showman, Monfils cativou apreciadores de ténis ao longo de duas décadas, colhendo os frutos de um carinho consensual ao longo desta temporada que logo anunciou ser a do seu adeus à vida de raquete na mão. Até o responsável da comunicação do US Open, ao apresentar o francês na sua derradeira conferência de imprensa em Nova Iorque, o descreveu como “um dos grandes entertainers de todos os tempos, de todo desporto”. Não terá fugido à verdade.
Gaël Monfils fez o seu último jogo em Roland-Garros, aos 39 anos: foi o 17º que se estendeu a cinco sets
O quarentão desabafou que tem tentado permanecer um pouco mais nos torneios, esforçar-se um pouco mais, tentar um nico além, contrariando o tempo que espera por ninguém e neste edição do torneio se fez implacável contra outras lendas: fez chorar, também vomitar, Djokovic ao ser eliminado na primeira ronda, e despediu Stan Wawrinka, outro tenista já no que dizem ser os novos trinta e a jogar também a última época da carreira. “E eu sou eu, sou o Gaël Monfils, sou o mesmo desde que entrei no circuito, com muita alegria”, desabafou o gaulês em resposta à habitual pergunta nestas ocasiões de como gostaria de ser lembrado.
Casado com Elina Svitolina, jogadora ucraniana que ainda terá uns quantos anos de ténis dentro dela (está na terceira ronda do US Open), com quem teve uma filha, Monfils planeia dedicar-se ao setor financeiro quando se despedir de vez do ténis lá mais para o final de 2026. Muitos autógrafos ainda irão pedir ao tenista que acumulou mais de 21 milhões de euros em prize money no circuito ATP. “Já assinei contrato com uma empresa suíça de gestão de património”, revelou. A próxima itineração de Monfils será entre quatro paredes, sentado à secretária e dentro de um escritório.
Parece estar em paz com isso, aliás, com tudo: “Há pessoas que talvez se tenham sentido entretidas ao verem-me, outras talvez não. Seja o que for, está tudo bem.”