Tribuna 12:45

O Mundial é a vontade de ser criança durante um mês

O Mundial é a vontade de ser criança durante um mês

Pedro Barata

Jornalista

Um rapaz a jogar futebol em Dhaka, no Bangladesh, com a camisola de Portugal e, atrás, um mural de Messi e o troféu do Mundial
SOPA Images

Sei sempre que tive um teste no dia 9 de junho de 2006. Não me lembro de que disciplina, mas não me esqueço da data nem da existência de uma avaliação. Porquê? Porque naquele mesmo dia, a 9 de junho, umas horas depois do meu teste, começou o Mundial 2006. Alemanha-Costa Rica, Munique, debaixo do sol bávaro.

O jornal “Record”, que por aqueles tempos eu lia religiosamente (obrigado, mãe), trazia, nos meses anteriores ao pontapé de saída da competição, uma contagem decrescente para o arranque. Faltam 90 dias, 60 dias, 10 dias, é hoje. Para mim, o countdown possuía um duplo significado, ajudando-me a saber quando se concluíam os testes e quando principiava o Mundial.

Era a combinação perfeita. O fim das responsabilidades, arrumar os livros até ao fim do verão, e o começo da diversão. Era o meu primeiro ano no liceu, no quinto ano, e coincidia com o meu primeiro Mundial, porque em 2002 ainda não seguia devidamente a bola.

O Alemanha 2006 arrancou quando eu tinha 10 anos, terminou já comigo tendo 11 voltas ao sol, e foi devorado pelo meu cérebro de menino. As camisolas, a bola, os jogos, os protagonistas. Faltar à aula da tarde para ver o Portugal-México (obrigado, mãe).

No dia da final, fui com a minha família para a praia dos Alteirinhos. Quando a tarde já ia longa, mesmo antes de regressarmos para a nossa casa na Zambujeira do Mar, eu e o meu pai simulámos um desempate por penáltis na areia. “É a final do Mundial”, gritávamos, um era Barthez, outro Buffon. Horas depois, estaríamos, efetivamente, a ver o Itália-França ser decidido daquela forma. Só não imitámos a cabeçada de Zidane.

A partir dali, todos os Mundiais foram uma pequena grande infância vivida durante um mês. É essa a essência deste pedaço de felicidade redonda vivido ao longo de algumas semanas: a vontade de voltar a ser criança, de ver o jogo como se fosse a primeira vez, a primeira eliminação injusta, o primeiro jogador desconhecido a revelar-se, saber onde fica o Equador ou Togo ou Colónia ou Frankfurt. Saber o que foram os Julgamentos de Nuremberga por Portugal ter jogado naquela cidade, travando uma batalha contra os Países Baixos que então todos ainda chamávamos Holanda.

Eis um certo paradoxo: os Mundiais afirmaram-se sempre como este pedaço de infância em retorno, ainda que, por se disputarem de quatro em quatro anos, cada um tenha marcado um momento diferente da minha vida. 2006 e o primeiro ano de liceu. 2010 e os exames para entrar no secundário (exame de Português a 16 de junho, meu dia de anos, dia em que Espanha, surpreendentemente, perdeu contra a Suíça). 2014 e o fim do meu primeiro ano de faculdade. 2018 e o fim da faculdade. 2022, primeiro Mundial como jornalista nesta casa. 2026, primeiro Mundial como pai.

É como se os Mundiais fossem um companheiro que vai observando cada mudança, cada nuance, diferentes fases da vida.

E eis que entra em campo o fim da inocência.

Este será o Mundial MAGA. Mas não só isso, claro
Patrick Smith

Sim, este vai ser o Mundial MAGA. O Mundial de Trump, do ICE, em que vai competir um país cujo chefe de Estado foi assassinado por um dos anfitriões.

2018 foi o Mundial da Rússia de Putin, o grande amigo da FIFA que teve de deixar de o ser. 2022 foi o Mundial do Catar, dos mortos na construção. Foram Mundiais de sportswashing, de lavagem de imagem, a Rússia a querer ganhar espaço no concerto internacional, o Catar projetando-se como importante jogador de soft power.

Este é o Mundial do anti-sportwashing. Se no sportswashing se pretende lavar imagem, ser simpático, “venham visitar-nos e descobrir como somos maravilhosos”, agora é o oposto disso. Querem visitar-nos? Paguem preços absurdos. Corram o risco de prisão ou deportação. Não levem águas para os estádios. Não vos queremos. A não ser que tenham uns milhares de dólares aí no bolso. Nesse caso, tomem lá este bilhete. Mas não levam águas. E não esperem sorrisos de volta.

Este uso do futebol, e particularmente do Mundial, não é novo. Para ir a exemplos com quase um século de vida, 1934 já foi a competição de Mussolini: transmitido via rádio para diversos países, teve merchandising próprio, bilhetes impressos em papel de alta qualidade, um cartaz oficial desenhado por Filippo Tommaso Marinetti, ideólogo do movimento futurista. Foi criada a Coppa del Duce, um troféu seis vezes mais alto que o Jules Rimet — a taça oficial do torneio — entregue em simultâneo aos vencedores como uma oferenda com a chancela de Mussolini. Em 2022, o Catar faria parecido ao cobrir Messi com o bisht.

O que fazer perante isto? Negar a vontade de ser criança, negar o Mundial? Bem, isso não é possível. Não é possível porque o futebol, para boa parte da humanidade, não é propriamente uma escolha. E aí reside parte do equívoco de quem coloca o futebol na competição por atenção existente, por quem o mete ao barulho com a Netflix ou a HBO ou o TikTok.

O futebol não é uma opção. O futebol acontece-nos, calha-nos. É parte da família. É muito mais religião, uma missa cada domingo porque os pais já iam e os avós já iam e é assim a vida, do que opção racional. Não há como o negar.

O que fazer, então? Pois bem, não deixar que quem se quer apropriar do Mundial, quem quer usar esta fábrica infinita de sonhos, fique sozinho na conversa. Escrutinar. Questionar. Lembrar que este é um património coletivo. Não permitir a usurpação. Ser crítico, mas não sair da sala.

Aí está outro Mundial. Aí estão mais semanas para ser criança. A que se devem essas olheiras hoje, dormiste mal? Não, simplesmente é dia 17 de manhã e houve um Argentina-Argélia às 2 da manhã e um Áustria-Jordânia às 5 da madrugada.

Fechado por futebol, escreveu Galeano. Aberto para ser criança, acrescento eu.

O que se passou

No penúltimo amigável antes da partida para os Estados Unidos, Portugal derrotou o Chile. O Diogo Pombo esteve lá.

Acabou Roland-Garros, estreando vencedores de torneios do Grand Slam: Mirra Andreeva e Alexander Zverev.

Florentino Pérez ganhou as eleições do Real Madrid. Mourinho irá para o Bernabéu e, ao que tudo indica, Marco Silva para o Benfica.

Seguem os nossos cromos do Mundial, com gente do Uzbequistão, Bósnia, França ou Arábia Saudita.

De fora do Mundial estará, novamente, Itália. Aqui ficam algumas tentativas de diagnóstico da crise azzurra.

A Lídia Paralta Gomes foi a Bournemouth falar com Evanilson.

Kika Nazareth foi a estrela da vitória de Portugal contra a Letónia.

Leu a Previsão do Tempo, da Lídia Paralta Gomes?

Cinco anos depois,Eriksen voltou a cair inconsciente em campo durante um jogo da Dinamarca. O médio está estável.

Derlei Silva, conhecido por “Ninja” quando conquistou, enquanto temível avançado, a Liga Europa, a Liga dos Campeões e a Taça Intercontinental pelo FC Porto, e Dani Alves, segundo futebolista mais titulado da história, um dos melhores laterais de sempre, tricampeão europeu pelo Barcelona, campeão olímpico e das Américas com a “canarinha”. Hoje são, respetivamente, donos do Fafe e do São João de Ver, emblemas que se enfrentaram há poucas semanas

Zona mista

Não nos vamos meter acima de outras seleções, mas também não nos vamos meter abaixo. Olhando para França, Espanha, Inglaterra, Argentina e outras, temos de olhar para essas seleções como favoritas, como nós, mas sempre olhos nos olhos, porque não estamos abaixo.

Em entrevista à Tribuna Expresso, Bernardo Silva foi, em todos os sentidos, Bernardo Silva: com conhecimento e pensamento sobre o futebol, mas também frontal, sem amarras, direto. O preferido de Guardiola é um dos expoentes máximos de uma seleção recheada de gente habituada a competir no Evereste da exigência e que, por isso, não alinha em discursos poucochinhos.

O que aí vem

Segunda-feira, 8 de junho
⚽ Seguem os encontros de preparação para o Mundial, com um França-Irlanda do Norte (20h10, Sport TV1).
🎾 Depois da terra batida, eis a temporada de relva: acompanhe 's-Hertogenbosch (10h00, Sport TV2), nos Países Baixos, e Estugarda (10h00, Sport TV3), ambos da categoria 250
🚴 A competição do regresso de João Almeida à competição, o Tour Auvergne Rhône-Alpes, antigo Dauphiné, com a segunda etapa (14h20, Eurosport 1)

Terça-feira, 9
⚽ Portugal rumo ao Mundial feminino, deslocando-se à Finlândia (18h00, Canal 11)
⚽ Na agenda dos amigáveis há Peru-Espanha (03h00, Sport TV1)
🎾 's-Hertogenbosch (10h00, Sport TV2) e Estugarda (10h00, Sport TV3)
🚴 Tour Auvergne Rhône-Alpes, terceira etapa (14h20, Eurosport 1)

Quarta-feira, 10
⚽ O derradeiro encontro de preparação de Portugal, recebendo a Nigéria em Leiria (20h45, RTP1/Sport TV1)
⚽ Também em amigáveis, Inglaterra-Costa Rica (21h00, Sport TV3)
🎾 Mais uma jornada de 's-Hertogenbosch (10h00, Sport TV2) e Estugarda (10h00, Sport TV3)
🚴 Tour Auvergne Rhône-Alpes, quarta etapa (14h20, Eurosport 1). Também o circuito Franco-Belga (16h15, Eurosport 1)
🚗 𝟐𝟒 O começo de uma das provas mais míticas do automobilismo: as 24 horas de Le Mans, com os treinos livres (17h30, Eurosport 1)

Quinta-feira, 11
⚽ Aí está o arranque mais esperado: cerimónia de abertura do Mundial (19h00, Sport TV1) seguida do México-África do Sul (20h00, Sport TV1/LiveMode/TVI), o duelo inaugural
🎾 's-Hertogenbosch (10h00, Sport TV2) e Estugarda (10h00, Sport TV3)
🚴 Tour Auvergne Rhône-Alpes, quinta etapa (14h20, Eurosport 1).
🚗 𝟐𝟒 Novo dia de treinos em Le Mans (21h45, Eurosport 1)

Sexta-feira, 12
⚽ Começam as madrugadas de Mundial: Coreia do Sul-Chéquia (03h00, Sport TV5). Já à hora de jantar de sexta, Canadá-Bósnia (20h00, Sport TV5/LiveMode/SIC)
🎾 Nova jornada de Estugarda (10h00, Sport TV2)
🚴 Tour Auvergne Rhône-Alpes, sexta etapa (14h20, Eurosport 1).

Sábado, 13
⚽ A anfitriã que faltava entra em campo: EUA-Paraguai (02h00, Sport TV5). Depois um Catar-Suíça (20h00, Sport TV5) e a estreia do Brasil, contra Marrocos (23h00, Sport TV5/LiveMode)
🤾Meias-finais da Liga dos Campeões de andebol: SC Magdeburg-Fuchse Berlin (14h00, Sport TV4) e Aalborg-Barcelona (17h00, Sport TV4)
🎾 Meias-finais de Estugarda (13h00, Sport TV2)
🚴 Tour Auvergne Rhône-Alpes, sétima etapa (14h20, Eurosport 2)
🚗 𝟐𝟒 As 24 Horas de Le Mans (14h45, Eurosport 1)

Domingo, 14
⚽ Madrugada com dose dupla: Haiti-Escócia (02h00, Sport TV5) e Austrália-Turquia (05h00, Sport TV5). Para o fim da tarde e noite de domingo, Alemanha-Curaçau (18h00, Sport TV5/LiveMode) e Países Baixos-Japão (21h00, Sport TV5)
🤾 Final da Liga dos Campeões de andebol (17h00, Sport TV3)
🎾 Final de Estugarda (12h00, Sport TV4) e também a final de 's-Hertogenbosch (13h30, Sport TV1)
🚴 Última etapa do Tour Auvergne Rhône-Alpes (14h25, Eurosport 2)
🚗 𝟐𝟒 Prosseguem as 24 horas mais famosas dos automóveis (08h00, Eurosport 1)

Hoje deu-nos para isto

Ganhar 125 encontros até ter a vitória, aquela vitória. Vencer 125 vezes e, à 125.ª, chegar ao momento tão aguardado.

Jamais na história do ténis um jogador tivera de triunfar em tantos encontros para erguer um major. Alexander Zverev quebrou uma maldição, um bloqueio mental, um peso acentuado pelas derrotas no trio anterior de finais de Grand Slam. Finalmente, Sascha é o orgulhoso dono de um dos quatro títulos mais importantes da modalidade que o vem tendo como um dos mais consistentes competidores, mas ainda fora deste clube de lendas.

Roland-Garros 2026 tornou-se a oportunidade para o alemão. Alcaraz não participou por lesão. Sinner sucumbiu à canícula. João Fonseca tirou Djokovic do caminho. Tinha de ser o momento de assassinar o fantasma. E foi.

Desde que os quadro principais de Grand Slams têm 128 tenistas, Zverev é apenas o segundo vencedor — depois de Thomas Johansson, na Austrália em 2002 — a ganhar o major de estreia sem ter de bater qualquer adversário do top 10. Isto pode soar a descrédito da glória, mas não é: tens de derrotar quem se apresenta do outro lado, tens de aproveitar as oportunidades. Zverev não falhou.

Zverev conseguiu, finalmente, o seu Grand Slam
Shi Tang

A profundidade do talento existente no ténis italiano ficou evidente. Eis a Tennaissance, o renascimento da bola amarela para lá dos Alpes, a nova superpotência. Sem Sinner, houve, na mesma, um representante do país na final de Roland-Garros, como se fosse algo fácil. E Cobolli levou a decisão para o quinto set, chegando a mexer com os nervos e ansiedades e dúvidas de Zverev.

Ainda assim, o alemão impôs-se. Ou melhor, Cobolli colapsou. Subitamente, Zverev passou de ser alguém perseguido por ainda não ter conseguido o que perseguia para um jogador com uma cabine de troféus invulgar, somente o quarto de sempre a ter títulos a nível de Grand Slam, Masters 1000, ATP Tour Finals e Jogos Olímpicos.

Foi uma refrescante — sem segundos sentidos meteorológicos — quinzena parisiense. Novos protagonistas. Histórias inesperadas. A rivalidade Sinner-Alcaraz é fascinante, mas uma pausa não faz mal a ninguém.

E eis que chegamos à parte incómoda. Zverev tem um passado de perguntas por responder. Mais de um caso de acusação de violência doméstica. Tudo sempre negado pelo alemão, entre um silêncio desconfortável da ATP.

Com o tempo, o tema do novo campeão de major e as alegações de violência foi ficando numa prateleira da sala do ténis, como uma fotografia antiga cujos contornos já nos são familiares, mas sem grande novidade nem inquietação. Normalizou-se.

E assim chegou o momento há muito aguardado. Sascha campeão. O ruído, para já, algo mais apagado, mas ainda lá, com pontos de interrogação eternos.

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