Uma borboleta bate as asas algures e isso cria uma tempestade noutro ponto do globo. Um anónimo futebolista belga bate as asas, o efeito passa pelo Luxemburgo e isso cria uma tempestade em todos os outros pontos do globo.
Jean-Marc Bosman era um jogador desconhecido. A sua vida teria passado indiferente à maioria da humanidade, não fosse a vontade de levar o que entendia ser uma tremenda injustiça a tribunal.
Era 1990. O Estrela Vermelha, de Belgrado, estava a meses de se tornar campeão europeu. Bosman vira o seu contrato com o Royal Football Club de Liège terminar, pretendendo aceitar uma oferta do Dunquerque e ir jogar para França.
Jogador livre, negócio a custo zero, movimentação feita. Sim? Não. Isso é o pós-Bosman que Bosman não viveu.
Por muito que o contrato tivesse terminado, o RFC Liège podia exigir o pagamento de uma compensação ao Dunquerque, uma prática que, por exemplo, não existia em Portugal (note-se as idas a custo zero de Futre, Rui Águas e Dito para o FC Porto ou de Jaime Pacheco e Sousa para o Sporting). Ora, o valor pretendido pelo Liège era quatro vezes superior ao que os belgas inicialmente haviam dado pelo futebolista. Os franceses não acederam ao montante pedido. Simultaneamente, o novo vínculo que o RFC Liègue ofereceu a Bosman era quatro vezes menor do que o anterior.
Jean-Marc sentiu-se preso. Sem força para sair de um contrato que terminara, mas que ainda dava ao empregador anterior poder sobre si. E foi para a justiça, abrindo não um, mas três casos: Bosman contra a Federação Belga, Bosman contra o RFC Liège, Bosman contra a UEFA.
Os processos foram avançando, chegando ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) sob a forma única de “Caso Bosman”. Jean-Marc, naquele altura, já não era um desportista, era um símbolo, quase nome de código, palavra que definia um conjunto de normas jurídicas em disputa.
A decisão foi anunciada a 15 de dezembro de 1995, meses depois de o Ajax sagrar-se campeão europeu. O TJUE decidiu que, estando em causa a liberdade de movimentação dos trabalhadores dentro do espaço comunitário, qualquer jogador poderia sair a custo zero no fim do contrato. Adicionalmente, como não se podiam discriminar outros cidadãos comunitários dentro do espaço da União Europeia, declarou-se que teria de deixar de haver número limite de estrangeiros que podiam alinhar nas ligas nacionais e nas competições europeias.
Nunca o veredicto de um tribunal teve tanto impacto na história do futebol. Naquela década cheia de mudanças que impactariam o jogo — a criação da Premier League, o nascimento da Liga dos Campeões, a realização do Mundial nos Estados Unidos, a chegada massiva do dinheiro da televisão por cabo a Itália, Inglaterra ou Espanha —, nenhuma mexeu tanto com a correlação de poder como as consequências de Bosman.
Sem estarem presos ao antigo clube, os futebolistas ganharam força negocial, podendo aguardar pelo fim do contrato para receberem em prémios de assinatura ou salários o que poderia ser pago em transferências entre equipas. Ainda mais importante foi o fim das fronteiras, o cessar das limitações na composição dos plantéis.
Os clubes de mercados mais fortes — que estavam a ficar mais fortes com o dinheiro da televisão paga que começava a inundar esses países — já não tinham limites para abarcar o talento das ligas financeiramente menos robustas. O processo de acumulação de qualidade foi irreversível, numa bola de neve que juntava melhores jogadores a melhores equipas, melhores equipas a melhores resultados, melhores resultados a mais dinheiro, mais dinheiro a mais fama. O que dava melhores jogadores, e assim sucessivamente.
Em Lisboa, Glasgow, Amesterdão ou Belgrado, os sonhos europeus foram minguando. Os que antes eram adversários tornaram-se compradores, numa relação predatória. O que antes era esperança de vitória tornou-se perspetiva de lucro.
Nos 10 anos antes de Bosman, houve campeões europeus vindos dos Países Baixos (Ajax), Itália (Milan), França (Marselha), Espanha (Barcelona), Jugoslávia (Estrela Vermelha), Portugal (FC Porto) e Roménia (Steaua Bucareste). Sete países diferentes, quatro deles fora das chamadas big 5.
Nos 30 anos depois de Bosman, só houve um campeão fora das big 5, o FC Porto, e tal já se deu há mais de 20 anos. Meses depois do início do caso, o Estrela Vermelha foi campeão europeu. Meses antes da conclusão, o Ajax foi campeão Europeu. Agora que se cumprem três décadas do veredicto, vejamos os campeões europeus das cinco últimas temporadas: PSG, com odinheiro do Catar; Real Madrid, que é o Real Madrid; Manchester City, com o dinheiro deAbu Dhabi; Chelsea, com o dinheiro de Abramovich.
O melhor que Ajax ou PSV, Benfica ou FC Porto, Dinamo Zabreg ou Celtic podem fazer é agradecer por ainda haver uma Liga dos Campeões que lhes permite participar, e não uma Superliga sem eles.
Portugal tinha mais títulos de campeão europeu que França (ainda tem o dobro, atenção), Glasgow contava mais Taças dos Campeões que Londres, Amsterdão apresentava mais troféus da principal prova europeia que Barcelona. Mas a realidade que permitira tais feitos já não existia.
Os países longe dos maiores mercados tornaram-se especialistas em ver os seus melhores longe de casa. Última competição que os Países Baixos disputaram antes de Bosman? Mundial 1994: 14 futebolistas (em 22 convocados) jogavam na Eredivisie. Países Baixos no Euro 2024? Só seis homens (em 26) representavam clubes neerlandeses.
Última competição de Portugal pré-Bosman? Euro 1984: todos os convocados jogavam em Portugal. Portugal no Euro 2024? Seis convocados (em 26) estavam na I Liga. Última competição da Jugoslávia antes de Bosman? Mundial 1990: 13 (em 22 escolhidos) estavam na liga local. Croácia — a mais bem-sucedida equipa das nações que saíram da Jugoslávia — no Euro 2024? Seis escolhidos (em 26) na competição doméstica.
E Bosman, que foi feito dele? Do homem, da pessoa, não do processo? A batalha jurídica desgastou-o. Tornar-se uma causa, e não um ser humano, foi demasiado pesado. Passou por uma depressão, divorciou-se, teve problemas com álcool. Em 2020, confessou que vivia dos €2 mil que a FIFPro, união internacional de sindicatos de jogadores, lhe pagava.
“Estou orgulhoso de ter libertado milhares de trabalhadores europeus, mas passei muito mal depois daquela luta”, admite. A luta que revolucionou uma das mais populares expressões culturais da história da humanidade.
O que se passou
Depois de perder em Munique, o Sporting arrasou o AFS. Após derrotar o Nápoles, o Benfica não teve problemas em Moreira de Cónegos.
Portugal é vice-campeão europeu de corta-mato misto. A equipa é composta por Rodrigo Lima, Patrícia Silva, Isaac Nadar e Salomé Afonso.
Rui Patrício, o mais internacional guarda-redes da história da seleção,retirou-se. E poderá passar a ir às festas de Natal dos filhos. Restam 12 jogadores no ativo que venceram o Euro 2016: Ronaldo, José Fonte, Moutinho, Anthony Lopes, Danilo, Cédric, William, André Gomes, João Mário, Rafa Silva, Raphaël Guerreiro e Renato Sanches.
A Fórmula 1 tem novo campeão do mundo. Quem é Lando Norris? Também nas quatro rodas motorizadas mais famosas, Helmut Marko, o homem a quem os pilotos da Red Bull temiam atender o telemóvel, saiu de cena.
Saudades do atribulado planeta Mundial 2026? Pois bem, se lá quiser ir, particularmente aos jogos de Portugal, prepara-se para gastar muito dinheiro. E mais uma questão: Egito e Irão não gostaram de calhar no jogo e na cidade onde se vão defender o sdireitos LGBTQ+.
As ondas gigantes da Nazaré acordaram e Nicolau Von Rupp apanhou a bomba do dia. O surfista conquistou, pela terceira vez seguida, Tudor Nazaré Big Wave Challenge por equipas.
Zona mista
“A gravidade dos factos não nos permite suspender estas penas.”
O juiz presidente do coletivo que julgou a operação “Prova Limpa” justificou as penas do maior escândalo de doping da história do desporto português: Adriano Quintanilha, antigo patrão da W52-FC Porto, e Nuno Ribeiro, então diretor desportivo, foram condenados a penas efetivas de quatro anos e nove meses de prisão. O tribunal deu como provado que Quintanilha pagava as substâncias dopantes, enquanto Ribeiro, que já como corredor fora apanhado em doping, fazia a ligação com os corredores, que tiveram penas suspensas. Que este triste caso tenha servido para algo numa modalidade que continua envolvida em polémicas, ainda que de outra natureza.
O que aí vem
Segunda-feira, 15
⚽ O fecho da jornada 14 da I Liga: SC Braga-Santa Clara (18h45, Sport TV2) e FC Porto-Estrela da Amadora (20h45, Sport TV1)
⚽ Na Premier League, o United de Amorim recebe o Bournemouth (20h00, DAZN). Na La Liga há Rayo-Betis (20h00, DAZN) e em Itália a Roma recebe o Como (19h45, Sport TV3)
🎱 Snooker, Open da Escócia (13h00, Eurosport1)
Terça-feira, 16
🏀 Na NBA, Denver Nuggest-Houston Rockets (02h30, Sport TV1). Na europeia Liga dos Campeões, Gran Canaria-Benfica (19h00, Sport TV2)
⚽ Quartos de final da Taça da Liga inglesa: Cardiff-Chelsea (20h00, Sport TV1)
🎿 Esqui Alpino, Taça do Mundo em Courchevel, nos Alpes franceses (16h30, Eurosport 2)
🏒 🧊 NHL: Tampa Bay Lightning-Florida Panthers (00h00, Sport TV3)
Quarta-feira, 17
⚽ Arrancam os oitavos de final da Taça de Portugal: Vila-Meã-União de Leiria (14h00, Canal 11), Casa Pia-Torreense (18h30, Canal11), Vitória SC-AFS (20h00, Canal 11) e Farense-Benfica (20h45, RTP1/Sport TV1)
⚽ Mais quartos de final da Taça da Liga inglesa: Manchester City-Brentford (19h30, Sport TV2) e Newcastle-Fulham (20h15, Sport TV3)
🏒 Liga de hóquei: SC Tomar-Sporting (21h00, DAZN)
🎾 Arrancam as Next Gen ATP Finals, torneio que concentra os oito melhores tenistas sub-20 que tenham querido participar. É na Arábia Saudita e, perante as ausências de Jakub Menšík e João Fonseca, o mais cotado participante é Learner Tien (11h00, Sport TV2)
Quinta-feira, 18
⚽ Mais Taça de Portugal, com o Sporting no terreno do Santa Clara (18h45, Sport TV1) e o FC Porto a receber o Famalicão (20h45, RTP1/Sport TV2)
⚽ Primeira meia-final da Supertaça de Itália, que se disputa na Arábia Saudita. O Nápoles defronta o Milan (19h00, Sport TV3)
⚽ Disputa-se a sexta e última jornada da fase regular da Liga Conferência: AEK Atenas- Universitatea Craiova (20h00, Sport TV4), Crystal Palace-KuPS (20h00, DAZN) ou Lausanne-Fiorentina (20h00, DAZN)
🎾 Prosseguem as Next Gen ATP Finals (11h00, Sport TV2)
⛷Taça do Mundo de combinado nórdico em Ramsau, na Alemanha (09h05, Eurosport 1)
Sexta-feira, 19
⚽ Começa a jornada 15 da I Liga, com um Estoril-SC Braga (20h15, Sport TV1)
⚽ A outra meia final da Supertaça de Itália é entre Bologna e Inter (19h00, Sport TV2)
🎾 Next Gen ATP Finals (17h30, Sport TV6)
🏈 NFL: LA Rams-Seattle Seahawks (01h15, DAZN)
⛷️🔫 Biatlo, com a Taça do Mundo de Le Grand-Bornand, em França
Sábado, 20
⚽ Há dois encontros da I Liga, com o Gil Vicente a receber o Rio Ave (18h00, Sport TV1) e o Moreirense a deslocar-se à Amadora para defrontar o Estrela (20h30, Sport TV1)
⚽ Em dia de oito jogos na Premier League, destaque para o Newcastle-Chelsea (12h30, DAZN), o City-West Ham (15h00, DAZN), o Tottenham-Liverpool (17h30, DAZN) ou o Everton-Arsenal (20h00, DAZN). Em Itália, há duelo entre Juventus e Roma (19h45, Sport TV2) e em Espanha o Real Madrid recebe o Sevilla (20h00, DAZN)
🏀 Quer ver NBA a horas mais amigas do sono? Denver Nuggests-Houston Rockets (22h00, Sport TV3)
🎾 Next Gen ATP Finals (16h00, Sport TV7)
🛷 Mais desporto de inverno? Há sim! Luge, Taça do Mundo em Lake Placid (18h20, Eurosport 2)
Domingo, 21
⚽ Numa ronda do campeonato que se arrasta até terça-feira, há AFS-Nacional (15h30, Sport TV1), Tondela-Casa Pia (18h00, Sport TV1) e Santa Clara-Arouca (20h30, Sport TV1)
⚽ A fantástica Taça das Nações Africanas, em Marrocos, começa com a seleção anfitriã a receber Comoros (19h00, Sport TV7)
⚽ Na Bundesliga, o Bayern no terreno do Heidenheim (16h30, DAZN). Na La Liga, destaque para o Villarreal-Barcelona (15h15, DAZN) e, na Premier League, Aston Villa-Manchester United (16h30, DAZN)
🏈 NFL: Pittsburgh Steelers-Detroit Lions (21h30, DAZN)
🎾 A final das Next Gen ATP Finals (17h00, Sport TV6)
Hoje deu-nos para isto
Olhando friamente para o calendário, dezembro é sempre o último mês do ano. Mas, no ciclismo, é uma espécie de mês zero, de tempo que, já não sendo da época que terminou, ainda não é propriamente da temporada que aí virá. É o momento dos primeiros estágios coletivos e da fundamental definição de objetivos, de saber quem terá que corridas na mira.
Depois de dois anos seguidos a fazer o Tour, João Almeida não tem a competição francesa no menu de 2026. O caldense, em conjunto com a Emirates, optou pela dupla Giro-Vuelta, com a expetativa de liderar a mais endinheirada e vencedora equipa do pelotão em ambas as corridas de três semanas.
Não ir ao Tour significa não ter de trabalhar para Pogačar, o rei-sol, que procurará o penta em França. A ideia de Almeida é clara: sem distrações eslovenas, ir com tudo em busca de ganhar uma grande volta. Já foi terceiro em Itália. Já foi segundo em Espanha. Já andou duas semanas de rosa no Giro. Aos 27 anos, é época para acreditar que o lugar mais alto do pódio é possível.
Algo se transformou em João em 2025. Mais confiante. Mais ofensivo. Mais letal. Vencedor. 10 triunfos na época, incluindo as gerais das voltas ao País Basco, Romandia e Suíça e aquela exibição no Angliru. Forçou Vingegaard, bicampeão do Tour, a ir ao limite na Vuelta. A expetativa é continuar a elevar a fasquia em 2026.
Enquanto se prepara no frio de Andorra, nas manhãs nevadas do principado, João pedala com um objetivo que nunca escondeu. Sem rodeios, sem meias-palavras: ser o primeiro português de sempre a ganhar uma grande volta. Consegui-lo em 2026 atiraria o rapaz que nasceu em A-dos-Francos para a mesa onde só se sentam Carlos Lopes, Rosa Mota, Cristiano Ronaldo e poucos mais.
Tenha uma boa semana, já com a CAN a arrancar no próximo domingo. Há Angola e Moçambique, grandes estrelas e diversas seleções que prometem marcar o próximo Mundial (e pode espiar o Congo, o que possivelmente será útil). Obrigado por nos acompanhar, lendo-nos no site da Tribuna Expresso, onde poderá seguir a atualidade desportiva e as nossas entrevistas, perfis e análises. Siga-nos também no Facebook,Instagram e no Twitter.
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