Tribuna 12:45

Vivemos na paranóia do FutVAR (e o pior está para vir)

Vivemos na paranóia do FutVAR (e o pior está para vir)

Pedro Barata

Jornalista

Um árbitro mira o monitor para escrutinar um lance
David Ramos - FIFA

Nota: nenhum lance vivo foi utilizado para a escrita deste texto. Nenhuma jogada foi maltratada para a feitura destas linhas. Nenhum caso foi perturbado. Tudo é um teste em laboratório em ambiente controlado.

Dois jogadores de futebol vão disputar um duelo dentro da área. O atacante sabe que, além de tentar jogar a bola, deve fazer-se à jogada de forma a que, a dado momento, uma das suas unhas fique debaixo da sola do adversário.

Porquê? Porque assim, quando o lance for visto na televisão, haverá um frame que obrigue à marcação de penálti.

Após a jogada se disputar, entra em ação o banco. Deve ser estridente e audível. Juntam-se as bancadas à festa, que devem gritar e protestar.

Voltemos ao teatral atacante. Além de colocar a ponta do seu pé em posição de ser pisado, deve rebolar no chão após a jogada. Durante a maior quantidade de tempo possível. Deve chamar os médicos, os bombeiros, a Força Área, a NASA. Tem de demorar a maior quantidade de tempo possível até se voltar a levantar.

Porquê? Quanto mais tempo passar até ao recomeço do encontro, maior a pressão sobre o árbitro. Alguém no banco estará a olhar para um ecrã e fará uma expressão muito chocada, como se tivesse visto imagens que revelassem a exata localização da Atlântida. Todos devem garantir que a bola não volta a rolar antes de o árbitro consultar o monitor.

A cada lance na área, o guião deve-se repetir. Não está em causa a nobre arte da simulação de penálti, agora caída em desgraça. Não falamos da natural pressão do público visitante ao árbitro, ninguém quer que isto seja ténis.

Falamos do perverso sistema de incentivos do futebol atual: o incentivo a abordar o lance de forma a que, em câmara lenta e visto de um certo ângulo, pareça falta; o incentivo a que, após o contacto, se fique caído, forçando uma paragem que pressione para se ir ao monitor.

O incentivo que o próprio árbitro tem para nada assinalar, esperando pelas indicações de quem está na sala do VAR. Recorde-se que o VAR é um “árbitro assistente de vídeo”. Assistente. Ao não assinalar nada, o árbitro devia estar a dizer que, para ele, nada se passou. Mas não. No sistema de incentivos atual, apenas aguarda, como uma folha em branco, passivo, invertendo-se a ordem entre juiz principal e auxiliar.

Gerou-se uma paranóia com o VAR. Recordemos o objetivo inicial da ferramenta: mínima intervenção para máximo benefício. Lances claros e manifestos. Erros grosseiros.

… corta para análises a micro-contactos. Raio-X a agarrões e contra-agarrões em pontapés de canto. Teses de físicas dos corpos sobre intensidades de agarrões, quem puxou primeiro e quem puxou depois.

Uma imagem omnipresente no futebol
NurPhoto

Qualquer comentário que alerte para isto é acusado de ser contra a pureza da verdade desportiva, de ser um batoteiro, de preferir a mentira à justiça. Mas não. Não está em causa a bola que entrou ou não entrou. O fora de jogo que é ou não é. A agressão que escapou ao olhar do árbitro. O avançado que claramente se atirou para a piscina. Esses eram os lances de VAR.

Lembra-se, nos longínquios dias de 2017, quando usávamos a expressão “lances de VAR”? Agora todos os lances são de VAR porque o futebol tornou-se obcecado com ele, como se quisesse buscar uma perfeição dada pela máquina que, simplesmente, não existe.

A paronóia é internacional. Gera horas e horas de discussão porque sentimos que estamos em pé de igualdade com os árbitros, eles e nós reféns de milhares de horas em frente à televisão a virar frames ao contrário. Em Portugal a guerra de palavras vai forte, sem haver inocentes; em Espanha os árbitros ameaçaram um greve devido “às pressões e assédio”; em Inglaterra o caos em torno do VAR é recorrente; em França há tantas ou mais críticas à arbitragem do que por cá.

O futebol é uma das expressões culturais mais populares da história. É, também, um jogo incrivelmente resiliente, com leis que, na essência, são as mesmas há 100 anos. E não se pode dizer que tenha corrido mal a nível de popularidade global da coisa. A paranóia do VAR, as paragens eternas, os lances feitos para a televisão, os penáltis que poderiam ser ou não e apenas o são porque o atacante ficou dois minutos no chão, tudo isto nos aproxima do FutVAR.

No FutVAR, acha-se que um lance só é credível se passar pela máquina, essa purificadora, objeto encantado e benévolo. Sem esse scan, não é um produto legítimo, como se fosse de contrafacção.

Mas atenção: o pior está por vir. Veja-se o que sucedeu no Mundial sub-17, em que se deu a aberração de permitir que cada equipa pudesse pedir que lances fossem consultados pelo VAR. É a amplificação da paranóia.

Os jogadores ficam a saber que podem abordar lances de maneira sexy para os frames, porque o escrutínio em câmera lenta já não depende da vontade do árbitro, mas do pedido da equipa. As equipas técnicas têm elementos só para estarem em cima dessas jogadas, do mini-agarrão que pode ser um mini-penálti, aumentando a obsessão com tudo isto.

Um jogo pensado para a fluidez, para o movimento, partes de 45 minutos sem descontos de tempo, uma sucessão de ações encadeadas, tudo parado em virtude desta paranóia. Não é o futebol, jogo continuado, que recomeça rapidamente onde parou, o lançamento onde a bola saiu, a falta onde se cometeu. É FutVAR, aos solavancos da câmera lenta, o jogo com mais êxito da história da humanidade, vindo do século XIX e pensado para ser analisado em tempo real, a ser avaliado micro-segundo a micro-segundo.

E há mais. Gianni Infantino reúne-se em salas opacas com tech bros e magnatas diversos, esse universo que está obcecada com a inteligência artificial. Quem nos garante que um desses homens não sugeriu a Gianni (ou “Johny”, como diria Trump) que o santo VAR não passasse a ser operado por uma máquina, poupando tempo e recursos humanos? Parece irrealista? O FutVAR em que vamos entrando também o parecia em 2005. Falamos em 2045.

Talvez tudo isto seja inevitável. Possivelmente quem ler isto em 2100 — ainda se vai ler em 2100? — olhará para estas linhas como nós olhamos os que criticavam a abertura do futebol ao profissionalismo, defendendo a manutenção do amadorismo, um debate quente há muitas décadas. Julgará isto um bafiento exercício de conservadorismo.

Por agora, quando o próximo jogo que virem for interrompido por uma ida ao VAR, façam o seguinte exercício: ao verem aquele lance em velocidade normal, em direto, alguém pensou instintivamente que era penálti?

O que se passou

Com Luis Suárez em grande, o Sporting goleou o Rio Ave. Já SC Braga e Benfica empataram num jogo emocionante.

Juan Carlos Ferrero continua sem esclarecer as razões da separação com Carlos Alcaraz, mas abriu-se emocionalmente, falando de “luto” e “dor”.

Segue a guerra de palavras: Frederico Varandas disparou com contundência, Villas-Boas respondeu com acusações de “hipocrisia” e “memória seletiva”. Entretanto, o FC Porto foi multado em 12.750 euros no ‘Caso da televisão’.

(Pelo menos) por um jogo, Ruben Amorim fez uma pausa no dogma dos três centrais. E o Manchester United ganhou. O Arsenal permanece no topo da tabela, apesar do sofrimento, e Liverpool e Wolverhampton homenagearam Diogo Jota.

Morreu Carlos Cardoso, lenda do Vitória de Setúbal.

História lusófona na CAN: pela primeira vez, Moçambique ganhou um jogo.

Zona mista

Eu tenho medo, sempre tive”, confessa, antes de admitir a espécie de afeto que nutre por esse estado primário: “Aprendemos muito cedo a senti-lo, a domá-lo e a gostar de estar nessa situação de corda bamba entre a satisfação e o medo

Em conversa com o Diogo Pombo, Nicolau Von Rupp, o homem das ondas gigantes, explicou a relação que mantém com o medo e com a glória, dias depois de voltar a brilhar na Nazaré.

O que aí vem

Segunda-feira, 29
⚽ A 16.ª jornada da I Liga fecha com o FC Porto-AFS (20h15, Sport TV1)
⚽ Em modo sprint, já se vão fechar grupos na CAN: Angola precisa de bater o Egito (16h00, Sport TV1) no grupo em que também há Zimbabué-África do Sul (16h00, Sport TV2). A anfitriã Marrocos contra a Zâmbia (19h00, Sport TV6) em simultâneo com o Comores-Mali (19h00, Sport TV7)
⚽ Em Itália, Roma-Génova (19h45, Sport TV2)
⛷️ Saltos de esqui, Torneio 4 Trampolins, em Oberstdorf, na Alemanha (15h00, Eurosport 1)
🚴 Chuva, lama, pó, bicicletas? É a altura do Cyclo-Cross: Troféu X²O Badkamers-Loenhout, com craques como Mathieu van der Poel ou Wout van Aert (13h55, Eurosport 2)

Terça-feira, 30
⚽ Fecho do grupo C da CAN, com Tanzânia-Tunísia (16h00, Sport TV3) e Uganda-Nigéria (16h00, Sport TV2). Depois, termina o grupo D, com Benin-Senegal (19h00, Sport TV2) e Botswana-RD Congo (19h00, Sport TV3)
⚽ Na II Liga, Torreense-Lusitânia de Lourosa (20h15, Sport TV1)
⚽ Muita Premier League, com destaque para o Chelsea-Bournemouth (19h30, DAZN) e United-Wolves (20h15, DAZN) e, sobretudo, o Arsenal-Villa (20h15, DAZN)
🏀 NBA: San Antonio Spurs-Cleveland Cavaliers (01h00, Sport TV1)
🚴 Cyclo-Cross, Superprestige Diegem (17h25, Eurosport 1)

Quarta-feira, 31
⚽ Mais CAN, com o fecho do grupo E a ter Guiné Equatorial-Argélia (16h00, Sport TV2) e Sudão-Burkina Faso (16h00, Sport TV3). Mais tarde, Moçambique fecha a fase de grupos contra os Camarões (19h00, Sport TV2) e o Gabão contra a detentora do título, a Costa do Marfim (19h00, Sport TV3)
🏀 Dia recheado na NBA: Memphis Grizzlies-Philadelphia 76ers (01h00, Sport TV1), LA Lakers-Detroit Pistons (03h30, Sport TV1), Charlotte Hornets (18h00, Sport TV4) e Cleveland Cavaliers-Phoenix Suns (20h30, Sport TV1)
⛷️ Esqui de fundo, Tour de Ski, em Toblach, naquela Itália meio austríaca, de Jannik Sinner (10h15, Eurosport 1)

Quinta-feira, 1 de janeiro
⚽ Há Premier League, com quatro encontros: Crystal Palace-Fulham (17h30, DAZN), Liverpool-Leeds (17h30, DAZN), Brentford-Tottenham (20h00, DAZN) e Sunderland-City (20h00, DAZN)
🏒🧊 NHL: New York Islanders-Utah Mammoth (20h00, Sport TV3)
🚴 Cyclo-Cross, Troféu X²O Badkamers-Baal (12h40, Eurosport 2)

Sexta-feira, 2
⚽ Na I Liga, Gil Vicente-Sporting (18h45, Sport TV1) e Vitória SC-Nacional (20h45, Sport TV2)
⚽ Em Itália, Cagliari-AC Milan (19h45, Sport TV3). Em França, Toulouse-Lens (19h45, Sport TV4). Em Espanha, Rayo-Getafe (20h00, DAZN)
🏀 Quer um ambiente desportivo escaldante para arrancar o ano? Euroliga, Panathinaikos-Olimpiakos (19h15, Sport TV6)

Sábado, 3
⚽ Dose quádrupla na I Liga: Tondela-Arouca (15h30, Sport TV1), Benfica-Estoril (18h00, BTV), Estrela-SC Braga (18h00, Sport TV1) e AFS-Moreirense (20h30, Sport TV1)
⚽ Na Premier League, o grande Aston Villa frente ao Nottingham Forest (12h30, DAZN), o West Ham de Nuno no terreno do Wolves (15h00, DAZN) ou Bournemouth-Arsenal (17h30, DAZN). Em Itália, Juventus-Lecce (17h00, Sport TV2) ou Atalanta-Roma (19h45, Sport TV6). Na La Liga, dérbi de Barcelona (20h00, DAZN)
⛷️ Saltos de esqui, Torneio 4 Trampolins, em Innsbruck, na Áustria (13h15, Eurosport 1)
🎾 Durante a semana, United Cup (09h30, Sport TV6)

Domingo, 4
⚽ Na I Liga, o Rio Ave recebe o Casa Pia (15h30, Sport TV2), o FC Porto vai ao Santa Clara (18h00, Sport TV1) e o Alverca recebe o Famalicão (20h30, Sport TV2)
⚽ Na Premier League, Leeds-Manchester United (12h30, DAZN), Fulham-Liverpool (15h00, DAZN) ou um aliciante City-Chelsea (17h30, DAZN). Na Serie A, Lazio-Nápoles (11h30, Sport TV2) ou Inter-Bologna (19h45, Sport TV6). Em Espanha, Real Madrid-Betis (15h15, DAZN) e, em França, dérbi da capital entre PSG e Paris FC (19h45, Sport TV3)
🚚 🏜️ Aí está o Dakar (19h30, Sport TV4)
🎾 United Cup de madrugada (01h00, Sport TV6) até ao início da tarde
🏀 Os Boston Celtics de Queta contra os LA Clippers (03h30, Sport TV1)
🛷 Luge, Taça do Mundo de Sigulda, na Letónia (09h15, Eurosport 2)

Hoje deu-nos para isto

A regularidade não chama tanto a atenção como a extravagância, por muito que a extravagância tenha altos e baixos e a regularidade não. O que é consistente, pela natureza dessa solidez, pode até tornar-se aborrecido. Mas não deixa de ser eficaz.

Mais um ano. Mais um Natal. Mais uma temporada em que Marco Silva chega ao virar do ano com a manutenção no bolso, livre de apuros, escapado da aflição.

No lago de tubarões da Premier League, o português continua a ameaçar merecer uma estátua em Craven Cottage. Devolveu o Fulham à Premier League e prepara-se para o levar a uma quinta época seguida entre a elite, isto quando, nas duas passagens anteriores pelo principal campeonato, os londrinos haviam sido despromovidos.

Quando chegou o football festivo, Marco acelerou. Três jornadas seguidas a vencer, a despromoção a 13 pontos. Tem 26 pontos e, na última década, somar 36 valeu sempre a salvação. Significa isto que, mesmo que só ganhe três dos 20 encontros que lhe faltam — o que seria um descalabro —, não deveria descer.

A rotina não fascina. O Fulham, desde que subiu com Marco Silva, foi 10.º, 13.º, 11.º. Está em 10.º. Pode não ser um registo digno de epopeias, mas é excelente.

Marco Silva caminha para mais uma temporada de êxito
Vince Mignott/MB Media

Este é o campeonato mais exigente do mundo. Treinadores que fazem milagres são despedidos meses depois. Gasta-se dinheiro. Gasta-se muito dinheiro. Mas o Fulham costuma gastar menos que a maioria dos adversários. Na passada janela de transferêcias, foi o segundo emblema que menos investiu, com €44,5 milhões. No acumulado com Marco Silva na Premier League, e olhando às equipas que sempre estiveram na competição desde 2022/23, só o Palace (261,6 milhões euros) tem uma soma de gastos menor que o Fulham (285,32 milhões de euros).

Marco vai perdendo jogadores cruciais, de Mitrovic a João Palhinha, passando por Andreas Pereira ou Fábio Carvalho. Reconstrui, reformula, mantém-se competitivo. Não descarila. Regular, fiável, fiel.

O Fulham vai vendo equipas de grande êxito recente, como o Leicester ou até o Southampton, descer; observou gigantes como o Everton passarem horrores para garantir a manutenção; este ano vê históricos de grande investimento como o West Ham ou o Nottingham Forest em plena batalha pela permanência. E os cottagers mantêm-se alheios a essas aflições, terminando sempre a mais de 15 pontos do regresso ao Championship.

Com um modelo que pretende atacar, com a sua matriz de jogo, Marco Silva conseguiu ser uma certeza na melhor liga de todas, uma constante no jogo implacável da Premier League. Mais uma manutenção a caminho, mais um título pessoal para o treinador.

E, bem, nem todo é mera regularidade: na época passada o Fulham fez 54 pontos, um recorde do clube desde que, em 1949/50, pisou pela primeira vez a principal divisão. Ora, este ano os londrinos levam 26 pontos em 18 jornadas, o que significa que, se mantiveram a presente média pontual, andarão algures entre os 54 e os 55 pontos. Também há estátuas que se erguem à regularidade.

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