O meu pai, casmurro de hábitos como somos todos, encontrava gosto em chamar “pés de chumbo” a jogadores da bola. Ria-se da piada simplória, lembro-me dos seus olhos a rasgarem, das rugas de expressão a aparecerem-lhe nas margens, quando eu o fitava e ele me via a olhá-lo meio entretido, meio desgostoso com a chalaça que o fazia rir sozinho. Achar graça à graça que mexe com os nervos dos outros vem do casulo da nossa existência, não sei se esta próxima parte é verídica, a memória engaveta as coisas mais como quer do que como elas aconteceram, mas recordo-me que esta tirada do meu pai trazia sempre um veredito.
— “O futebol é sempre a mesma coisa”, ou algo assim.
Igual a si próprio na melena grisalha riscada ao meio, os círculos dos olhos bem esbugalhados, Jorge Jesus foi, na sexta-feira, ao bolso interior do casaco, tirou os papéis com as caras dos jogadores lá impressas e, antes de os ditar no seu exercício de mesmíssimo, arriscou dizer umas palavras não escritas no guião. Foi o único improviso do homem que não tem culpa do pouco que a seleção jogou nos últimos quase quatro anos, mas culpado é de as suas primeiras escolhas serem fiéis às do antecessor.
Portugal vem do fastio conhecido do mando de Roberto Martínez, campeão das qualificações, rei das percentagens de vitória. Jesus não tem parecenças nas falas diplomáticas, e marimba-se para agradar a toda a gente como o espanhol, nas suas explicações contorcionistas, bem tentava. Mas a sua convocatória de estreia, nos nomes, muito se assemelhou a qualquer uma feita no ciclo anterior: das quatro novidades face ao Mundial, só João Palhinha, bulldozer de médio, um encaixe no molde de 6 que apraz ao treinador há que tempos, vem para ser um titular de caras nestes novos tempos que vieram com pó dos velhos tempos.
Faltou sacudi-lo da pele dos 25 portugueses chamados por Jesus. Na ressaca de um Campeonato do Mundo, período que no cíclico futebol costuma propiciar à mudança de ares — coincide com o prazo dos contratos assinados com treinadoras —, a seleção nacional divergiu, não sugerindo mudança. A fartura de França recomeça com Zinedine Zidane, os Países Baixos acolhem o olhar de fora de Xavi, a crise de Itália conforma-se com o regresso a Roberto Mancini e a Alemanha convenceu Jürgen Klopp a voltar aos bancos para se entregar à sua revolução de convocar mais de 40 jogadores. As potências da Europa que não a campeã do mundo e a Inglaterra renovam-se, olham para a frente, chamaram jovens e refrescaram um pouco os nomes na primeira convocatória após o pináculo dos torneios de futebol.
Portugal não, prega a fé nos mesmos e Jorge Jesus quase fez pouco do Das Reboot germânico: Klopp convocou 44 jogadores para pôr os olhos em cima de muitos, ficar a conhecer o possível de quase tantos como os 46 que o português pré-convocou. “Não tem lógica nenhuma”, julgou Jesus, porque continua o mesmo, litúrgico no seu costume de garantir que com ele os mesmos ovos darão omeletes não com outro sabor, mas um melhor.
É provável, espera-se que sim. Com Martínez, a seleção era uma redundância de chuteiras calçadas, cheia na bagagem de elogios vindos dos adversários, também de temores pelas expectativas do que a densa qualidade dos portugueses podia gerar, mantendo-se aprisionada pela ideia do espanhol, com os seus passes para o lado e para trás, que em campo impôs um teto mais baixo do que as alturas a que se dizia que Portugal podia aspirar.
Foram quase quatro anos de desconexão gradual com os adeptos. O marasmo das exibições fomentou as teorias de Portugal ser uma seleção estagnada nos discursos floreados do selecionador, sujeita às vontades de um capitão dono da última palavra, ou aos clientes de um certo super-agente, era só escolher uma de várias conspirações disponíveis. As dúvidas funestam quando o futebol jogado não dá certezas.
Com Jesus, treinador de impactos rápidos quando entrou em clube novo, tivemos para já o que ele já tinha avisado. Não ia revolucionar nada, apenas três ou quatro nomes mudariam, como mudou, confiante de que sob a sua varinha a magia será outra. Justificou-se, e repetiu, que já trabalhou com 13 dos 25 convocados, argumento com validade só para esta fornada de chamadas e que funciona para validar a escolha, lá está, dos mesmos.
Portugal teima na alergia à novidade, desvia o olhar do acenar de um novo ciclo; resiste a confiar em novos pés que daqui a poucos anos terão protagonismo quando os antigos mais velhos ficarem e a fome por ganhar, à qual Pedro Proença tem dito para nos habituarmos, tiver de ser alimentada pela geração que vem a seguir.
Centrar o discurso em ganhar, só em ganhar, infeta e convida a passos maiores do que as pernas. Por duas vezes perguntaram a Jorge Jesus pela final da Liga das Nações, capricho futurista quando ainda nem o primeiro jogo da competição aconteceu. Portugal ganhou-a já duas vezes, ninguém desgosta de vitórias, mas o terceiro louro maior que uma seleção europeia pode conquistar também devia ser uma oportunidade para experimentar jogadores, ambientá-los à seleção, introduzi-los aos famosos ralhetes do selecionador, para quando os mesmos de há muitos anos já não derem e tenham de vir os novos a transição seja feita com suavidade.
Se antes não tiver havido uma gradual renovação, de repente vamos exigir a quem pouco jogou que ganhe já.
Gostamos de ter a carroça posta à frente dos bois e desta feira veio a empurrão de Cristiano Ronaldo — ou melhor, das inevitáveis questões acerca dele que poluem cada aparição em público de um selecionador nacional. Uns vão sucedendo a outros e mantém-se a tibieza em assumir que o tempo do capitão está a findar e a sua influência deveria, aos poucos, ser descontinuada. A seleção de um país não deveria ser o desígnio de um homem.
Quiseram saber se Jorge Jesus estima que Ronaldo esteja na final da Liga das Nações, no próximo verão, quiçá a marcar o seu golo 1000, dando a enésima impressão de que a cisma de um jogador de 41 anos, há muito em óbvia decadência de poderes, tem relevância maior do que o sucesso da seleção nacional. “O passado dele não conta”, fintou Jesus, “o Cris é um jogador como todos os outros: se tem rendimento joga; se não tem rendimento, não joga”. Palavras bem ditas, mas ocas se o que se vier a ver for mais do mesmo. Valor tem-no os atos. “Tem um estatuto diferente? Tem, a carreira é diferente, tem cinco Bolas de Ouro. Se isso conta para as minhas decisões? Zero. Mas que é diferente dos outros, é”, acrescentou, para dar o nó num laçarote de contradição e não tocar na porta sagrada.
O ano é 2026 e ainda andamos nisto, a falar de mais do mesmo e a manter a porta da seleção perra, com as dobradiças a rangerem para jogadores que não os do costume. Ainda mais agora, quando anda a FPF a levar o seu canto de sereia aos ouvidos de luso-descendentes, pescando na diáspora para tentar agarrar os possíveis talentos do amanhã: a seleção sub-21 tem lá vários, Mathias de Amorim e Mezian Soares são exemplos. Escusado será perguntar-lhes se a sua mira está na seleção A. Com o tempo, tenham eles rendimento e o justifiquem, poderiam ser testados no degrau acima para prevenir que sejam enjorcados à pressa quando a necessidade apertar mais adiante e o pavio da paciência for mais curto.
Mas para já não, decisão de Jesus, por ora indiferente nas suas escolhas à erupção de vários jogadores na primavera da carreira. “Achei por bem, neste momento, que para esses mais jovens ainda não é a oportunidade deles”, outorgou, não dando sinais de que o funil da seleção alargou com a sua chegada. Preferiu manter os ingredientes, de novo contraditório na explicação dos porquês: “O que me interessa é o presente e o futuro.”
E o meu pai algures a rir-se atrás do seu bigode, eu adorava vê-lo a rir, contente pela eternidade da piada enquanto nós cá em baixo prosseguimos, até ver, com este sermão de mais do mesmo na seleção nacional.
O que se passou
Zona mista
Sabemos o quão difícil vai ser a Liga, continua a ser uma corrida muito longa contra duas equipas que, juntas, investiram mais de €200 milhões no mercado.
Ao fim de sete vitórias em sete jogos no campeonato, a última contra o Benfica, no Dragão, Francesco Farioli quis logo na flash-interview engrandecer a tarefa que espera esta época ao FC Porto, ao seu FC Porto que mantém as fortalezas todas que o tornam, há mais de um ano, na equipa mais complicada de bater em Portugal. O clássico de domingo mostrou-o mais uma vez, numa prova de que esvaziar a carteira e encher o carrinho de compras não implica, por regra, o fortalecimento de uma equipa. Entre os candidatos ao título, os dragões são o que menos esbanjou desde a chegada do italiano, mas continuam a ser o que menos abana em campo.
O que vem aí
Segunda-feira, 21
⚽👩 Na 2ª jornada da Liga BPI, o FC Porto, estreante na principal divisão do futebol feminino português, recebe o SC Braga (18h, Porto Canal).
Terça-feira, 22
⚽👩 Na Liga dos Campeões feminina, o Benfica visita a Juventus de Tatiana Pinto e Ana Capeta (20h, RTP2).
Quarta-feira, 23
🎾 Começam dois torneios ATP 250 na China, em Chengdu e Hangzhou, e decorrem até dia 29 (Sport TV).
⚽ Para algo um pouco diferente: Gibraltar, a 202º classificado do ranking da FIFA, recebe São Tomé e Princípe, que ocupa o 195º lugar (17h, Sport TV1).
Quinta-feira, 24
⚽ No arranque da Liga das Nações, Portugal recebe o País de Gales, no Dragão, para a estreia de Jorge Jesus como selecionador nacional (19h45, RTP1).
⚽ À mesma hora (Sport TV2), os Países Baixos recebem a Alemanha no jogo que estreia treinadores em ambas as equipas.
Sexta-feira, 25
🎾 Começa a Laver Cup, torneio de exibição criado por Roger Federer que junta estrelas do ténis (Alcaraz e Zverev lá estarão) numa equipa da Europa e noutra do Resto do Mundo (a partir das 19h, Eurosport 1).
⚽ A seleção nacional de sub-21 vai à Bulgária a contar para a qualificação rumo ao próximo Europeu da categoria (16h30, Canal 11).
⚽ Na Liga das Nações, a Itália recebe a Bélgica (19h45, Sport TV2).
Sábado, 26
🎾 Laver Cup (a partir das 19h15, Eurosport 1).
⚽ Partida das grandes na Liga das Nações: a campeã do mundo Espanha vai a Wembley defrontar a Inglaterra, terceira melhor seleção do último do Mundial (19h45, Sport TV1).
🏉 No Top 14, a primeira divisão do râguebi francês, o Section Pauloise de Rodrigo Marta defronta o Stade Rochelais (20h, Sport TV).
Domingo, 27
🏉 Râguebi: após bater, por 3-1, a Nova Zelândia numa recente série de jogos entre os dois países, a África do Sul visita a Austrália (10h45, Sport TV6).
🏁 Fórmula 1: Grande Prémio de Azerbaijão (12h, DAZN).
⚽👩 Liga BPI: o SC Braga recebe o Sporting (14h45, Canal 11).
⚽ Mais Liga das Nações: Portugal joga na Noruega (19h45, RTP1).
Hoje deu-nos para isto
Haverá quem sentisse o coração espremido de saudade deste Real Madrid, deste José Mourinho, deste Real com Mourinho a arrastar um clássico em Espanha para o chorrilho de ataques aos árbitros. Perdido o dérbi para o Atlético, derrotados os merengues com um jogador expulso, Mourinho deu à manivela da bobina, recuou a fita ao raiar da década passada quando ele, menos grisalho, ajudou a arrastar o futebol para mais do que o visto no campo, fazendo das conferências de imprensa trincheiras, indo à guerra com palavras antes e depois dos pontapés na bola. Para quem ansiava por tal, Mourinho reavivou, no domingo, esses tempos de críticas, suspeitas e cercos à arbitragem respaldado por um Real Madrid que já o andava a fazer há anos no seu canal de televisão.
Fora este ressuscitamento de antigos costumes, o dérbi madrileno teve uma novidade a pisar a relva. Kylian Mbappé calçou umas chuteiras de branco integral, sem logótipos, poucos dias após se saber que trocou a Nike, uma gigante do futebol, pela On, estreante na modalidade-rainha através do francês. Desconhece-se por quanto, mas a estrela do Real, melhor marcador da história dos Mundias, não quis continuar com a marca norte-americana, onde apesar do seu estatuto estelar era só mais um, optando pela empresa suíça mais preocupada com a corrida e o ténis, dando um safanão nestas lides de patrocínios e afins.
Não em moldes iguais a Michael Jordan, cuja mãe, com ele acabado de sair do basquetebol universitário, bateu o pé à Nike para o filho ficar com uma percentagem das vendas das sapatilhas que seriam vendidas com o seu nome — uma veleidade inédita —, o contrato fez de Mbappé um acionista da On. O capitão da seleção francesa, patrocinado pela Nike desde criança, trocou de alianças seduzido por uma chuteira desenhada só para ele, com ele a ser tido na sua criação, e ele a trabalhar com o carismático Thierry Henry, também contratado pela On para ser o seu diretor das operações para o futebol.
Sozinho, Kylian Mbappé não move as placas tectónicas de um mercado dominado por Nike e Adidas, com a Puma distante na perseguição. Porém revela como movediças são as fundações que antes ficavam para o quanto durasse uma carreira: Eusébio foi Puma, como Pelé e Maradona; Messi ainda calçou Nike na adolescência até a Adidas estar em todos os pontapés da sua lenda; Ronaldo, o fenómeno e o Cristiano, são sinónimo do swoosh. Os calcantes com pitons hoje já não são estanques e agora, de repente, dois dos prováveis três jogadores badalados como favoritos na corrida à Bola de Ouro têm nos pés marcas quase estranhas ao futebol.
O avançado Harry Kane, se é que ainda faz sentido chamar-lhe avançado, joga com Skechers, alheia à bola até o inglês, exímio em tarefas bem além da de marcar golos, a abraçar há uns anos (Isco ou Mohammed Kudus também calçam chuteiras da marca). E agora Mbappé aventura-se com a On, que ainda nem tem as botas prontas como se viu no dérbi de Madrid: o francês ainda usou um modelo da Nike branqueado, sem o símbolo à mostra. Primeiro abanou o mercado, só depois virão as chuteiras.
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