Elena Rybakina não escolheu onde nasceu, mas optou por representar o Cazaquistão, o país que ajudou uma tenista tímida a ser número um
Elena Rybakina destronou Aryna Sabalenka da liderança do ranking mundial feminino
Patrick Smith
A vencedora do último Open da Austrália vai ser a nova líder do ranking, acabando com as 99 semanas de Aryna Sabalenka. Altamente consistente no último ano, está nas meias-finais do US Open e garante que ser a primeira da hierarquia “é só um número”, focando-se em títulos. Moscovita de nascença, aceitou, aos 19 anos, uma oferta do Cazaquistão para mudar de passaporte, mas escondendo o incómodo quando questionada sobre temas como a guerra na Ucrânia
O ténis surgiu, para Elena Rybakina, por exclusão de partes. Em Moscovo, a menina que cresceu no arranque do século começou por praticar ginástica e patinagem no gelo, mas, apesar de pequena em idade, era demasiado alta para qualquer uma dessas modalidades. Diziam-lhe que o excesso de centímetros atrapalhava, sendo o seu pai a sugerir que experimentasse pegar na raquete.
Duas décadas depois, a altura não é embaraço, antes vantagem, uma arma a usar do alto dos seus 1,84 metros. Aplicando o escadote de onde efetua muitas das suas pancadas, particularmente o serviço, será, na próxima atualização do ranking WTA, a nova líder do ténis feminino. Aos 27 anos, é a segunda mais velha de sempre a escalar até ao topo da hierarquia, meramente atrás de Angelique Kerber, com mais uma volta ao sol quando se sentou no trono.
O novo estatuto de Rybakina foi garantido depois de vencer, nos quartos de final do US Open, a chinesa Qinwen Zheng, por 3-6, 6-1 e 6-4. A adversária na antecâmera da final será Coco Gauff, na madrugada desta quinta para sexta-feira.
Comentando a chegada à primeira posição, Elena diz que é “só um número” e aponta ao que “mais importa”: “Ganhar títulos, sobretudo majors.“ Rybakina é a atual campeã do Open da Austrália, tendo vencido Wimbledon em 2022.
Rybakina com o título do Open da Austrália
Fred Lee
Em Nova Iorque, jamais Rybakina superara a quarta ronda. Não parecia ser em 2026 que tal sucederia, porque chegou ao US Open carregando uma lesão no tornozelo esquerdo.
“Nem sabíamos se eu iria conseguir jogar. Tenho uma grande equipa e um médico sempre disponível ao telefone. Estou-lhes muito grata. Ser número um é um grande feito, mas tudo muda muito rápido. Tenho de recuperar e focar-me para tentar vencer o torneio”, comentou uma jogadora perita em esconder emoções, dentro e fora do court, com muita timidez nas salas de imprensa.
A troca de nacionalidade
Para aceder à final do US Open, Rybakina terá de bater uma das maiores sensações precoces da história do ténis. Gauff, com 15 anos, tornou-se a mais nova de sempre a qualificar-se para o quadro principal de Wimbledon, onde bateu Venus Williams e atingiu a quarta ronda.
A bola amarela, nomeadamente no feminino, está familiarizada com grandes feitos de adolescentes. Da Rússia, onde Rybakina nasceu, vieram Maria Sharapova, que antes das duas décadas de vida já vencera Wimbledon, o US Open e chegara a número um mundial, ou Mirra Andreeva, finalista aos 19 anos atingiu da passada edição de Roland-Garros.
Mas este não é o caso da nova número um.
Ben Shelton com a raquete a pairar à sua frente durante o jogo dos quartos de final do US Open contra Carlos Alcaraz
Rybakina chegou a número três em juniores, mas a transição para competir com as mais velhas era incerta. Sem brutais resultados nos primeiros tempos, tinha de decidir se se aventurava a tempo inteiro no duro mundo do ténis profissional ou, em alternativa, aceitava uma das múltiplas ofertas que recebera de universidades nos Estados Unidos, podendo estudar e jogar, à semelhança de Nuno Borges, por exemplo.
Os seus pais, contou em 2022 ao “The Guardian“, apresentavam preocupação com o futuro da filha, até por não lhes sobrar o dinheiro para financiar uma carreira no circuito, também nunca havendo qualquer apoio monetário da federação russa. Até que, com 19 anos, surgiu uma terceira via.
O Cazaquistão estava a iniciar um programa de recrutamento de jovens jogadores e jogadoras. Entraram em contacto com a família de Rybakina e ofereceram dinheiro, condições de treino, apoio logístico, treinadores, em troca de uma mudança de bandeira. Elena e os pais viajaram até ao país, encontrando-se com Bulat Utemuratov, presidente da federação cazaque, empresário, financiador e ideólogo do projeto.
“Tudo se conjugou no momento certo. O Cazaquistão procurava jogadores, eu procurava ajuda. Encontramo-nos e foi assim que a minha carreira profissional iniciou. Aceitei a cidadania do Cazaquistão porque eles acreditaram em mim e fizeram-me uma excelente oferta”, comentou à WTA em 2020.
O tema da troca de passaporte ganhou mediatismo quando a tenista venceu Wimbledon, em 2022, justamente uma edição em que os participantes russos estavam proibidos de competir no torneio britânico. Questionada sobre o regime de Vladimir Putin e a guerra da Ucrânia, Rybakina emocionou-se, dizendo que não escolheu onde nasceu, comentando que o Cazaquistão a apoia “imenso”, sendo honesta: “Não sei mesmo como responder a essas questões. Não sei o que vai acontecer. Há tantas notícias e nada posso fazer sobre esses temas.”
Rybakina quebrou a série de 99 semanas seguidas de Sabalenka como líder do ranking
Simon Bruty
A tentativa de fintar controvérsias esbarrou na propaganda do Kremlin. Após o êxito de Wimbledon, a federação russa tomou créditos pela vitória, descrevendo a moscotiva como um “produto” seu. O Kremlin também já argumentou que Rybakina vive em Moscovo, algo que foi negado pela nova número um, assegurando que, fora dos torneios, passa a maior parte do tempo no Dubai.
Se Rybakina mudou de cores nacionais bem antes da exclusão russa de muitos palcos do desporto, os últimos tempos viram várias tenistas deixar de representar o país. Anastasia Potapova compete agora pela Áustria, Kamila Rakhimova, Maria Timofeeva e Polina Kudermetova pelo Usbequistão, Daria Kasatkina pela Austrália.
A rivalidade com Sabalenka
Primeira cazaque de sempre a ter atingido as 10 primeiras posições do ranking WTA, Rybakina conta 13 títulos, quatro deles no último ano. Os derradeiros 12 meses foram de grande consistência, catapultando-a para o novo patamar.
Gaël Monfils tornou-se no US Open de 2026, a par de Roger Federer e Novak Djokovic, um de três tenistas que venceram jogos em Grand Slam durante 22 temporadas consecutivas
Desde o fim do US Open 2025, ninguém iguala os 62 encontros que Rybakina venceu. Alcançou seis finais, um recorde partilhado com Jessica Pegula, e ergueu quatro títulos, também um máximo no WTA.
A cazaque derrotou jogadoras do top 10 em 16 ocasiões ao longo das passadas 52 semanas, mais seis do que qualquer outra tenista. Possui, também, a quantidade máxima de ases e pontos ganhantes no último ano.
A mulher que Rybakina destrona tem vindo a ser a sua grande rival. Dona de um estilo também potente e agressivo, Aryna Sabalenka coloca ponto final em 99 semanas seguidas como número um, o sexto maior reinado da história.
A bielorrussa e a cazaque têm-se encontrado em vários momentos de alto nível. Defrontaram-se nas finais do Open da Austrália em 2023 e 2026, com Sabalenka a ganhar a primeira e Rybakina a segunda, e também mediram forças nas discussões dos títulos de Indian Wells 2023 e 2026 e as WTA Finals de 2025.