Na última semana fui acompanhando com um misto de incredulidade, fascínio, preocupação e, claro, também alguma jocosidade, os feitos dos robôs humanoides nos Jogos Mundiais dos ditos cujos na China, em que máquinas feitas de metal, chips e fios condutores conseguiram a proeza de, por exemplo, correr mais rápido do que Usain Bolt nos 100 metros, saltar mais alto do que o mítico cubano Javier Sotomayor, ainda hoje detentor do recorde mundial do salto em altura, ou jogar uma partida de ténis com um humano.
Por momentos, aterrorizei-me com a possibilidade de aquilo ser “O” futuro, assim com ó grande. Será que daqui a alguns anos o desporto será isto? Será que os feitos das máquinas vão raptar o interesse de quem assiste a uma prova desportiva? Esse momento de trevas esfumou-se num par de segundos, não mais que isso, segundos.
(Isto do ponto de vista meramente desportivo, porque a possibilidade destes humanoides engordarem sem alma ou questões éticas uma máquina de guerra deixa-me para lá de apavorada.)
Deixou de me preocupar porque aos robôs faltará sempre uma condição humana que, no fundo, é o que nos faz ficar agarrados a uma televisão ou de pé num estádio a assistir a uns Jogos Olímpicos ou outra qualquer competição desportiva. Porque dos robôs esperamos que apenas melhorem, apenas façam coisas cada vez mais impressionantes, que se tornem inevitáveis. Dos atletas humanos também esperamos tudo isso, mas sabendo sempre que pode acontecer um dia mau, um azar, uma preparação que correu menos bem, a inclemência do tempo e das naturais fraquezas de quem é feito de músculos e alma e não de fibra de carbono ou placas de titânio. As pessoas não vão ligar desportivamente aos feitos dos robôs humanoides da mesma forma que desprezam um atleta que se dopa.
Tudo isto tornou-se subitamente real quando, este fim de semana, Tadej Pogačar, o mais sobre-humano dos ciclistas, talvez até de todos os desportistas, perdeu uma Volta a Espanha que estava virtualmente conquistada.
À 4ª etapa, logo à 4ª etapa da Vuelta, uma das três grandes voltas de três semanas do ciclismo, a única que falta ao palmarés obeso do curvilíneo Pogačar, escrevi que “só uma calamidade, uma queda, um azar” poderia roubar a sua primeira vitória em Espanha, tal era o domínio avassalador do esloveno, fosse a desferir ataques a 50 quilómetros da meta ou a ser mais rápido que todos os outros contra o relógio.
E essa calamidade, essa queda, esse azar acabou mesmo por acontecer.
Já Pogačar tinha três etapas no bolso e quase quatro minutos de vantagem para uma incapaz concorrência quando, numa anónima etapa em linha, sem qualquer dificuldade, construiu-se uma daquelas sequências de acontecimentos que só é mesmo possível atribuir aos ditames das coincidências. Pogačar ia tranquilamente no pelotão quando resolveu beber água - coisa que os robôs não necessitam. Surgiu então uma pedra, da qual o esloveno se tentou desviar, sem sucesso. Caiu, foi de cara ao chão e as suas capacidades sobre-humanas tornaram-se subitamente mais humanas: de nada vale ter uns pulmões e um coração de grande capacidade e uma mente sólida quando se tem uma fratura na clavícula esquerda, outra numa vértebra e uma concussão. Para tratar de tamanhas mazelas, não bastará mudar uns fios e umas placas, como quando os robôs alucinam e batem contra paredes: serão meses e meses de paragem para um atleta que dominou como quis as últimas temporadas do ciclismo.
Não há, portanto, nunca, em tempo algum, vencedores antecipados no desporto, porque quem o pratica é humano e coisas humanas podem sempre acontecer. O azar de Pogačar explica porque é que o desporto nunca será dos robôs, será sempre dos homens que ganham, mas que também podem falhar, ter uma lesão, um revés inesperado. As histórias de superação, de recuperação, mas também as de queda, de infortúnio e desventura serão sempre muito mais fascinantes para o ser humano do que a evolução tecnológica, por muito que ela faça parte do desporto.
De Tadej Pogačar já escrevemos vezes sem conta sobre os seus feitos, recordes, a forma como revolucionou o ciclismo, a sua fome e capacidade de ganhar em todas as grandes competições, sejam clássicas ou nas grandes voltas. Agora está na hora de contar a história da sua recuperação e regresso. Tudo isto é muito humano, de tudo isto se faz a paixão humana pelos desportos.
E, dentro do azar de uns, abrem-se novas narrativas, daquelas que um robô nunca terá a capacidade de protagonizar. Sem Pogačar, o líder da Vuelta passou a ser Enric Mas, maiorquino que arrancou a temporada com uma exibição pálida na Volta a Itália, que lhe valeu críticas públicas da sua equipa, a Movistar. Agora, quando muitos já o consideravam acabado, aquele que foi em tempos uma das esperanças do ciclismo espanhol pode escrever uma incrível história de resistência e surpresa. Tenta lá isto, robô humanoide.
O que se passou
Sporting e FC Porto ganharam confortavelmente na jornada 4 da I Liga. O Benfica joga esta segunda-feira, também dia de dérbi do Minho.
As equipas portuguesas já conhecem os respetivos adversários na Liga dos Campeões, Liga Europa e Liga Conferência.
A seleção nacional de basquetebol fez história ao bater a Espanha pela primeira vez em jogos oficiais.
Zona mista
O avô está de volta
Aos 37 anos, Fernando Pimenta é um caso raro de longevidade. Daí a referência, zombeteiramente exagerada, do próprio, depois de se sagrar de novo campeão mundial de K1 1000, a prova-rainha da canoagem. Mas Pimenta é mais do que idade: é uma história de pura conexão com a competição e com as exigências da mesma. Há quem olhe para ele como “o melhor atleta português de sempre”. Mais de 180 medalhas depois tem de estar, pelo menos, nessa discussão.
O que aí vem
Segunda-feira, 31
⚽ O Benfica-Estoril (20h15, BTV) e o SC Braga-Vitória (20h15, Sport TV1) fecham a jornada 4 da I Liga
⚽ Em Itália, a Roma, de Rodrigo Mora, visita o terreno do Lecce (17h30, Sport TV2) e na La Liga o Barcelona recebe o Rayo Vallecano (20h30, DAZN2). Na Premier League, siga o Aston Villa-Arsenal (20h, DAZN1)
🎾 Siga o 2º dia do US Open, com as estreias de Carlos Alcaraz e Nuno Borges (15h30, Eurosport)
🏀 Qualificação Mundial: Portugal-Geórgia (19h45, RTP2)
Terça-feira, 1
⚽ Na Taça de Itália, o Parma recebe a Cremonese (17h, Sport TV2) e o Monza joga em casa do Torino (20h, Sport TV2)
🚴 Vuelta, etapa 10 (13h45, Eurosport)
🎾 Siga mais uma jornada do US Open (15h30, Eurosport)
Quarta-feira, 2
⚽ Continua a 2ª ronda da Taça de Itália, com o Udinese-Veneza (17h, Sport TV1)
🚴 Vuelta, etapa 11 (13h45, Eurosport)
🎾 Acompanhe os primeiros encontros da 2ª ronda do US Open (15h30, Eurosport)
Quinta-feira, 3
⚽ Na Ligue 1, o Lille joga em casa do Toulouse (19h45, Sport TV1)
🚴 Vuelta, etapa 12 (11h45, Eurosport)
🎾 US Open, 2ª ronda (15h30, Eurosport)
Sexta-feira, 4
⚽ Arranca a 5ª jornada da I Liga, com o FC Porto-Moreirense (20h15, Sport TV1)
⚽ Em França, o PSG recebe o Monaco (20h05, Sport TV3), na La Liga o Real Madrid, de José Mourinho, joga com o Betis (20h, DAZN) e na Premier League acompanhe o Ipswich-Liverpool (20h, DAZN)
🚴 Vuelta, etapa 13 (13h45, Eurosport)
🎾 Siga mais um dia de ténis no US Open (15h30, Eurosport)
Sábado, 5
⚽ I Liga: Estrela da Amadora-Famalicão (15h30, Sport TV2), Alverca-SC Braga (18h, Sport TV), Marítimo-Benfica (18h, Sport TV1) e Sporting-Nacional (20h30, Sport TV2)
⚽ Serie A: Inter-Nápoles (17h, Sport TV3) e Roma-Atalanta (19h45, Sport TV3). Na Premier League, o Man. City recebe o Coventry (15h, DAZN)
🚴 Vuelta, etapa 14 (13h45, Eurosport)
🎾 US Open (15h30, Eurosport)
🏁 F1: GP Itália, qualificação (15h, DAZN)
Domingo, 6
⚽ I Liga: Santa Clara-Rio Ave (15h30, Sport TV1), Vitória-Casa Pia (18h, Sport TV2) e Gil Vicente-Académico (20h30, Sport TV1)
⚽ Em Itália, o AC Milan, de Ruben Amorim, joga em casa da Juventus (19h45, Sport TV2). Em Inglaterra, veja o Everton-Man. United (14h, DAZN) e o dérbi de Londres, Arsenal-Chelsea (16h30, DAZN). Em Espanha, o Barcelona viaja até Valencia (15h15, DAZN)
🚴 Vuelta, etapa 15 (13h45, Eurosport)
🎾 US Open (15h30, Eurosport)
🏁 F1: GP Itália, corrida (14h, DAZN)
Hoje deu-nos para isto
O texto final desta newsletter está, de alguma forma, ou de muitas formas, relacionado com os escritos iniciais. Porque também é sobre génios que se veem, de repente, confrontados com o seu carácter de ser humano, de carne e osso.
Carlos Alcaraz terá, no US Open, um desafio. Está de regresso ao ténis, cinco meses depois de ter colocado o seu pulso direito em banho-maria. A lesão no pulso (ou punho) para um tenista é o equivalente a um futebolista rebentar o joelho: é impossível saber como se volta. Na melhor das hipóteses, sem sequelas, mas a possibilidade de não se voltar a ser o mesmo atleta existe, claro. Talvez a mudança capilar o ajude.
Esta segunda-feira, o espanhol, o mais impressionante tenista da sua geração, vai testar isso mesmo, numa caminhada em que até se pode cruzar, já na 2ª ronda, com o português Jaime Faria. Tudo isto num torneio que ainda agora começou e já não tem Novak Djokovic, finalmente a sentir-se humano depois de duas décadas em que foi o mais próximo de ciborgue que o ténis viu.
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