Tribuna 12:45

Isto só acontece no futebol mas o Torreense não ganhou a Taça de Portugal por acaso

A tão inesperada quanto doce festa do Torreense no Jamor
Sports Press Photo

Ontem, a assistir à final da Taça de Portugal, lembrei-me um ror de vezes de uma conversa que mantive há um par de meses com um taxista em Buenos Aires. Fomos do futebol feminino na Argentina e de como se impressionava com os treinos das miúdas da equipa do Vélez Sarsfield, clube mais perto de sua casa, apesar de ser adepto do River, até aos perigos de visitar o estádio do San Lorenzo, onde eu iria nesse final de tarde - deu-me bons conselhos de segurança. Quando já estava a chegar ao meu destino, aquele senhor quase com idade para ser meu avô já tinha entrado numa reflexão sobre a importância do futebol numa sociedade que deixou de se permitir sonhar, a não ser quando a sua equipa ou seleção jogam. Fez então uma pequena pausa, suspirou e disse:

“Qué lindo es el fútbol!”.

Eu quase verti ali uma lágrima, os argentinos, já se sabe, nascem todos já com o verbo na boca, mas não esperava aquela despedida tão simples e tão lírica. Há poucas coisas que permitam tantos sonhos quanto o apito inicial de um jogo de futebol, porque, à partida, com menor ou maior probabilidade, tudo é possível. Há zero-zero no marcador e raramente há vencedores antecipados. E o Torreense tornou-se mais uma dessas histórias improváveis e por isso doces de uma equipa que desafiou o impossível. Que lindo é o futebol.

Mas não olhemos para a primeira equipa de um escalão inferior a vencer a Taça de Portugal - e logo contra o detentor do título, o Sporting, vice-campeão nacional - como “uma daquelas coisas que só acontecem no futebol”. Quer dizer, sim, é certo, num mundo em que a meritocracia é um mito, isto é daquelas coisas que só no futebol, mas a vitória do Torreense não foi apenas um acaso ou um golpe de sorte, variável que também é real nestas histórias da Cinderela. As declarações de Morten Hjulmand, de uma lucidez admirável no meio de tanta incredulidade, são a reflexão justa: o Torreense conquistou a Taça de Portugal porque foi a equipa que quis mais. E porque foi a equipa taticamente mais bem preparada para aqueles 90 minutos (ou vá, 120) de tudo ou nada.

Mas cento e vinte minutos, por muito que mais prementes a surpresas que a maratona de uma época inteira, não contam a história toda de um clube que, algures no final da última década, amarrado a um investidor chinês de má rês, não esteve longe de desaparecer. Investidores locais salvaram o clube, que daí para cá se tem tornado num exemplo de presença nos campeonatos nacionais, aproveitando tanto quanto possível as iniciativas da FPF de capacitação da formação.

Em 2022/23, o Torreense regressou à II Liga, 24 anos depois. Na época passada, a equipa sub-23 conquistou a Liga Revelação, com Luís Tralhão, o treinador agora na equipa principal, no banco. O regresso à I Liga será jogado na quinta-feira, no play-off frente ao Casa Pia - desde 1991/92 que o Torreense não está no escalão principal. As equipas sub-19 e sub-17 estão na 1ª divisão.

No feminino, a evolução tem sido ainda mais impressionante. Aliás, esta não foi a primeira Taça de Portugal do Torreense, que na época passada conquistou a edição feminina, batendo o Benfica na final. Na Supertaça, voltaria a bater as encarnadas e esta época venceu também a Taça da Liga. Ficou em 3º na Liga BPI e vai disputar o acesso à Champions feminina da próxima temporada. No futsal, a equipa masculina do Torreense chegou aos play-offs.

A caminhada culminou, ainda, num banho de humildade que chegou em formato cascata para o futebol português: na próxima temporada, o Torreense jogará a fase de liga da Liga Europa, o que atirou o Benfica para a 2ª pré-eliminatória da mesma competição e o SC Braga também para as pré-eliminatórias, mas da Liga Conferência, onde não estaria à espera de participar. De boca aberta de espanto terá ficado também o Famalicão que, depois de engendrar a sua melhor época de sempre, vê-se sem Europa à conta de uns valorosos rapazes vestidos de azul-grená.

E, para acabar, tudo isto tornou ainda mais sublime a lenda de Stopira, o central de 38 anos que em 2023 já contava os últimos dias da sua vida futebolística no sossego do Boavista da Praia, em Cabo Verde, antes de lhe surgir a surpresa de um teste em Torres Vedras. Daí para cá ajudou o Torreense a cimentar-se na II Liga, voltou à seleção de Cabo Verde, marcou no jogo que qualificou os Tubarões Azuis para o Mundial e, nesta Taça, marcou nos descontos das meias-finais o golo que levaria a equipa ao Jamor. E o penálti que afundou de vez o Sporting.

Que lindo é o futebol.

O que se passou

Mais de duas décadas depois dos Invencíveis, o Arsenal é novamente campeão inglês.

Liga Europa é igual a Unai Emery: foi com o Aston Villa que o basco conquistou a sua quinta taça na competição europeia.

Afonso Eulálio já não é rosa no Giro, mas continua a lutar pelo pódio, à entrada da última semana.

O Barcelona e Kika Nazareth conquistaram a Champions feminina.

O melhor jogador da Premier League 2025/26 é português: Bruno Fernandes.

Demorou mais de três anos, mas Cristiano Ronaldo é finalmente campeão da Arábia Saudita.

A Tribuna Expresso continua a trazer-lhe os Cromos Mundial: de El-Hadji Diouf até Dwayne de Rosario, passando por Harald Schumacher, Ahmed Radhi, Joaquín e Ali Daei.

Zona mista

Não deixámos ninguém de fora

É jeito de falar, este de Roberto Martínez, porque houve naturalmente muita gente a ficar fora da convocatória para o Mundial 2026, numa lista sem grandes surpresas, ou pelo menos sem nenhum nome totalmente inesperado. Faltam 17 dias para o início do Campeonato do Mundo

O que aí vem

Segunda-feira, 25
⚽ Euro sub-17: Croácia-Bélgica (12h30, 11) e Estónia-Espanha (18h, 11)
⚽ Play-off de permanência na Bundesliga: Paderborn-Wolfsburgo (19h30, DAZN)
🎾 Ténis: Roland-Garros (9h30, Eurosport)
🏀 Basquetebol, meias-finais Liga Betclic: Sporting-FC Porto (19h, Sporting TV)

Terça-feira, 26
⚽ Euro sub-17: Itália-França (12h30, 11)
⚽ Play-off de permanência na Ligue 1: Saint-Étienne-Nice (19h45, Sport TV2)
🎾 Ténis: Roland-Garros (9h30, Eurosport)
🚴 Giro, etapa 16 (12h30, Eurosport 1)

Quarta-feira, 27
⚽ Final da Liga Conferência: Crystal Palace-Rayo Vallecano (20h, Sport TV5)
⚽ Taça Sul-Americana: Caracas-Botafogo (23h, Sport TV2)
🎾 Ténis: Roland-Garros (9h30, Eurosport)
🚴 Giro, etapa 17 (11h, Eurosport 1)

Quinta-feira, 28
⚽ Play-off de permanência na I Liga: Casa Pia-Torreeense (20h, Sport TV1)
⚽ Taça Libertadores: Palmeiras-Junior Barranquilla (23h, Sport TV1)
⚽ Preparação para o Mundial 2026: Irlanda-Catar (19h45, Sport TV2)
🎾 Ténis: Roland-Garros (9h30, Eurosport)
🚴 Giro, etapa 18 (12h, Eurosport 1)

Sexta-feira, 29
⚽ Play-off de permanência na Ligue 1: Nice-Saint-Étienne (19h45, Sport TV2)
🏀 Basquetebol, meias-finais Liga Betclic: FC Porto-Sporting (20h, Porto Canal)
🎾 Ténis: Roland-Garros (9h30, Eurosport)
🚴 Giro, etapa 19 (11h15, Eurosport 1)

Sábado, 30
⚽ Final da Liga dos Campeões: PSG-Arsenal (17h, Sport TV5)
⚽ Preparação para o Mundial 2026: Escócia-Curaçao (13h, Sport TV1)
🎾 Ténis: Roland-Garros (9h30, Eurosport)
🚴 Giro, etapa 20 (9h45, Eurosport 1)

Domingo, 31
⚽ Preparação para o Mundial 2026: Suíça-Jordânia (14h, Sport TV1)
🎾 Ténis: Roland-Garros (9h30, Eurosport)
🚴 Giro, etapa 21 (14h45, Eurosport 1)
👟 Atletismo: Diamond League de Rabat (19h, Sport TV2)
🏁 MotoGP: GP Itália, corrida (13h, Sport TV4)

Hoje deu-nos para isto

Não consigo parar de pensar nas imagens de Bernardo Silva, ainda no túnel do Etihad, com os olhos raiados de quem tenta desesperadamente conter as lágrimas mas não consegue, ainda antes do jogo número 460 e último com a camisola do Manchester City. Há poucas reações mais humanas do que esse morder de lábio do choro que transborda antes do previsto, da emoção que nos rouba o controlo do corpo. Mudar quando se está bem pode ser mais doloroso do que fugir ao que já nos faz mal. Tivesse Manchester sol e mar e talvez Bernardo pertencesse para sempre ali.

É quase simbólico que Bernardo e Pep Guardiola deixem o Manchester City na mesma altura, sendo o médio português uma espécie de extensão do catalão em campo, até das dúvidas criadas inicialmente: como poderiam dois estilos tão pouco físicos e tão técnicos sobreviver na Premier League? Não só sobreviveram como juntos criaram o maior período de domínio no quase nunca dinástico campeonato inglês. Foram seis títulos numa década, quatro deles seguidos, algo inédito e algo que nem o United de Ferguson alguma vez logrou. Juntaram-lhe ainda a primeira Champions do City, mais três Taças de Inglaterra, cinco Taças da Liga, três Supertaças de Inglaterra, uma Supertaça Europeia e um Mundial de Clubes.

E, mais do que isso, deixam um legado de guardiolismo. O treinador, que deverá fazer uma pausa na carreira, terá o seu nome numa das bancadas do Etihad. Já Bernardo jogará num outro campeonato qualquer, levando este romantismo nas botas. O City será, invariavelmente, outro clube daqui para a frente.

O que talvez mais emocione nestas duas saídas é que nenhuma delas será por motivos desportivos. São despedidas de dois desportistas que, enquanto gente de carne e osso, acreditam que a sua felicidade terá invariavelmente de passar por outras paragens. E mesmo entre o 1%, é preciso coragem para se ser feliz.

As lágrimas de Pep no adeus ao Manchester City
Simon Stacpoole/Offside

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