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Quando o racismo, futebol e Vini Jr. se reencontraram na Luz

O Benfica-Real Madrid foi interrompido durante 10 minutos após Vinícius Júnior se queixar de um alegado insulto racista de Prestianni
O Benfica-Real Madrid foi interrompido durante 10 minutos após Vinícius Júnior se queixar de um alegado insulto racista de Prestianni
Valter Gouveia/Getty Images

Vinícius Júnior queixou-se de um alegado insulto racista de Gianluca Prestianni, o que levou à interrupção do Benfica-Real. A UEFA iniciou uma investigação, cuja conclusão não surgiu antes do jogo da segunda mão do play-off da Liga dos Campeões, na quarta-feira, mas a entidade decidiu suspender preventivamente o jogador encarnado

Atualizada às 12h32

Quando o racismo, futebol e Vini Jr. se reencontraram na Luz

Pedro Barata

Jornalista

Na quarta-feira, perante um Santiago Bernabéu cheio, o Benfica visitará o Real Madrid para tentar virar a derrota (0-1) sofrida na primeira mão do play-off de acesso aos oitavos de final da Champions. Lá entrará sem José Mourinho, expulso no Estádio da Luz, por isso impedido de regressar a uma casa outrora sua sentado no banco. Para já, não sabemos se Gianluca Prestianni poderá estar também.

Ainda decorre a investigação da UEFA à queixa feita por Vinícius Júnior de que o argentino lhe terá dirigido um insulto racista na Luz e, face aos ecos da polémica, alastrados pela Europa fora e com direito a comentário de várias figuras de peso no futebol, a entidade poderia anunciar o seu desfecho antes do reencontro entre merengues e encarnados. Não aconteceu, mas a entidade agiu na mesma, suspendendo preventivamente o argentino para o impedir de jogar em Madrid e, potencialmente, agravar a turbulência mediática em torno do caso.

Em março de 2021, durante um Rangers-Slavia Praga, Glen Kamara queixou-se de Ondrej Kudela. O jogador dos escoceses alegou que o checo chamou-o “macaco de merda”, tapando a boca e falando ao ouvido do adversário.

Kudela negou os factos, o Slavia defendeu-o, mas, 26 dias após o encontro, a UEFA castigou-o com 10 jogos de suspensão por “comportamento racista”. Inicialmente, o checo recorreu da decisão, chegando a levar o caso ao Tribunal Arbitral do Desporto, em Lausanne, mas acabaria por admitir o delito, pedindo publicamente desculpa.

Esta situação constitui o precedente mais parecido com a situação que se viveu no Estádio da Luz, na terça-feira. Não pelo desenlace verificado, já que é uma incógnita saber o que se passará, mas pelos factos que conhecemos: um jogador acusa outro de racismo, o visado defende-se, as alegadas palavras foram ditas de boca tapada.

Depois de marcar o golo que levou o Real a bater o Benfica, Vinícius Júnior queixou-se ao árbitro de ofensas racistas por parte de Gianluca Prestianni. No final da partida, Mbappé concretizou a versão dos factos apresentada pelo colega, dizendo que o argentino “pôs a sua camisola por cima da cara para dizer cinco vezes ao Vini que era ‘um macaco’”.

Regras para adeptos

Quando François Letexier ouviu Vinícius, o árbitro iniciou o protocolo de três passos a utilizar em circunstâncias de alegado racismo. Primeiro fez uma espécie de “X” com os braços, um gesto introduzido após o congresso da FIFA em Banguecoque, em 2024, e que serve para identificar a situação e interromper o jogo.

No entanto, estes procedimentos estão virados para quando os insultos venham das bancadas, não de jogadores. Depois de parado o desafio, deve-se realizar um anúncio, através do sistema sonoro do estádio, ordenando que as ofensas parem.

Retomado o encontro, caso o abuso prossiga, o duelo volta a ser suspenso, com as equipas retornando aos balneários. Uma terceira prevaricação levará a dar o jogo como terminado. Este protocolo, desenhado para quando os réus são adeptos, ficou-se pelo primeiro passo na Luz.

Caso seja culpado, a sanção mínima para Prestianni são 10 jogos de suspensão

Prestianni, através das redes sociais, negou a acusação. A UEFA já nomeou um inspetor “ético e disciplinar” para “investigar alegações de comportamento discriminatório”. É provável que ambos os jogadores, e eventuais testemunhas, sejam chamados a depor. Os regulamentos ditam que Prestianni, se for considerado culpado, será suspenso por um mínimo de 10 jogos. Em Portugal, a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto, sob a tutela do Governo, instaurou “um processo de contraordenação” para “apuramento dos factos”. A Federação Portuguesa de Futebol nada disse, tal como Luís Montenegro, primeiro-ministro, que assistiu ao encontro na tribuna da Luz.

A reincidência

“Racistas são, acima de tudo, cobardes”, escreveu Vinícius após o sucedido, recordando que “nada do que aconteceu” é “novidade” na sua carreira. Segundo informação da liga espanhola, já houve 26 casos de racismo contra o brasileiro em estádios do país vizinho desde outubro de 2021. Os delitos contra o futebolista dizem respeito a insultos de adeptos e já valeram sentenças graves. Em 2024, três adeptos do Valencia foram condenados a oito meses de prisão efetiva e, um ano depois, quatro do Valladolid levaram um ano de prisão por terem gritado “puto negro”.

Se há precedentes de punições contra adeptos, ter sido um futebolista o alegado prevaricador coloca interrogações. Há dois exemplos de castigos nestas circunstâncias, ambos em Inglaterra: Luis Suárez apanhou oito jogos em 2011 por insultos racistas contra Patrice Evra, John Terry foi castigado com quatro encontros, em 2012, por ofensas a Anton Ferdinand.

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