Revemos em loop as imagens de mais um civil norte-americano abatido a tiro pelo infame ICE, a polícia de imigração do país, uma turba de gente de cara tapada que foge cobardemente depois de matar alguém que apenas protestava contra a erosão da democracia, e não há como não nos questionarmos sobre quão seguros estarão as centenas de milhares de estrangeiros que, no verão, se vão deslocar até aos Estados Unidos para assistir ao Mundial de futebol.
Terão garantias que não serão assediados pelas autoridades, que não verão os seus direitos truncados, que não terão de estar constantemente a olhar por cima do ombro? A volatilidade de um líder que faz bullying a aliados e repete ameaças e teorias da conspiração deveria ser um sinal de que, não, não há garantias de nada.
Na última semana, ainda atordoado o mundo com as ondas de choque das ameaças de Donald Trump à Dinamarca, à Europa e à NATO por causa do seu desejo indómito de possuir a Groenlândia - e numa altura em que ainda não são conhecidas as bases do suposto acordo entre Estados Unidos e a NATO para o território - falou-se finalmente na palavra-bomba: boicote.
Na sua deriva tirânica, que deveria surpreender cerca de zero pessoas, Trump piscou o olho nos últimos meses a anexações ou intervenções no Canadá, México, Colômbia, Dinamarca, Irão, todos países que já estão ou vão a caminho de se qualificarem para o Mundial de futebol. Invadiu com as suas forças especiais território da Venezuela, que não esteve longe de lá estar. Da FIFA, expedita - e bem - a afastar a Rússia de todas as competições depois da invasão da Ucrânia, nada se sabe ou ouve. Não se pronuncia, não se mexe. É difícil apelar ao bom senso ou ser-se duro quando já se escancararam as portas a um rebaixar que tem trazido opróbrio a uma organização que continua a namoriscar com o lado errado e que ofereceu um Prémio da Paz a Trump sob premissas falsas, alimentadas pelo presidente norte-americano e promovidas, incompreensivelmente, pela FIFA - e não esquecer que o capitão da seleção nacional também se prestou ao mesmo papel.
Falando a um jornal de Hamburgo, Oke Göttlich, vice-presidente da Federação Alemã de Futebol, lançou há dias a necessidade do debate. “Pergunto-me quando é que vai chegar a altura de pensar e falar concretamente de um boicote. Para mim, esse momento já chegou”, apontou o dirigente, que também é presidente do St. Pauli, clube conhecido por não se colocar de lado em questões políticas.
Göttlich sublinhou ainda que acredita que “o perigo potencial” de uma escalada nas turbulentas relações geopolíticas atuais “é maior” do que quando os Estados Unidos boicotaram - e arrastaram mais de 60 outros países na ação - os Jogos Olímpicos de 1980, em Moscovo, pouco depois da invasão soviética ao Afeganistão.
Da parte da Dinamarca, que ainda procura o apuramento para o Mundial via-playoff, o boicote é visto, para já, como o último recurso. Mas uma potencial intervenção norte-americana na Gronelândia marcaria uma linha vermelha dificilmente ultrapassável para as nações europeias. Um boicote seguramente não travaria o ímpeto imperialista de Donald Trump, mas certamente o colocaria numa pele que para si seria insuportável: aquela em que o fiasco seria demasiado evidente para ser tapado pela sua falsa retórica e a sua vaidade seria desafiada.
As últimas lideranças da FIFA desbarataram o papel do futebol como agente de influência positiva para o mundo. E o futebol tornou-se de tal maneira um monstro de mediatismo e distribuição de dinheiro que é difícil fazer-lhe frente. No meio de tanto poder, alguém terá de bater o pé, para o futebol voltar a abraçar a sua dignidade. E o boicote, sim, deve ser uma arma pronta a ser usada.
O que se passou
Em pleno Europeu, a seleção nacional de andebol cometeu a proeza de bater a Dinamarca. Seguiram-se, no entanto, derrotas com Alemanha e França. Mas Portugal segue vivo.
Depois de bater o campeão europeu na Champions, o Sporting só ganhou ao Arouca no último suspiro.
O Benfica complicou as contas na Liga dos Campeões, ao perder com a Juventus. Mas redimiu-se no campeonato.
O FC Porto teve problemas no frio checo na Liga Europa.
Nuno Borges caiu na 3ª ronda do Open da Austrália, que dura até ao final desta semana.
Zona mista
‘A vida é uma comédia para quem pensa e uma tragédia para quem sente’. Eu sou dos que sente. Também penso, atenção
Um relativo desconhecido no seu país, o treinador português Gonçalo Feio vai fazendo a sua caminhada nos clubes mais importantes da Polónia, onde encontrou desafios e uma carreira. E também algumas polémicas, vindas de um lado emocional que está a trabalhar. Sobre tudo isso falou à Tribuna Expresso, num perfil vasto da Alexandra Simões de Abreu, que vale a pena ler
O que aí vem
Segunda-feira, 26
⚽ FC Porto e Gil Vicente fecham a jornada 19 da I Liga (20h15, Sport TV1)
🤾♂️ Jogo decisivo para Portugal no Europeu de andebol, frente à Noruega (14h30, RTP1)
Terça-feira, 27
⚽ No Europeu de futsal, Portugal joga com a Hungria (16h30, RTP1)
⚽ Na Taça de Itália, o Como joga em casa da Fiorentina (20h, Sport TV2)
Quarta-feira, 28
🤾♂️ Último jogo de Portugal na main round do Europeu de andebol, frente a Espanha (14h30, RTP1)
⚽ Dia de todas as decisões na Champions: o Sporting joga com Athletic em Bilbau (20h, Sport TV1) e o Benfica recebe o Real Madrid (20h, Sport TV5)
Quinta-feira, 29
⚽ Na Liga Europa, o FC Porto recebe o Rangers (20h, Sport TV5) e o SC Braga joga em casa do Go Ahead Eagles (20h, DAZN1)
⚽ Europeu de futsal: Portugal-Polónia (19h30, RTP1)
Sexta-feira, 30
⚽ Duelo minhoto na abertura da jornada 20 da I Liga: Vitória-Moreirense (20h45, Sport TV1)
Sábado, 31
⚽ I Liga: Santa Clara-Estoril (15h30, Sport TV1), Rio Ave-Arouca (18h, Sport TV1) e Alverca-Estrela da Amadora (20h30, Sport TV1)
⚽ Na Premier League acompanhe o Liverpool-Newcastle (20h, DAZN) e em Espanha o Elche recebe o Barcelona (20h, DAZN)
🎾 Open da Austrália: final feminina (8h, Eurosport)
Domingo, 1
⚽ I Liga: Sporting-Nacional (18h, Sport TV2) e Tondela-Benfica (20h30, Sport TV1). Veja ainda o Gil Vicente-Famalicão (15h30, Sport TV1)
⚽ Em Espanha há dérbi basco: Athletic Bilbao-Real Sociedad (20h, DAZN) e em Inglaterra o Manchester United recebe o Fulham (14h, DAZN)
🎾 Open da Austrália: final masculina (8h, Eurosport)
🏀 NBA: Boston Celtics-Milwaukee Bucks (20h30, Sport TV6)
Hoje deu-nos para isto
Corrói-me um pedaço a alma saber que certos 200 adeptos do Benfica estarão, horas depois da vitória da equipa frente ao Estrela da Amadora, a pensar não naquele extraordinário e sincero abraço entre Anísio Cabral e Daniel Banjaqui, depois do último, titular, ter cruzado a bola para a cabeça do primeiro, acabado de entrar, para construírem juntos o derradeiro golo do Benfica. Um golo 100% Seixal, 100% campeões mundiais de sub-17, um golo que traz muita esperança que estes jogadores possam ser felizes ali e não esquecidos ou desaproveitados como tantos.
Não creio que estejam emocionados com a espontaneidade do festejo, com a alegria de dois companheiros, dois meninos. Com a boa notícia que é dois miúdos da formação do Benfica fazerem assim as suas respetivas estreias na equipa principal - para Anísio até foi no futebol profissional, com um golo logo ao primeiro toque, que sonho. Estarão estas duas centenas de indivíduos, certamente, a pensar que fizeram muito bem em tirar a sua manhã de sábado para cercar um centro de estágios, apertar com jogadores, treinadores, meter-lhes até medo. Gente a quem, provavelmente, não passaria pela cabeça fazer uma espera ao patrão, exigir entrar numa repartição de finanças para falar com o seu diretor, gente que não tiraria de esforço com um médico à porta de um hospital.
Mas o futebol é isto, este aparente mundo à parte em que gente comum se sente capaz das atitudes mais idiotas, dos atos mais descabidos. No Benfica, houve sangue frio para resolver o musculado protesto a bem - e pouco interessa o que se disse naquela reunião, as promessas feitas, porque ninguém deve, naturalmente, sofrer qualquer tipo de coação no seu trabalho.
E se tivesse corrido mal? Era outro Alcochete? Enfim, mais um sublime episódio dos nossos casuals.
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