• Suécia
    18:0020 JUN
    5
    1
    Grupo F
  • Tribuna 12:45

    Como tornar tão feio um Mundial que, em campo, está a ser extraordinário

    Infantino a aplaudir Trump depois de o agraciar com o novíssimo Prémio da Paz da FIFA, em dezembro
    Emilee Chinn - FIFA

    Há uns dias, numa conversa de corredor, comentava como parte de mim se sentia culpada por, na ótica do utilizador, estar a gostar tanto deste Mundial. Se encontrarmos uma qualquer mediana de qualidade, o futebol tem sido excelente. O espectáculo, do melhor que me recordo em qualquer fase final. Há boas ideias coletivas vindas de todas as partes do planeta, dando belas chapadas na cara a preconceitos e ideias feitas, obsoletas e anacrónicas, que já não fazem sentido nem podem fazer parte do discurso analítico sobre a modalidade e o que acontece no relvado.

    E, depois, as estrelas. O toque individual. Messi, Mbappé, Haaland, Kane. Todos eles apareceram em forma no maior dos palcos, onde as maiores lendas se criam.

    Uma parte de mim sente-se culpada porque, apesar de todo o bom futebol, das histórias, o Mundial 2026 continua a ser maioritariamente organizado por um país que iniciou uma guerra com um dos países participantes semanas antes do arranque da competição. O Irão teve um tratamento degradante durante a prova, obrigado a viagens constantes entre o México, onde teve, à última hora, de aterrar a sua base, e os Estados Unidos, onde fez os seus três jogos da fase de grupos. Não passou daí, mas merecia. Muito aguentaram aqueles jogadores, órfãos ainda de boa parte do staff, sem direito a vistos por a administração Trump ver neles potenciais terroristas.

    Houve ainda um sem-número de casos de pessoas acreditadas para o Mundial colocadas sob o jugo das horas e horas de interrogatórios em aeroportos dos Estados Unidos. Um embaraço que, face a tudo o que a política norte-americana já nos habituou com Trump, mereceu o tempo e espaço que a normalização destes comportamentos já fossilizou.

    Ainda assim, assumo, o Mundial parecia-me estar a ter menos questões com as autoridades norte-americanas do que cheguei a temer. Acreditei, nas semanas antes do torneio, que o ICE surgiria em todo o seu esplendor, que as ruas pudessem encher-se de protestos. Não aconteceu, até agora.

    Mas, entretanto, chegou domingo. E chegou a notícia que Folarin Balogun, nem de propósito o melhor marcador dos Estados Unidos neste Mundial, estaria disponível para jogar frente à Bélgica, apesar de ter sido expulso frente à Bósnia.

    Hã?

    Sim, isso mesmo. Contam os principais meios internacionais, do “New York Times” ao “Guardian”, do “Politico” à Associated Press, confirmado por várias fontes, que a Casa Branca se envolveu diretamente na questão, com meios legais e diplomáticos para despenalizar Balogun. E a pièce de résistance, claro, umas chamaditas marotas de Donald Trump ao seu amigo “Johnny” Infantino para pressionar a FIFA.

    O organismo que tutela o futebol mundial garante que tudo foi decidido por um comité disciplinar que é independente e tendo em consideração o que dizem os regulamentos. Mas, na minha terra, um cartão vermelho sempre foi um cartão vermelho, fosse injusto ou não. A Bélgica, para louvar esta decisão da FIFA, deveria usar o seu equipamento alternativo, de homenagem ao mestre surrealista René Magritte, o homem do ceci n'est pas une pipe. Porque para a FIFA ceci n’est pas une cartão vermelho.

    A decisão de dar a Balogun uma suspensão provisória, não lhe retirando, assim, o vermelho, mas sim as consequências do vermelho (juro que estou a tentar não me rir enquanto escrevo isto) poderia ser apenas uma decisão ad hoc, algo que criasse genuína dúvida, mas pouco mais do que isso. Acontece que a FIFA e Gianni Infantino colocaram-se bem no fundo neste caldeirão de suspeição. A decisão de favorecer os Estados Unidos e não qualquer outra equipa pode ser apenas um acaso, mas faz explodir as percepções de uma relação demasiado intrincada entre política e futebol. Há um passado entre Trump e Infantino, há um Prémio da Paz inventado para deixar o presidente dos Estados Unidos feliz. Mesmo que todo o fio legal tenha sido corretamente percorrido, que imagem fica para a integridade e ética da competição e das instituições? A UEFA já disse que se ultrapassou “uma linha vermelha”. E depois de uma linha vermelha, que mais é permitido à FIFA sem uma reação musculada da restante comunidade do futebol?

    (Espero, entretanto, que todas as seleções façam agora apelos aos cartões vermelhos que considerarem exagerados, só para confirmar aqui uma coisinha)

    Se há algo que me irrita com todo este caso é que coloca uma nuvem negra sob um Mundial que nos deu, por exemplo, Cabo Verde e a sua heróica caminhada, que só terminou num agónico prolongamento para a Argentina, que chegou mesmo a estar encostada no seu canto do ringue, temendo o KO. Aqueles valorosos rapazes não merecem, os adeptos não merecem. O que de tão extraordinário temos visto em campo (não, Paraguai, não estou a falar de ti, leva lá a tua porrada para longe e não me venham com coisas dos coitadinhos do futebol), fica manchado pelo que acontece fora dele, nos obscuros e burocráticos bastidores de uma instituição que precisa de transparência como nós de água no corpo nesta insuportável onda de calor.

    Ah, é verdade, Portugal joga esta segunda-feira o seu destino no Mundial, nos oitavos de final frente a Espanha, às 20h de Lisboa, em Dallas. Aqui estão os efeitos nefastos destes casos: somos obrigados a colocá-los à frente do que é, ou deveria ser, verdadeiramente importante.

    O que se passou

    Wimbledon já teve um susto para Jannik Sinner e o regresso de Serena Williams. Nuno Borges e Jaime Faria cairam ambos na 2ª ronda.

    Estamos em pleno Mundial, mas a próxima época já está aí: o calendário da I Liga já é conhecido e o primeiro clássico será à 7ª jornada.

    Não passou tanto tempo assim desde a travessia no deserto nos Kings e as dificuldades iniciais nos Celtics. Já lá vai: esta semana, Neemias Queta assinou um valioso contrato de quase 50 milhões de euros com a equipa de Boston, para se manter na NBA durante mais quatro temporadas.

    Zona mista

    Dos 100 jogos [como selecionador da Argentina], este é o que mais me marcou, seguramente. Vai ajudar-me como treinador

    Lionel Scaloni já foi campeão mundial, já perdeu contra a Arábia Saudita num Mundial, já venceu por duas vezes a Copa América. Ainda assim, foi o jogo frente a Cabo Verde aquele que mais o marcou, confessou após o encontro com os bravos africanos. É nos sustos e nos dias maus, é quando se vai ao limite que mais se aprende. Admitir isso mostra a inteligência e sensibilidade do treinador argentino

    O que aí vem

    Segunda-feira, 6
    ⚽ Portugal joga um lugar nos quartos de final do Mundial, frente à campeã da Europa, Espanha (20h, RTP1/Sport TV1)
    ⚽ Ainda nos oitavos de final do Mundial 2026, e já de madrugada, veja o Estados Unidos-Bélgica (1h, Sport TV5)
    🎾 Wimbledon (13h, Sport TV 2 e 3)
    🚴 Volta a França, etapa 3 (11h, Eurosport 1)

    Terça-feira, 7
    ⚽ Mundial 2026: depois de eliminar Cabo Verde, a Argentina joga com o Egito nos oitavos de final (17h, Sport TV1). Acompanhe também o Suíça-Colômbia (21h, Sport TV5)
    🎾 Wimbledon (11h, Sport TV 2 e 3)
    🚴 Volta a França, etapa 4 (12h, Eurosport 1)

    Quarta-feira, 8
    🎾 E depois de tantos dias, uma jornada de pausa de Mundial. Oportunidade para seguir a edição deste ano de Wimbledon (11h, Sport TV 2 e 3)
    🚴 Volta a França, etapa 5 (12h45, Eurosport 1)

    Quinta-feira, 9
    ⚽ Mundial 2026: arrancam os quartos de final, com o escaldante duelo entre França e Marrocos (21h, Sport TV1)
    🎾 Wimbledon (11h, Sport TV 2)
    🚴 Volta a França, etapa 6 (11h15, Eurosport 1)

    Sexta-feira, 10
    ⚽ Mundial 2026: caso ultrapasse Espanha, Portugal joga aqui nos quartos de final da prova (20h, Sport TV)
    🎾 Wimbledon (11h, Sport TV 2)
    🚴 Volta a França, etapa 7 (12h, Eurosport 1)
    👟 Atletismo: Diamond League do Mónaco (19h, Sport TV3)

    Sábado, 11
    ⚽ Mundial 2026: mais dois jogos dos quartos de final, no primeiro, um Inglaterra-Noruega (22h, Sport TV), o segundo ainda espera protagonistas (22h e 2h, Sport TV)
    🎾 Wimbledon, final feminina (16h, Sport TV 1)
    🚴 Volta a França, etapa 8 (12h, Eurosport 1)

    Domingo, 12
    🎾 Wimbledon, final masculina (16h, Sport TV 1)
    🚴 Volta a França, etapa 9 (12h15, Eurosport 1)

    Hoje deu-nos para isto

    O Mundial, nas suas maravilhas e desgraças, é uma espécie de eucalipto mediático que tudo seca, que nos suga horas de sono e não permite grande multitasking.

    Mas, hey, só para lembrar que está a acontecer Wimbledon e no fim de semana arrancou mais uma edição da Volta a França, onde Tadej Pogačar pode juntar-se ao seletíssimo grupo de quatro atletas que venceram a prova em cinco ocasiões, o primeiro desde Lance Armstrong, que não está nesse grupo sabemos todos muito bem porquê.

    E logo na primeira etapa em linha, o esloveno já deu sinais de superioridade: ainda em Barcelona, onde arrancou esta edição, ofereceu a vitória no terreno empinado de Montjuïc ao seu principal braço direito, Isaac de Toro, porque o Tour é longo e Pogačar sabe bem que é preciso ter gregários felizes ao seu lado durante três semanas. Quem diz que o ciclismo não é um desporto de equipa não sabe do que fala.

    A vitória foi do da direita, mas com o beneplácito do da esquerda
    GUILLAUME HORCAJUELO

    O Mundial segue com as suas surpresas e confirmações, sempre gigante, para o bem e para o mal. Diariamente, terá no site da Tribuna Expresso análises, histórias, crónicas de jogos, tudo para ter a melhor informação sobre o que suceder do lado de lá do Atlântico. Siga-nos também no Facebook e Instagram.

    No podcast “No Princípio Era a Bola”, com Tomás da Cunha e Rui Malheiro, agora diário, tem episódios dedicados ao Campeonato do Mundo, com as principais análises e antevisões da competição.

    Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: lpgomes@expresso.impresa.pt