O ciclismo português virou um cemitério? “Daqui a 10 anos não há gente que queira ser ciclista, nem há ciclistas“
O pelotão a pedalar na Senhora da Graça durante a edição de 2025 da Volta a Portugal
TIAGO PETINGA
Três jovens ciclistas anunciaram recentemente a retirada da modalidade, justificando a decisão com a falta de condições. Queixam-se de que a aposta na juventude “é zero“ e juntaram-se a uma lista extensa: nas últimas cinco épocas, 30 corredores com menos de 25 anos abandonaram as equipas continentais portuguesas.
O pelotão português transformou-se num ‘cemitério’ de jovens carreiras, com Hélder Gonçalves, José Sousa ou António Ferreira a serem os mais recentes ciclistas a desistirem do seu sonho por falta de condições ou desmotivação.
A tendência não é nova, mas tornou-se particularmente visível no final da temporada passada, quando Gonçalves, de 25 anos, e Sousa, de 26, partilharam com poucos dias de diferença publicações em que anunciavam o final da carreira, desiludidos com o rumo do ciclismo português.
Semanas depois foi a vez de António Ferreira, também de 25 anos, encostar a bicicleta, num final de época que acentuou uma realidade cada vez mais preocupante.
A senda dos abandonos precoces no pelotão nacional cresceu substancialmente nas últimas cinco épocas, nas quais três dezenas de corredores com menos de 25 anos abandonaram as equipas continentais portuguesas, deixando definitivamente o ciclismo ou optando por continuar em formações amadoras.
Cândido Barbosa (primeiro a contar da direita) foi eleito presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo em novembro de 2024
“Nunca aconteceu no nosso ciclismo tantos talentos como o caso do António, José Sousa e mais pessoas que eu também sei que ficaram sem equipa, mais miúdos [abandonarem]. Tenho colegas que estão a trabalhar em fábricas aqui na minha cidade e por aí fora. Desistiram porque as condições que lhes propuseram não são as melhores, não quiseram continuar a compactuar com todo o sistema e decidiram abraçar outros projetos da sua vida”, contou Hélder Gonçalves.
A aposta nos jovens “é zero“
Em declarações à agência Lusa, o engenheiro de software considerou triste que corredores “com muita qualidade e jovens que supostamente deveriam estar agora a atingir a maturidade máxima no desporto” tenham decidido acabar a carreira.
“Neste momento, a única coisa que devemos fazer é perceber porque é que os atletas novos desistiram. Há alguns casos que foi mesmo por saturação máxima, mas sei que há atletas, meus colegas, que tinham todo o prazer e gostavam de continuar, mas é impensável. As equipas que estiveram envolvidas nesses processos deviam perceber o que é que deveriam melhorar, se deveriam ter dado mais ou menos condições, o que aconteceu”, defendeu.
Igualmente entrevistado pela agência Lusa, José Sousa instou as equipas, mas também os responsáveis pela modalidade, da federação aos organizadores, a fazerem “autocrítica” e avaliarem o que vai mal no ciclismo português.
“Isto também é um mal que não é de agora e que se vai resolver daqui a um ou dois anos. Isto foram erros, na minha opinião, que foram cometidos, que nos trouxeram onde estamos agora”, defendeu.
Para José Sousa, neste momento, a aposta nos jovens e na formação é “zero” e daqui a 10 anos “não há gente que queira ser ciclista, nem há ciclistas, nem há matéria-prima para trabalhar”.
“Em 2018, quando subi a profissional, ainda como sub-23 no Miranda-Mortágua, a Volta a Portugal do Futuro tinha uma dimensão que tem agora, se calhar, uma corrida normal de profissionais. Morreu um bocadinho a Volta a Portugal do Futuro e, depois, […] muitos diretores fazem as equipas [sub-23] para encher os bolsos e não é para formar os miúdos”, denunciou.
Federação está preocupada
Em declarações à Lusa, o presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo disse estar “efetivamente” preocupado com “alguma precariedade” na modalidade, “desde logo na formação”.
“Não têm 'nascido' novos atletas. Temos a pirâmide demasiado alta, porque temos campeões da Europa, campeões do Mundo e campeões olímpicos, e não temos uma base sustentável”, avaliou Cândido Barbosa.
O dirigente admitiu que o ciclismo português precisa de se “atualizar”, embora esteja a “exportar ciclistas” para “o mais alto nível como nunca esteve”.
Sobre a onda de retiradas precoces, Barbosa considerou ter também “a ver um pouco com a geração”.
“O ciclismo português não está de todo a acompanhar o que é a evolução do ciclismo lá fora. Por isso é que estamos a fazer um trabalho na base”, afirmou.