A Páscoa é uma excelente desculpa para o regresso às origens, às aldeias onde ainda passa o compasso e há alecrim à porta. Revê-se a família, recordam-se outros tempos, talvez mais duros, seguramente mais simples, ouvem-se histórias, ditames, anedotas. Volta-se ao anonimato urbano com o sotaque agarrado à goela, os ésses que se transformam em jotas, as palavras que se aglutinam. E com aquelas expressões que não querem dizer nada mas querem dizer tudo e que só lá ouvimos, saídas da sabedoria popular de avós, tios, pais.
Qualquer dia acontece uma desgraça e depois eu quero ver, ouvi tantas vezes no meio de uma qualquer maroteira infantil com mais gente mirrada de idade, nunca me questionando sobre aquele final de frase, um significado suspenso, como uma nota musical que pede outra logo a seguir. Mas eu quero ver o quê? Isso não interessa. Importa apenas o aviso, a dúvida criada. Ninguém quer ver uma desgraça, só quer evitá-la.
Estes dias pascais, curiosamente, coabitaram com várias infantilidades, alimentadas por malta graúda como quem dá de comer a um cordeiro para o sacrificar. Olha-se para certas redes de clubes com responsabilidades sociais e veem-se clips de lances de jogos dos rivais, com frases irónicas, outras em tasqueiro caps lock, nem sequer é um post da Truth Social, embora possa parecer, jorrados por alguém de tez laranja e mentalidade de criança birrenta. Os comunicados optam pela gasolina, nunca pela água. Recebem-se as agendas da tutela e há reuniões pedidas e a pedido, quer-se pacificar o ambiente, mas depois cá fora foi o que se viu: dois presidentes usando fato e gravata, aparentemente dotados da habilidade de usar talheres, a insultarem-se um ao outro, num desrespeito institucional de quem, na verdade, se calhar não ouviu o que devia ter ouvido da parte de ministros e secretários de Estado. Por vezes, com as crianças mal-comportadas, é mesmo preciso colocá-las de castigo.
E, pior, levando de rojo modalidades que têm engrandecido essa entidade gigante e imensurável que é “o desporto português”. O desporto português, ao contrário do que certos dirigentes ditos modernos pensam, não é só o pontapé na bola, a qualificação para a Champions, o campeonato que se aproxima ou que foge. Isso eram outros tempos, tempos esses a que estamos a regressar, isto se alguma vez fugimos deles. Levando a discussão tingida de azul e verde para o andebol, desrespeita-se grandemente uma modalidade que, ano após ano, e depois de ter colocado para trás certas polémicas, se supera, colocando o nosso país num patamar de excelência outrora inimaginável. Uma injustiça atroz.
O adepto mais obstinado olha para o festival das últimas semanas e sente-se validado. Afinal, vale a pena alimentar narrativas de contra tudo e contra todos - se o meu presidente o faz porque raio não haverei eu de fazê-lo no café, nas redes sociais, no almoço pascal com aquele cunhado que torce por outro clube? Por que razão terei eu de tentar encontrar as nuances, a complexidade, quando o discurso pode ser tão simples, quando o meu treinador usa as conferências de imprensa para nutrir dúvidas, zonas coloridas? Eles contra nós, por puro ódio, porque o sistema isto e aquilo, sem colocar sequer em cima da mesa que provavelmente há outras explicações, mil e uma explicações, há erros humanos, outros que nem sequer erros são, apenas conspirações adubadas por quem devia olhar por si abaixo e perceber que está a fazer mal ao desporto português. Em tempos de VAR, acreditar que os títulos só se ganham nos bastidores, nas guerras de palavras, nos gritos, nas pequenas manhas é de uma tacanhice que não esperava ver em 2026.
Qualquer dia acontece uma desgraça e depois eu quero ver. Quero ver quem alimentou o monstro a pedir “medidas”, “mão firme das autoridades”, sacudindo a água do jersey, seja ele vermelho, azul ou verde, acusando antes de refletir sobre as suas próprias palavras, como aquele meme do Homem-Aranha a apontar o dedo a outro Homem-Aranha.
Nos últimos dias lembrei-me também de uma bela foto que o piloto Miguel Oliveira publicou nas suas redes sociais. Com ele, os dois filhos e a mulher, cada um com uma camisola de um clube diferente. Não consta que haja problemas lá em casa. Nos comentários, a esmagadora maioria fala em respeito, em rivalidade saudável, aplaude a mensagem. Amabilidade gera amabilidade, não custa assim tanto compreender.
O que se passou
Portugal terminou o périplo pelas Américas com uma vitória frente aos Estados Unidos, mas sem deslumbrar. Roberto Martínez diz ter ficado “satisfeito”.
A seleção italiana conseguiu a proeza de não se qualificar pela terceira vez consecutiva para o Mundial. O pior é que nem foi uma grande surpresa.
Zona mista
Neste momento, toda a gente tem muito respeito e muito medo do Sporting
O andebol não merecia ser arrastado, por puro clubismo, para a guerra aberta que se vive entre equipas de futebol em Portugal e por isso não é nunca demais recordar o que o Sporting anda a fazer na Champions, onde está bem encaminhado para chegar aos quartos de final. Ivan Nikčević, que por ali jogou durante quatro temporadas, até 2020, fez questão de ressalvar isso mesmo em entrevista a esta nossa/vossa casa
O que aí vem
Segunda-feira, 6
⚽ O Arouca-Estoril (18h45, Sport TV1) e o Casa Pia-Benfica (20h45, Sport TV1) fecham a jornada 28 da I Liga
⚽ Na Serie A, o Nápoles joga em casa do Milan (19h30, Sport TV3)
🎾 ATP 1000 de Monte Carlo (10h, Sport TV3)
🏀 NBA: Atlanta Hawks-New York Knicks (0h, Sport TV1)
Terça-feira, 7
⚽ Regressa a Champions, com o Sporting a receber o Arsenal (20h, Sport TV5) nos quartos de final. Acompanhe também o Real Madrid-Bayern Munique (20h, DAZN1)
Quarta-feira, 8
⚽ Na Liga Europa, o SC Braga recebe o Bétis nos quartos de final (17h45, TVI)
⚽ PSG-Liverpool (20h, Sport TV5) e Barcelona-Atlético Madrid (20h, DAZN1) são os jogos do dia dos quartos de final da Champions
Quinta-feira, 9
⚽ O FC Porto recebe o Nottingham Forest nos “quartos” da Liga Europa (20h, Sport TV5). Na mesma competição, siga o Bolonha-Aston Villa (20h, DAZN1) e o Friburgo-Celta de Vigo (20h, DAZN2)
🤾♂️ O Sporting joga em casa do Wisla Plock em vantagem para se apurar para os quartos de final da Champions de andebol (17h45, Sporting TV)
Sexta-feira, 10
⚽ O Famalicão-Moreirense abre a jornada 29 da I Liga (20h45, Sport TV1)
Sábado, 11
⚽ I Liga: AFS-Vitória (15h30, Sport TV1), Santa Clara-Rio Ave (18h, Sport TV1) e o Estrela-Sporting (20h30, Sport TV1)
Domingo, 12
⚽ I Liga: Alverca-Casa Pia (15h30, Sport TV1), Benfica-Nacional (18h, BTV), SC Braga-Arouca (18h, Sport TV2) e Estoril-FC Porto (20h30, Sport TV1)
🎾 ATP 1000 Monte Carlo, final (14h, Sport TV3)
Hoje deu-nos para isto
A Volta à Flandres juntou num só pelotão os melhores do mundo nas corridas de um dia e Tadej Pogačar voltou a fazer tadejpogačarices, atacando de longe, batendo outros extraterrestres para vencer o seu segundo Monumento do ciclismo do ano, depois da Milão-Sanremo. São três vitórias na corrida belga, colocando-se entre os recordistas, isolando-se em segundo lugar na lista de maiores glutões de Monumentos, agora a sete de Eddy Merckx - e haverá uma alcunha que suplante “O Canibal”?
Mais que isso, o esloveno coloca-se numa posição que o deixa num qualquer olimpo onde talvez só esteja mesmo Merckx. Será que este ano vai conseguir conquistar os cinco Monumentos? A maior dificuldade surgirá no próximo fim de semana: o temível Paris-Roubaix, uma das poucas provas onde Pogačar não é favorito absoluto. Há um ano estreou-se no pavé do norte de França com um 2º lugar, depois de ter caído quando seguia Mathieu van der Poel, mais pesado que Tadej, que nunca estaria no bingo de Roubaix noutros tempos. Mas Pogačar é muito mais do que a sua figura aparentemente fina. Se vencer em Roubaix no domingo deixará de haver barreiras entre si e o exuberante epíteto de “melhor de sempre”.
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