Além de todas as características que os distinguem das outras espécies, a incompatibilidade com despedidas é um requisito para se ser considerado humano. Ninguém consegue ensinar o maldito do coração a lidar com a partida daquilo que durante um tempo considerável o fez feliz. A saudade é filha dessa separação.
Mohamed Salah deixará de ser jogador do Liverpool no final da época. A antecedência do anúncio distribuirá a dor dos mais apegados por cada um dos jogos que ainda tem para realizar ao serviço dos reds. Mais do que isso, cada entrada em campo será uma celebração de um dos melhores de sempre da Premier League.
Salah fez todos acreditarem que os golos vêm de uma árvore que dá fruta o ano inteiro. Ultrapassou sempre os adversários pela direita, a sua via de trânsito preferida, construindo caminhos – a julgar pela velocidade, pareciam autoestradas – para as redondezas da baliza. No seu ritmo, sempre alucinante, o egípcio de 33 anos chegou ao quarto lugar da lista de melhores marcadores de sempre da Liga Inglesa (191). Só o 200 Club, composto por Wayne Rooney (208), Harry Kane (213) e Alan Shearer (260), o supera. Juntando a variável das assistências, nunca alguém na Premier League esteve envolvido em tantos golos (281) por um só clube.
Um jogador histórico numa era histórica. Antes de Salah empolgar Anfield, o Liverpool não ganhava a Premier League há quase 30 anos e a Liga dos Campeões há mais de 10. A saída do extremo dá-se após ter ajudado a renovar o espólio do museu com novos exemplares dessas taças, conquistas que ressuscitaram o ego do clube. Se tivesse que descrever as suas principais qualidades numa entrevista de emprego, o Liverpool desse tempo teria que elogiar o trio Mohamed Salah-Sadio Mané-Roberto Firmino, a vibrante fórmula de ataque desenvolvida por Jürgen Klopp.
O arranque de época do Liverpool acolheu ao engano um período de dez jogos na Premier League em que os reds saíram sem a vitória em oito. Nesse momento, Mohamed Salah amuou com a quantidade de vezes que Arne Slot o deixou no banco, algo que o fez sentir-se “muito dececionado”, tanto que desabafou em frente aos microfones. “Fiz muito por este clube ao longo dos anos. Parece que o clube me atirou para debaixo do autocarro. É assim que me sinto. Alguém queria que eu levasse com a culpa toda.” O anúncio da saída do atacante foi, de parte a parte, feito sem deixar o rancor estragar as nove épocas de ligação que não se sentem representadas por um instante de birra.
Os grandes clubes veem-se na maneira como se despedem das lendas. A elevação do Liverpool no momento da saída de Mohamed Salah dá esperança aos que ficam de também poderem deixar o clube como heróis e essa expectativa une, vincula e motiva. Pode até ser usada para convencer outros a conseguirem grandes feitos com a garantia de que não serão vistos como uns indivíduos quaisquer. Ninguém gosta de despedidas, mas no espectro de formas que estas podem assumir, o Liverpool tem queda para escolher as melhores.
A única maneira de imaginar o último jogo de Salah em Anfield é com um “You’ll Never Walk Alone” dedicado ao seu legado. Pelo menos, é o que os exemplos sugerem. Foi assim com Steven Gerrad, foi assim com Jürgen Klopp e foi assim com Diogo Jota, que não podê esperar para o ouvir a partir do relvado.
O que se passou
Zona mista
"Foi um jogo taticamente exigente”
Só um verdadeiro geek se lembrará da existência de um México-Portugal em março de 2026, dos onzes iniciais e do resultado do amigável quando uma pergunta sobre o tema surgir numa noite de quiz. A seleção nacional fez uma exibição insossa, demonstrando que viajar tantos quilómetros para realizar um particular no Estádio Azteca serviu para muito pouco. Roberto Martínez, que parece não concordar, deu um bombom a Paulinho para gáudio dos mexicanos, o que implicou que Gonçalo Guedes fosse recambiado para uma posição que não aquela que o treinador lhe prometeu. Pelo menos, que o protocolo tenha sido afinado.
O que vem aí
Segunda-feira, 30
⚽ Amigáveis de seleções: Alemanha-Gana (19h45, Sport TV1)
Terça-feira, 31
🏀 NBA: Atlanta Hawks-Boston Celtics (00h, Sport TV1) e OKC Thunder-Detroit Pistons (2h30, Sport TV3)
⚽ Playoff Mundial: Suécia-Polónia (19h45, Sport TV1), Bósnia-Itália (19h45, Sport TV4), Kosovo-Turquia (19h45, Sport TV5), Chéquia -Dinamarca (19h45, Sport TV7) e RD Congo-Jamaica (22h, DAZN)
⚽ Amigáveis de seleções: Inglaterra-Japão (19h45, Sport TV2), Países Baixos-Equador (19h45, Sport TV6) e Espanha-Egito (20h, Sport TV3)
🏀 March Madness: South Carolina-TCU (2h, DAZN)
Quarta-feira, 1
⚽ Amigáveis de seleções: Estados Unidos-Portugal (00h, RTP1), Brasil-Croácia (1h, Sport TV4)
🤾♂️ Liga dos Campeões: Veszprém-PSG (17h45, Sport TV7)
🚲 Através da Flandres (11h45, Eurosport 2)
Quinta-feira, 2
🏀 EuroLiga: Estrela Vermelha-Partizan (19h, Sport TV1)
🤾♂️ Liga dos Campeões: Sporting- Wisla Plock (19h45, Sporting TV)
Sexta-feira, 3
⚽ I Liga: Sporting-Santa Clara (20h30, Sport TV1)
Sábado, 4
🏀 NBA: Milwaukee Bucks-Boston Celtics (1h, Sport TV1)
⚽ FA Cup: Manchester City-Liverpool (12h45, Sport TV2)
⚽ Futebol Feminino: Sporting-SC Braga (16h, Sporting TV)
⚽ Bundesliga: Estugarda-Dortmund (17h30, DAZN1)
⚽ La Liga: Atlético Madrid- Barcelona (20h, DAZN1)
⚽ I Liga: FC Porto-Famalicão (20h30, Sport TV1)
Domingo, 5
⚽ Seria A: Inter-AS Roma (19h45, Sport TV1)
⚽ Ligue 1: Mónaco-Marselha (19h45, Sport TV2)
🏀 NBA: Boston Celtics-Toronto Raptors (20h30, Sport TV4)
Hoje deu-nos para isto
O andebol português atingiu patamares inimagináveis de reputação. Os resultados da seleção nacional e dos clubes nas competições europeias colocaram-no em elevada conta. O FC Porto deu um grande impulso ao renascer da modalidade. O 7x6 dos dragões, com Rui Silva a operá-lo, permitiu exibições memoráveis na Liga dos Campeões. A seleção incorporou, além de jogadores, rotinas dos azuis e brancos ao ponto de Portugal, ainda em trajetória ascendente, ter conseguido obter um histórico 4º lugar no Mundial.
Desde 2009/10, quando o campeonato se passou a designar I Divisão, até 2022/23, o FC Porto venceu dez dos 13 títulos possíveis. No entanto, dois anos antes da última conquista azul e branca, o Sporting iniciou um projeto para pôr em causa o domínio instalado. Em resposta à saída de Pedro Valdés para o rival, os leões contrataram Martim Costa e Francisco Costa. Com Carlos Carneiro como diretor desportivo, Ricardo Costa como treinador, o talento dos irmãos Costa e o líder abnegado Salvador Salvador, a base para passar das ideias à prática estava montada. Logo na época 2022/23, o FC Porto assumiu a liderança apenas a três jornadas do fim do campeonato após vencer o resistente Sporting, no Dragão Arena, durante numa ode ao andebol. A mudança de paradigma ficaria para o ano seguinte.
O Sporting venceu consecutivamente dois campeonatos, quatro Taças de Portugal e três Supertaças. No panorama nacional, não há quem demova a equipa de Alvalade, que foi este fim de semana ao Dragão Arena ganhar ao FC Porto de modo a encaminhar a conquista de mais um troféu. Devido às perturbações causadas pela falta de condições do balneário destinado aos leões, o jogo começou com 15 minutos de atraso. Quando chegou ao local, a comitiva verde e branca deparou-se com um “cheiro intenso” e “adormecedor”, confirmado pelos delegados. Vários elementos receberam assistência médica, sendo que Ricardo Costa e Moga ficaram de fora da ficha de jogo.
Apesar de não ter garantido condições para que os visitantes se pudessem equipar – fizeram-no nos corredores –, ainda com o jogo a decorrer, o FC Porto negou “de forma absoluta, clara e inequívoca os relatos tornados públicos relativamente a incidentes alegadamente ocorridos no balneário” que levaram a “aparentes indisposições de elementos do Sporting”. Já os leões, após alargarem para 12 o número de jogos sem perderem contra o FC Porto, consideraram “absolutamente repugnantes as sucessivas ações que o FC Porto tem vindo a protagonizar nos últimos tempos e vai solicitar, com caráter de urgência, uma reunião com a Ministra da Cultura, Juventude e Desporto”.
Foi com grande esforço que o andebol português se aproximou das potências da modalidade, sacrifício esse que parece em vão devido ao surgimento de situações inusitadas capazes de manchar uma imagem que levou muito tempo a ser criada. De repente, voltámos a parecer um país de terceiro mundo.
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