Tribuna 12:45

Portugal, o Mundial e a inutilidade de uma discussão que alguns querem surda e muda

Sem Ronaldo, Portugal goleou e vai estar no Mundial de 2026
NurPhoto

Bateram-se palmas por nove vezes no Dragão e no restaurante onde estava. Temeu-se nervosamente nos mesmos locais, separados por dezenas de quilómetros e pela meteorologia (os momentos de chuva nunca coincidiram, curiosamente), quando a Arménia empatou. E, no fim de tudo, onde estamos, o que tirámos daqui, deste jogo?

Talvez nada do que verdadeiramente interessa, não sendo jogo para isso, claro está. A Arménia é frágil, vive nos meandros do ranking da FIFA e resolveu dar-se ao duelo quando viu uma brecha para arriscar uma gracinha. Portugal correspondeu marcando nove golos, a equipa levitada pelas veias raiadas nos olhos de jogadores que, ao mesmo tempo, pareciam miúdos a divertir-se e assassinos em série no relvado do Dragão, tal a vontade de marcar mais e mais golos. Haverá poucas atitudes mais entusiasmantes num jogo de futebol, para mais um que acabou por dar a Portugal mais uma participação consecutiva num Mundial, a sétima, num total de nove.

Porém, a vitória concludente e a festa que se seguiu vai atirar, por exemplo, a cadência de erros no golo arménio para um qualquer canto. Deixará o jogo com a Irlanda no território do “psicológico”, como defendeu Roberto Martínez, e não no campo das evidentes dificuldades técnico-táticas apresentadas em Dublin. Manterá também, ao contrário do que se pensa, irrelevante qualquer discussão sobre lugares marcados à mesa, porque essa reflexão nunca existiu verdadeiramente, pelo menos para quem a deveria fazer. E quando ela existe, entre os adeptos, é sempre feita de polarização e exageros.

Sobre isso, a querela, de todos, adeptos e responsáveis, não deveria ser sobre ausências e presenças, deveria ser sempre sobre papéis e o papel que Cristiano Ronaldo deveria ter na seleção nacional. Deve ser proscrito como alguns defendem? Dificilmente. O seu magnetismo para o golo continua a ser uma característica que não é nada de se deitar fora para um treinador. Mas é cada vez mais incompreensível que o processo de jogo não tenha as suas hipóteses de aparecer com Roberto Martínez. No Mundial, Cristiano Ronaldo será invariavelmente titular, adeque-se ou não o jogo - e em alguns jogos até fará sentido que esteja no onze -, e vai, seguramente, marcar todos os livres e mais alguns, mesmo com outros jogadores com capacidades para o fazer no seio da seleção. João Neves não foi o primeiro a lembrá-lo.

É sim ou sopas, preto ou branco: a discussão não permite nada que viva no meio.

E isso é que é verdadeiramente preocupante: a ausência de hipóteses de discussão, seja sobre futebol ou outro qualquer tema. Olhar para o jogo com a Arménia como a prova que Ronaldo deveria estar fora será redutor e errado - talvez seja mais importante olhar para os dois duelos com a Irlanda -, mesmo que o ataque com a mobilidade de Gonçalo Ramos e o pensamento de Bruno Fernandes tenha dado provas de uma fluidez que Portugal não só necessita como tem a obrigação de mostrar, tal a qualidade individual que tem em boa parte das posições. O problema é que a discussão simplesmente não tem lugar, alguns querem-na surda e muda, por insondáveis razões, pouco próprias para pessoas com responsabilidades na gestão não só de uma equipa de futebol, mas também de homens.

Justificar um cartão vermelho por agressão - e a pobre atitude que se seguiu - com “muita paixão” e “frustração” abre portas à relativização de outro tipo de comportamentos profundamente errados. E não, não me peçam calma porque “isto é só futebol”. Apelidar de “falta de respeito” uma pergunta sobre a não-presença de Cristiano Ronaldo no Dragão, onde poderia festejar com os colegas uma vitória que lhe permitirá bater o recorde individual de presenças no Mundial, passa de novo uma mensagem já gasta: há assuntos em que, aparentemente, não se pode tocar. E tratar o capitão de equipa, seja ele quem for, com o mesmo barómetro de exigência face a outro jogador qualquer, é cuspir no prato da responsabilidade.

De tanto querer evitar “o circo”, como ele próprio lhe chamou naquela conversa de bros com um dos interlocutores de sempre, Cristiano Ronaldo contribui para ele. Mas não é o principal culpado. Perante tamanha força nas pancadinhas nas costas, Bruno Fernandes foi obrigado a ser o adulto na sala, dizendo em poucas palavras, sem melindrar ninguém, o que deveria ter sido logo atestado pelo selecionador nacional. Falou de coisas que “acontecem no futebol” - e é verdade, ninguém está livre de errar - e de uma “reação” que “custou caro” a Ronaldo. “Ele sabe que cometeu um erro, era algo que não queria fazer”, apontou, defendendo o colega sem lhe retirar as responsabilidades na atitude. Não é assim tão difícil e passa um exemplo bem melhor do que choramingar à FIFA panaceias para evitar uma suspensão que, naturalmente, se ficará por aqui - e se não ficar, a postura mais adulta é assumir as responsabilidades e seguir em frente até ao continente americano sem desculpas ou justificações.

O que se passou

A judoca portuguesa Joana Santos conquistou pela terceira vez o ouro nos Jogos Surdolímpicos, que estão a decorrer em Tóquio.

No râguebi, a seleção nacional voltou às vitórias, frente a Hong Kong.

Portugal bateu a Bélgica e está nos oitavos de final do Mundial sub-17: na terça-feira, o adversário é o México.

Zona mista

Perdemos com os Estados Unidos no primeiro jogo e eu só via alhos pelo ar. Eu nem sabia de onde é que eles vinham. É o que é, o misticismo, a crença. Eu fiquei incrédulo a ver aquilo, os rapazes todos chateados e alhos a voar… não faz sentido

Portugal qualificou-se para mais um Mundial e durante o fim de semana Vítor Baía explicou, entre tantas outras coisas, numa longa e sumarenta entrevista à Tribuna Expresso, o porquê da Geração de Ouro não ter conseguido conquistar qualquer título, em tempos em que o profissionalismo não grassava na cúpula da FPF. E não foi assim há tanto tempo. Parafraseando, mais coisa, menos coisa, o mítico guarda-redes: foi o que foi

O que aí vem

Segunda-feira, 17
⚽ Últimas decisões na qualificação europeia para o Mundial 2026: siga o Alemanha-Eslováquia (19h45, Sport TV1), Países Baixos-Lituânia (19h45, Sport TV2), entre outros
🏀 NBA: Cleveland Cavaliers-Milwaukee Bucks (0h, Sport TV1)

Terça-feira, 18
⚽ Mais seleções procuram a qualificação para o Mundial 2026: Espanha-Turquia (19h45, Sport TV1), Bélgica-Liechtenstein (19h45, Sport TV2), Kosovo-Suíça (19h45, Sport TV6) e Escócia-Dinamarca (19h45, Sport TV7)
🎾 Taça Davis: França-Bélgica (15h, Sport TV3)

Quarta-feira, 19
⚽ Europa Cup: Sporting-Glasgow City (19h45, Sport TV1)
🎾 Taça Davis: Itália-Áustria (15h, Sport TV3)

Quinta-feira, 20
🎾 Taça Davis: Espanha-Chéquia (9h, Sport TV2) e Argentina-Alemanha (16h, Sport TV3)

Sexta-feira, 21
⚽ Taça de Portugal: Atlético-Benfica (20h30, RTP1)
🎾 Taça Davis: meias-finais (15h, Sport TV3)

Sábado, 22
⚽ Taça de Portugal: Sporting-Marinhense (18h, Sport TV1) e FC Porto-Sintrense (20h15, RTP1)
⚽ Em Itália, o Nápoles recebe a Atalanta (19h45, Sport TV7); em Inglaterra o Liverpool recebe o Nottingham Forest (15h, DAZN) e o Manchester City viaja até Newcastle (17h30, DAZN); na La Liga, o Barcelona joga com o Athletic Bilbao (15h15, DAZN)
🎾 Taça Davis: meias-finais (9h, Sport TV7)
🏉 Râguebi: País de Gales-Nova Zelândia (15h, Sport TV6), Irlanda-África do Sul (17h30, Sport TV6) e França-Austrália (20h, Sport TV6)

Domingo, 23
⚽ Taça de Portugal: Tondela-Caldas (17h, 11) e SC Braga-Nacional (17h30, Sport TV1)
⚽ Em Itália há dérbi de Milão: Milan-Inter (19h45, Sport Tv2); na Premier League dérbi do norte de Londres: Arsenal-Tottenham (16h30, DAZN)
🏉 Râguebi: Escócia-Tonga (13h30, Sport TV6) e Inglaterra-Argentina (16h, Sport TV6)
🎾 Taça Davis: final (14h, Sport TV7)

Hoje deu-nos para isto

O primeiro balanço do Conselho de Arbitragem, prometido para a jornada 10 (vai repetir-se à 20 e à 30), veio em timing, digamos, interessante. Em plena guerrilha entre os três grandes porque árbitros, porque resultados, porque haverá sempre uma qualquer razão ou desculpa para atirar um cocktail molotov verbal ao rival.

Ao organismo, há que admirar a coragem de, pelo menos, fazer algo, estar disposto a arriscar, disposto a tentar primeiro e, se for necessário, admitir o erro mais tarde. Dificilmente a transparência será um erro, o problema é que já ninguém liga a factos ou estatísticas. E eles dizem, de acordo com o CA, que a taxa de acerto do VAR, por exemplo, foi de 97% nas quatro competições sancionadas: I e II Ligas, Liga BPI e Taça da Liga. Os erros foram, por isso, pontuais, bem mais baixos que a taxa de trapalhada de muitos avançados ou da percentagem de equívoco dos treinadores na hora de preparar um jogo ou fazer substituições.

Os erros de arbitragem não estão todos ligados ao VAR. Claro que não. O canto-que-não-era-canto em São Miguel é um erro factual, que nada tem a ver com a video-arbitragem - e que, espero, nunca tenha a ver, sob pena dos jogos passarem a durar horas. A condução de jogo, por vezes tão importante quanto este ou outro lance, tão-pouco. A arbitragem portuguesa terá também a sua reflexão a fazer face às decisões não acertadas da última jornada. E vai fazê-la, seguramente. Ao contrário dos nossos dirigentes, que continuam agarrados a discursos fanfarrões, outros inflamados, outros chicos-espertos, esquecendo-se que neste mundo do futebol toda a gente tem, sem exceção, os seus telhados de vidro.

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