Tribuna 12:45

Toma Vitinha, é tua a bola que o João roubou

Vitinha e João Neves são a trave-mestra do meio-campo do PSG e podem ser da seleção nacional
Xavier Laine

Eu me confesso, tinha esta newsletter fisgada para dedicar por inteiro a Vitinha. Reparem: na era dos matulões de estampa no futebol em que pelo jargão dentro entram termos como a “dimensão física” ou a “fisicalidade”, o Paris Saint-Germain ganhou a segunda final seguida da Liga dos Campeões dando a bola, dizendo-lhe “toma, é tua, pensa-a tu”, ao tipo fininho de membros, baixinho em altura, de fraca figura à vista desarmada que tem no coração do meio-campo. Trata-se de uma divergência ambulante, o Vitinha, a quem cometeram o desplante de o batizar com um diminutivo de modo a que o que ele joga, além de extraordinário, ser irónico.

E condigno por reforçar a contradição.

Vitinha joga muitíssimo, uma barbaridade, afinal deram-lhe um pequeno troféu arredondado em forma daquilo que não lhe sai dos pés, feito das estrelas prateadas e iconográficas da Champions, que distingue o melhor jogador da final onde ele, o pequenote irrequieto, lá esteve a pedir a bola sem descanso, a querê-la por defeito que é feitio mesmo perante o antídoto do Arsenal que também foi buscar à ironia um dos seus ingredientes: para tentarem anular a influência do português, os ingleses não o pressionaram além do mínimo exigível quando tinha a bola.

Seria de rir não fosse de gabar. Trocado por miúdos, o Arsenal pôs um jogador na frente de Vitinha perto o suficiente para ele não se sentir à vontade mas longe o quanto baste de maneira a não ser atraído à sua beira e abrir um espaço atrás para o passe entrar.

Outra costela de ironia: tentar diminuir o alcance do jogador conhecido pelo seu diminutivo, que ditador de jogo é se a bola estiver na sua companhia, deixando-o tê-la, preferindo antes tapar as hipóteses de o português a passar a alguém que estivesse numa posição vantajosa. É mau que ele tenha a bola, pior fica se a conseguir passar, eis a lógica. Resultou até deixar de resultar, o PSG deu a volta à estratégia, Vitinha rodeado está de craques, imerso numa equipa fluída que mesmo sem a dinâmica do costume lá se desemaranhou do bloco compacto do Arsenal, por demais defensivo e aborrecido.

Quando o fez em modo cruzeiro, a partir da segunda parte, teve outro português, um mais discreto, no cerne de tudo. Se nos rendermos ao engodo do holofote e atentarmos só ao que o foco ilumina tendemos a não ver o que está literalmente ao lado, e é o caso de João Neves. Quando as cãibras queimaram os músculos de Ousmane Dembélé, o Bola de Ouro que continuamos por descobrir com que pé prefere chutar, do capitão Marquinhos e de Vitinha, tirando-os da partida, prevaleceu em Budapeste a fibra do discreto ladrão de bolas, igualmente pequenino como o conterrâneo do meio-campo, igualmente gigante no quanto joga.

Em João Neves não há cortes de cabelo desbastados ou aparados antes do jogo como é costume nos futebolistas dados a cuidarem da imagem, que fazem de barbeiros convidados de honra dentro dos estágios das equipas. João jogou com a guedelha com que acordou naquele dia, discreto nas funções e simples nas ações durante 120 minutos, uma formiga operária que engana: trabalha tanto, estando tantas vezes no sítio certo, que o seu lado gregário distrai da delicadeza do seu jogo.

Vitinha a posar com o troféu da Champions a servir de coroa e a restante equipa a ver: com João Neves ali mesmo ao lado, como sempre
Michael Regan - UEFA

Era impossível ignorar o português que joga com a ponta da língua encostada à bochecha a favor do que estica o dedo indicador da mão direita quando se entretém com a bola, cada um com o seu tique. Vitinha ser o tipo que mais passes e toques na bola deu na final da Champions entende-se por João Neves ter sido quem mais vezes roubou a bola, ganhou duelos (no ar) e sofreu faltas na sua equipa. As valias de um ligam às do outro, os seus trejeitos futebolísticos são umbilicais. Não há o Vítor de Santo Tirso, filho de pai jogador, sem o João de Tavira, cuja primeira experiência no desporto veio do andebol.

Outra ironia: como pôde um rapaz baixote, com os pés atolados em jeito, começar por fazer uso das mãos para se recriar com uma bola?

Faço eu ideia, mistério da vida, desta em que hoje o maior dos organizadores de jogo no futebol é Vitinha, exímio a dar um passe mas sem ser só isso, já não como Andrea Pirlo, Sergi Busquets ou Toni Kroos, últimos da geração onde receber para um lado e fingir com o corpo para o outro era o refogado do seu estilo; vergavam jogos à sua vontade usando os engodos da tanta técnica que tinham. Vitinha também, mas corre, farta-se de correr, o golo que marcou não nesta, na anterior final da Champions, é prova disso.

Ele tem algo de irónico assim como João Neves. Já que muito dado a comparações se assume o futebol, ele é uma espécie de sucessor de N’Golo Kanté. O francês era, ainda vai sendo, um destruidor de jogo omnipresente, incansável a cobrir todo o campo; o português encarna essas qualidades, acrescentando bastantes camadas: não se limita a correr, perseguir, disputar duelos, roubar ou desfazer o jogo dos adversários; também joga bastante no resto, excecional no controlo de bola, tentacular a guardá-la, movido por uma cabecinha pensadora com os neurónios em sintonia com os de Vitinha.

Seria ironia suprema que Roberto Martínez, elogiador em entrevista à Tribuna Expresso da “química natural” entre os jogadores, acendedor da brasa que esquenta a sua sardinha gabarola ao lembrar ocasionalmente ter sido quem os juntou pela primeira vez na mesma equipa, não aproveitasse esta telepatia na seleção nacional. Vitinha pensa a bola, João Neves vai buscá-la. Tenho para mim que separá-los deveria ser pecado futebolístico pelo que se vê quando jogam juntos.

Eu não os vejo nos treinos, mas não dá para ver como não dedicar o jogo de Portugal no Mundial aos dois que fazem mexer o melhor meio-campo do futebol europeu. Pode ser que seja por ter visto a final da Champions em Tavira, terra do menos badalado dos médios, atravessada pelo Rio Gilão que rima com João. Ou por ter olhos na cara.

O que se passou

Zona mista

Não posso ser hipócrita e dizer que não. Se sou a atleta com mais medalhas, tenho de me considerar a melhor atleta portuguesa. Apesar de respeitar muito todos os meus colegas e não me sentir superior. Aquilo que ganhei dentro da pista, na estrada e no cross, ninguém me vai tirar.

Esta foi a resposta de Fernanda Ribeiro à pergunta “sente que é a melhor atleta portuguesa de todos os tempos?” A interrogação, justa como o troco dado, justifica-se com uma olhadela ao seu palmarés: campeã olímpica, mundial e europeia dos 10.000 metros, tendo ainda pratas e bronzes nos 5000. Em entrevista à Tribuna Expresso, a antiga atleta, pouco dada à exposição como contemporâneos, sincerizou-se no desabafo sobre uma carreira que por vezes não é elevada aos mesmos panteões dedicados a outros nomes, injustamente.

O que vem aí

Segunda-feira, 1

🎾 Roland-Garros (a partir das 9h30, Eurosport).
⚽ Jogos de preparação para o Mundial: Noruega-Suécia (18h, Sport TV1), Começam asTurquia-Macedónia do Norte (18h30, Sport TV3) e Áustria-Tunísia (19h45, Sport TV2).

Terça-feira, 2

🎾 Roland-Garros (a partir das 9h30, Eurosport).
⚽ Mais uns quantos jogos: Colômbia-Costa Rica (00h, Sport TV1), Croácia-Bélgica (17h, Sport TV1) e País Gales-Gana (19h45, Sport TV1).

Quarta-feira, 3

🎾 Roland-Garros (a partir das 9h30, Eurosport).
⚽ Dinamarca-Congo (19h, Sport TV1) e Países Baixos-Argélia (19h45, Sport TV3).

Quinta-feira, 4

🏀 Começam as finais da NBA com o primeiro dos jogos entre os New York Knicks e os San Antonio Spurs (1h30, Sport TV).
🎾 Roland-Garros (a partir das 9h30, Eurosport).
⚽ Suécia-Grécia (18h, Sport TV2), Espanha-Iraque (20h, Sport TV2) e França-Costa do Marfim (20h10, Sport TV1).

Sexta-feira, 5

🎾 Roland-Garros (a partir das 9h30, Eurosport).
⚽👩 Liga das Nações feminina: Portugal-Letónia (20h, Canal 11).

Sábado, 6

🏀 Segundo jogo das finais da NBA entre os New York Knicks e os San Antonio Spurs (1h30, Sport TV).
🎾 Final feminina de Roland-Garros (14h, Eurosport).
⚽ Mais jogos para aprontar o Mundial: Bélgica-Tunísia (14h, Sport TV2), Portugal-Chile (19h45, RTP1) e Brasil-Egito (23h, Sport TV1).

Domingo, 7

🎾 Final masculina de Roland-Garros (14h, Eurosport).
🏁 Fórmula 1: Grande Prémio do Mónaco (14h, DAZN).
⚽ Croácia-Eslovénia (19h45, Sport TV1).

Hoje deu-nos para isto

João Fonseca, de 19 anos, está nos quartos de final de Roland-Garros, onde tem insuflado o hype que já existia à sua volta
Tim Clayton

Trezentos e um jogos são uma obesidade de tentativas, traduzidos em anos equivalem a dezasseis, eis o número e o tempo que demorou a aparecer um tenista que fosse capaz de ganhar a Novak Djokovic após o sérvio levar os dois primeiros sets de um encontro. João Fonseca “não acreditava”, ele mesmo o disse, mais crente na lenda do lado de lá da rede do que descrente na sua própria aptidão.

É que ter um ídolo piramidal como adversário e lidar com as truculências mentais que isso provoca já implica um pesado fardo dentro da cabeça. Então descomunal proeza logrou o brasileiro ao ter um jogo de serviço para correr com Djokovic na terceira ronda de Roland-Garros, sabendo Djokovic da auto-estrada teórica que tinha em Paris para alcançar o graal dos 25 Grand Slams depois da eliminação de Jannik Sinner. Portanto, o brasileiro sabia do significado que uma vitória teria e com essa consciência fechou a questão com três ases seguidos.

João Fonseca deu o piparote na derradeira peça do dominó para esta edição de Roland-Garros refrescar um pouco o ténis que há muito pula entre previsibilidades. Antes via Federer, Nadal e Djokovic a arrebatarem tudo, tríade sucedida por Alcaraz e Sinner, vencedores repartidos dos últimos nove Grand Slams; derrubadas as primeira peças pela força de uma anomalia - a lesão no pulso do espanhol e a cedência física do italiano já em Paris -, o feito do brasileiro contra Novak garantiu que na terra batida haverá pela certa um inédito campeão de um major.

O que é ótimo para o ténis masculino, tão sortudo este século por ver surgir os talentos mencionados, de forma quase dinástica, quanto refém se vê dessa singularidade: boquiabertos ficamos com o sublime que são estes jogadores, mas ganharem sempre os mesmos, por mais geniais que sejam, aniquila a surpresa da qual o desporto também se alimenta. Há que maravilhar igualmente com a imprevisibilidade.

O tenista brasileiro a bater uma das suas potentes direitas em Roland-Garros
Clive Brunskill

Entre os homens que restam em Roland-Garros nenhum é perseguido por uma locomotiva frenética de entusiasmo, mais um comboio de alta velocidade à balda de freios, como João Fonseca. Nascido no país do histerismo desportivo, basta assistir a um ponto ganho pelo brasileiro contra Djokovic para se entender que o hype em torno do tenista suplanta largamente, por enquanto, o seu desempenho no campo. Outrora forçado a trincar os dentes e extrair motivação dos públicos que favoreciam mais Roger e Rafa, o sérvio terá relembrado os tempos em que não tinha a maioria do court central de um Grand Slam a torcer por ele.

João Fonseca é um moleque, só tem 19 anos. A desmesurada excitação ajudá-lo-á tanto quanto o pressionará de quando em vez, sem que as coincidências amenizem esse cerco: venceu Djokovic no mesmo dia, com a mesma idade, em que o seu ídolo, um certo suíço que por acaso é acionista da marca que o veste e patrocina, derrubou o alvo do seu culto, Pete Sampras, num dos quatro maiores torneios do ténis.

E no domingo desenvencilhou-se de Casper Ruud, o norueguês com duas finais em Roland-Garros a quem sobrara ser o favorito ainda em prova após a saída dos principais nomes. Cuidado, o brasileiro aprendeu rápido, assim nos disse há pouco mais de um ano quando veio ao Estoril Open.

O Fonsequismo é real, o comboio já berra ‘pouca terra, pouca terra’, u-uuu!

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