Se pensarmos bem, é provável que estivéssemos anestesiados pela letargia da vulgarização. Novak Djokovic chegar às meias-finais dos quatro Grand Slams com a idade que tinha em 2025 já era um feito absurdo de tão estapafúrdio: em viagem dos 37 aos 38 anos e com as articulações a rangerem, Djokovic fê-lo e parece que absorvemos essa constelação de feitos como ver um autocarro a passar na rua mais movimentada de uma metrópole. Uma coisa indistinta devido à sua normalidade. E não sei se isto será o imperador dos elogios ou o cúmulo do insulto.
Melbourne proporcionou, no domingo, algo como um karma tenístico ao sérvio: longos anos foram os que Novak subjugou adversários à lei de espargatas, elasticidade de plasticina e potentes pancadas disparadas de posições-limite, obrigando quem o defrontava a arriscar tudo em cada bola para ter um semblante de hipótese de ultrapassar o tenista que a par de ser muralha no campo, construiu sentinelas de dúvida dentro da cabeça dos adversários durante os seus melhores anos; agora foi ele, com as aptidões físicas em natural falência, a ter de jogar em modo risco máximo para ter alguma chance de fazer um rapazola dançar.
O jovem e jovial Alcaraz teve sempre mais um sapateado para dar, mais uma direita fulminante, mais uma resposta que devolvia a bola mais complicada do que como lhe chegara. Aos poucos, correu menos e fez Djokovic correr mais, o desespero em pessoa, o sérvio com os bofes de fora, a pedir comprimidos para as dores (antes do quarto set) e audivelmente a arfar enquanto o espanhol era omnipresente nos pontos estonteantes, quase apoteóticos para o ancião entre ambos não fosse Carlitos a corporização desse “quase” no ténis. É possível a um adversário ser espetacular ao defrontar o espanhol, mas é improvável que isso seja suficiente para o superar.
O tenista a quem se banalizou alcunhar com um diminutivo prova, a cada ano, a injustiça desse batismo carinhoso. Alcaraz já era o mais novo tenista a ser o número 1 mundial, a ganhar Grand Slams nas três superfícies. Virou agora, aos 22 anos e 272 dias, o mais jovem a conquistar Nova Iorque, Paris, Londres e Melbourne empunhando apenas uma raquete. Fatiou um ano e 195 dias à idade que já dava juízo a Rafael Nadal, em 2010, para começar a abdicar dos calções de corsário, à pirata, quando fixou o recorde de juventude ao ganhar o US Open. O seu adversário, nesse dia, foi Novak Djokovic, mais uma evidência de como o universo é fã de bumerangues.
Conhecendo o sérvio, terem passado 16 anos — os mesmos que tem de diferença para Carlos Alcaraz — e ser ele o repetente no lado derrotado do court onde se batizou outro recordista de precocidade será um pedaço que lhe custará horrores a deglutir. Djokovic é incontestável: a fibra que o perfaz, o seu poço sem fundo de recursos técnicos, o método monástico, silenciosamente furioso, com que se imiscuiu num duopólio, suplantou-o e sobreviveu-lhe com uma carreira que torna difícil contestar que ele é o melhor tenista da história. Há 18 anos ganhou o seu primeiro Grand Slam e ainda cá anda, intacto na aura mas a roçar os limites do seu corpo.
Como em Paris, onde se pôs sublime para ter um ouro olímpico, Djokovic estava obrigado a ir à perfeição em Melbourne. Haveria de apunhalar o erro em cada pancada, só assim teria hipótese contra o sprinter, meio-fundista, marchador e maratonista e demais especialidades fundidas num só Alcaraz, o alquimista de todos os truques. Mas nem assim o alcançou porque o espanhol chegou para todas as bolas, até as que o sérvio bateu por fora do limite da rede. Se Carlos, uma parede andante, cansa só de ver, imagine-se a fadiga mental que provoca em quem tenta fazer uma bola passar por ele.
A cinco meses de soprar 39 velas, já tinha sido impressionante a insurgência do sérvio contra Jannik Sinner, pneumático tenista, o outro co-líder desta nova geração que joga para terraplanar com intensidade quem a enfrente. Esvaiu-se aí o sérvio em energia, na que lhe faltou na final. “Já é uma lenda do ténis. É extraordinário, merece todos os elogios”, dedicou-lhe Novak, condecoroso para com este rival como pouco o vimos a ser em relação aos contemporâneos Roger Federer e Rafael Nadal enquanto ainda peleavam pelo púlpito de troféus que o sérvio acabou por reclamar. O reformado espanhol esteve na Austrália a assistir à final e até ele foi aplaudindo, com cara de espanto.
Qualquer alma nascida nos anos 80 sabe dos chiares que corroem o corpo quando se insiste em praticar desporto com este tipo de impacto já perto dos quarenta, por mais amador que seja. Fica inevitável não compadecermos com a forma como Djokovic manda o tempo ir às urtigas e voltar mais tarde para o vir buscar. Mas esta final tinha uma certeza antológica devido à sua dupla afronta contra o tempo. Desde Fred Perry, na década de 30, que ninguém vencia todos os majors à primeira final disputada em cada um; mais assombroso do que os sete Grand Slams que coleciona e todos os números de carreira é o perene lastro com que ‘Carlitos’ já inundou o imaginário coletivo do ténis: tão novo e já tão causador da sensação de ser imbatível.
Era justo acharmos, como achámos, que a ressaca de Federer, Nadal e Djokovic seria um depressivo buraco negro. Sofremos por antecipação ao prevermos que aos três melhores tenistas da história, coincidentes na mesma geração, seria impossível suceder algo com remotas parecenças. E eis que enquanto a luz do último deles finda após a chama dos outros dois se ter extinguido, apareceu um Jannik Sinner robótico na destruição maciça e um Carlos Alcaraz reguila no trato, com aura de ser gente como a gente, conquistador de apreços por dominar toda a palete de cores tenísticas e ter gestos como aquele sorriso maroto que lhe escapou antes de ser jogado o seu championship point em Melbourne, como uma criança prestes a receber um doce.
Haver um campeão que se digne a confessar que precisa de arejar a cabeça de vez em quando, cometer o crime de não existir a 100% para a ténis e ir a Ibiza com os amigos a meio da temporada, como o fez e mostrou num documentário, refresca a perceção de pertencerem a outra galáxia que cerca estes atletas que tocam na estratosfera. Novak Djokovic atribuiu-lhe o estatuto de lenda e até se estendeu na atribuição de cognomes — “pequeno titã” ou “jovem feiticeiro de Oz” — porque terá bem a noção de estar perante um diamante do mais raro que há. Se mantiver este ritmo e se imunizar contra lesões, aos trinta e poucos anos o espanhol terá os mesmos 24 Grand Slams do sérvio.
São duas enormidades de “se”, mas Carlos Alcaraz já é uma lenda. Fujamos à anestesia.
O que se passou
Zona mista
Levou muitas crianças, sobretudo meninas, a querer praticar patinagem.
José Raimundo, presidente-adjunto da Federação Portuguesa de Patinagem, ao mencionar a “Soy Luna”, uma série de animação da Disney que, garante ele, muito tem contribuído para o aumento do número de praticantes de patinagem artística no país. As suas declarações constam na reportagem feita pela Alexandra Simões de Abreu com as recentes campeãs mundiais portuguesas, Madalena Costa e Rita Azinheira, numa modalidade que não é olímpica, mas tem Portugal como uma das suas potências.
O que vem aí
Segunda-feira, 2
⚽ A 20ª jornada da I Liga é encerrada com dois jogos: o AFS-SC Braga (18h45, Sport TV2) e o Casa Pia-FC Porto (20h45, Sport TV1).
🌊 Continua na mítica onda de Pipeline, no Havai, a sexta etapa do Challenger Series, circuito de qualificação de surf. Lá estão Yolanda Hopkins, já qualificada para o mundial, e Teresa Bonvalot (a partir das 18h, no site da WSL ou na Sport TV6). A janela da competição vai até 9 de fevereiro.
Terça-feira, 3
⚽ Na Serie A, o Bologna visita o AC Milan (19h45, Sport TV2) e, para a Taça da Liga inglesa, já dérbi londrino: Arsenal-Chelsea (20h, Sport TV1).
Quarta-feira, 4
❄️🥌 A cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno só acontece na sexta-feira, mas neste dia começa logo a ação no curling (18h, Eurosport1).
👟 Portugal joga as meias-finais do Europeu de futsal, contra a França (18h30, Sport TV6).
🏆⚽ O Fafe, da Liga 3, joga com o Torreense, da II Liga, a primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal (20h15, Sport TV1).
⚽ O Manchester City de Bernardo Silva, Rúben Dias e Matheus Nunes é anfitrião do Newcastle na Taça da Liga inglesa (20h, Sport TV2).
Quinta-feira, 5
🏒🥌 O hóquei no gelo junta-se ao curling nos Jogos Olímpicos de Inverno a partir dass 9h, Eurosport1).
🏆⚽ É a vez de o Sporting receber o AFS para o respetivo primeiro embate da outra meia-final da Taça (20h45, RTP1).
⚽ Na Copa del Rey, em Espanha, o o Real Betis recebe o Atlético de Madrid (20h, Sport TV3).
🏉 Começa o torneio das Seis Nações com o jogo inaugural a ser em Paris: França-Irlanda (20h10, Sport TV6).
Sexta-feira, 6
❄️ Começam (oficialmente) os Jogos Olímpicos de Inverno em Milão-Cortina d’Ampezzo, com a sua cerimónia de abertura (19h, Eurosport1).
Sábado, 7
🏉 Torneio das Seis Nações: Itália-Escócia (14h10, Sport TV7) e Inglaterra-País de Gales (16h40, Sport TV7).
👟🏆 Final do Campeonato da Europa de futsal (18h30, Sport TV2).
⚽ Arranca a 21ª jornada da I Liga: Moreirense-Gi Vicente (15h30, V+), Estrela da Amadora-Santa Clara (15h30, Sport TV1), Estoril Praia-Tondela (18h, Sport TV1) e Arouca-Vitória (20h30, Sport TV1).
Domingo, 8
⚽ Prossegue o campeonato nacional: Nacional-Casa Pia (15h30, Sport TV1), SC Braga-Rio Ave (18h, Sport TV1) e Benfica-Alverca (20h30, BTV).
⚽ Dia de jogo grande na Ligue 1 francesa: o PSG de Vitinha, João Neves, Nuno Mendes e Gonçalo Ramos recebe o Marselha (19h45, Sport TV3).
Hoje deu-nos para isto
O nome escorreito desta última parte da newsletter, na sua génese, visa dar folha em branco ao escriba para algo mais inusitado ou inaudito, uma espécie de lado B da cassete, mas o “hoje” merece revisão por a visada ser a seleção nacional de andebol. Deveria ser sempre, não ocasionalmente, que louros são tecidos à equipa e aos jogadores que acabaram no 5º lugar do Europeu de andebol, a melhor classificação de sempre para Portugal, superadora do 6º posto alcançado em 2020.
Nesse ano começou a ser encadeada a série de oito fases finais em nove possíveis - a única exceção foram os Jogos Olímpicos de Paris -, todas com Paulo Jorge Pereira, treinador-cuidador da caldeirada na qual mesclou gerações, aproveitando braços experientes como os de Alfredo Quintana, Gilberto Duarte, Fábio Magalhães ou António Areia, cozinhando-os em lume brando com a ousadia dos jovens talentosos que foram aparecendo, entre eles Luís Frade, Salvador Salvador ou os manos Costa.
O mais velho, Martim, marcou o golo decisivo na última jogada contra a Suécia, o caçula foi votado para a equipa ideal deste Campeonato da Europa (além do grandalhão do nome ao quadrado), temperos que carregam no travo deixado em mais um torneio onde Portugal se destacou: há um ano, só parou nas meias-finais do Mundial, acabando na 4ª posição. “Quando se atinge um nível altíssimo em andebol, o céu e o inferno andam sempre muito próximos um do outro. Desta vez, subimos o céu”, disse o feliz selecionador.
Antes que tal aconteça, valorizemos com maior constância a seleção e o staff de uma federação por transcenderem a visibilidade que granjeiam, mas responsáveis por cordilheiras de esforços para a engrandecer: não há véspera ou ressaca de jogo durante uma competição em que o técnico e os jogadores deixem de falar a jornalistas e, quem diria, sem nunca se distraírem do essencial, desculpa fetiche que é muito ouvida quando se tenta falar com futebolistas. O país está atento, os jogos e feitos recentes passaram no canal aberto da RTP, até nas lamacentas redes sociais já se pescam bitaites de bancada a colocar em causa as opções do selecionador.
São sintomas de uma modalidade a espraiar-se, dores de crescimentos que evidenciam um alcance a mudar. “Haverá vezes em que vamos cair para o inferno,” acautelou Paulo Jorge Pereira, prudente quanto ao inevitável no desporto. Que daqui em diante nos dê mais, a todos, para atentarmos ao andebol.
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