Não custa simpatizar com Emmanouíl Karalis. Sorriso fácil de reclame a dentífrico e feições quadradas em cima de musculatura esculpida, tem o físico a juntar ao afável feitio. Ele extasiou-se em Lausanne, na Suíça, ao pular do grosso colchão que lhe amparou a aterragem após superar 6,16 metros de altura da trave: pôs-se de pé no tartã, saltou para esmurrar o ar, depois agachou-se, curvado sobre os punhos fechados e perdido de alegria enquanto era aplaudido pelo público.
Acabava de domar a altura que apenas três homens na história lograram no salto com vara, uma das disciplinas mais técnicas do atletismo, de longe das mais árduas de tão contra-natura. Os 6,16m nem eram novidade para o grego: ficaram a um centímetro da sua melhor marca, os 6,17m a que já se catapultou com uma vara de fibra de vidro ou de carbono, pesada em três quilos, comprida à volta de cinco metros, depois de nela pegar de uma forma longe de ser intuitiva para um leigo e com ela correr o mais rápido possível. Por mais incríveis que foram as façanhas, ambas deixaram o filho de um decatleta, e de uma mãe outrora especialista no salto em comprimento, no mesmo lugar — em segundo.
Dentro da fortuna de ser um dos melhores de sempre no salto com vara calhou a Karalis, alcunhado de ‘Manolo’, também ser desafortunado por coincidir com Armand Duplantis. O sueco a quem os papás, nos Estados Unidos, montaram uma pista no quintal das traseiras para ele de pequenino lhe pegar o gosto é, aos 26 anos, a incontestável estrela polar da modalidade: já bateu 15 vezes o recorde do mundo, 14 das quais depois de o próprio o fixar, é bicampeão olímpico, hexacampeão mundial e tetracampeão europeu, puxando a bitola da modalidade (para já) até aos 6,31 metros. Nos últimos três anos apenas perdeu uma das 42 competições onde entrou.
Na sexta-feira, com o Lago Genebra no enquadramento, Karalis sorriu e saltou e celebrou ao acrescentar 10 centímetros à anterior melhor marca que não chegou para ganhar o ouro na prova da Liga Diamante, o equivalente à Champions do atletismo — foi a primeira vez na história que dois homens saltaram, pelo menos, 6,10 metros na mesma prova.
Terminou atrás de Duplantis, igual ao que aconteceu no domingo, noutra prova da mesma espécie na Silésia, Polónia, onde também abraçou o sueco e com ele cavacou ao ficar aquém dos suas rebeldias contra a gravidade, incapaz aí de ir além dos 6 metros enquanto viu o sueco tentar superar, sem o conseguir, uns inauditos 6,32 metros. Tratou-se da repetição de uma película estreada em 2020, quando o atleta se estreou a desfeitear o recorde e desde então que o vai quebrando um centímetro de cada vez.
Espero que não, e creio que não, mas não terá havido na Grécia quem tenha escrito que Karalis “falhou” o ouro por não sei quantos centímetros, sendo o grego o antónimo em pessoa do que possa constituir falhar. Ele não alcançou os 6,15m, os 6,21m e os 6,20m, alturas com que um imbatível Duplantis venceu este mês os Europeus de atletismo e depois, assim de chofre, duas etapas seguidas da Liga Diamante. O grego ficou três vezes no segundo lugar em coisa de 10 dias.
Com a mesma idade, crescidos a competir juntos, é sequer possível Karalis ser identificado como o tipo que falha e guardar Duplantis como o bem-sucedido?
Infelizmente é. Vemo-lo em cadência frequente, ainda a semana passada dois tenistas portugueses perderam nos ‘oitavos’ de um Masters de ténis pela primeira vez e ambos “falharam”, como se leu; há uma quinzena houve atletas e nadadores nacionais a não se apurarem para a final, ou a ‘meia’, dos respetivos Europeus e lá surgiu o carimbo do “falhou” por centímetros ou centésimos de segundo. Parecemos viciados em arranjar ‘falhistas’ no desporto onde ínfimos são os que tentam e chegam a profissionais, ainda mais aqueles que agarram medalhas - só há três - em provas internacionais.
E eles sentem-no. Jamais me esquecerei como, há uns anos, o treinador de um atleta olímpico português se queixou ao meu ouvido de que tal tratamento simplório era do mais injusto que há. Porque a piorar essa psique estamos nós, os jornalistas, sempre com pressa ou com alguém a apressar-nos para sermos rápidos, tão urgidos pela rapidez que não sobra tempo para ter presente que um atleta “falhar” o acesso a qualquer coisa é um exercício preguiçoso. Ao serem descritas com esse verbo as margens por vezes microscópicas — por alguma razão existe o photo-finish —, apresenta-se a quem talvez liga patavina à modalidade em questão, e ouve falar dela pela primeira vez em anos, a ideia de insucesso, de ser alguém que ficou aquém.
Atribuir o incumprimento a pessoas que acordam todos os dias para se esfolarem a treinar, a quem anos de dedicação monástica nas sombras muitas vezes se resumem aos poucos minutos em que surgem na televisão a competir num país futebolcêntrico, no caso de Portugal, cujos hábitos de consumo polinizam o trato que se dá a outras formas de desporto: parece que a única forma de sucesso que se aceita é ganhar a toda a gente e ser campeão.
‘Manolo’ Karalis é o segundo melhor saltador com vara da história da humanidade e parte da sua carreira resume-se a ser isso, o segundo, o tipo que vem a seguir a quem ganha. Porque lhe calhou ser contemporâneo de ‘Mondo’ Duplantis, um daqueles atletas que provam como existe vida além da Terra. Não é por ficar atrás dele que o grego não tem sucesso.
O que se passou
Zona mista
Acho que estou bem encaminhado.
A assertiva frase é de Rúben Prey edisse-a durante um treino da seleção nacional de basquetebol. Jogador da Universidade de St’ John’s, de Nova Iorque, nos Estados Unidos, o rapaz de 21 anos tem vindo a ser badalado como o próximo português que pode entrar na NBA seguindo o exemplo de Neemias Queta, até hoje único a irromper na melhor liga do planeta - foi a primeira vez que treinaram juntos. O Francisco Martins ouviu várias vozes que lhe augura um futuro radiante.
O que vem aí
Segunda-feira, 24
🚴 Terceira etapa da Volta a Espanha (a partir das 13h45, Eurosport 1), onde João Almeida pedala pela UAE Emirates.
⚽ No Olímpico de Roma, a nova equipa de Rodrigo Mora recebe a Fiorentina na ronda inaugural da Serie A (19h45, Sport TV2).
⚽ A 3ª jornada da I Liga termina com o Gil Vicente-Casa Pia (20h15, Sport TV1).
Terça-feira, 25
🚴 Vuelta: quarta etapa (a partir das 13h30, Eurosport 1).
🎾 Arranca o US Open (a partir das 17h, Eurosport 1), mas, por enquanto, só no qualifying e no quadro de pares.
⚽ Liga dos Campeões: 2ª mão do play-off entre o Lask Linz e o Celtic e entre o Bodø/Glimt e o NEC Nijmegen (às 20h, canais Sport TV).
Quarta-feira, 26
🚴 Vuelta: quinta etapa (a partir das 13h45, Eurosport 1).
🎾 US Open (a partir das 17h, Eurosport 1).
⚽ O Lyon de Paulo Fonseca recebe o Fenerbahçe de Nélson Semedo na 2ª mão do play-off de acesso à Champions (20h, Sport TV5). À mesma hora, o Real Madrid de José Mourinho e Bernardo Silva defronta a Real Sociedad na La Liga (DAZN).
Quinta-feira, 27
🚴 Vuelta: sexta etapa (a partir das 13h45, Eurosport 1).
⚽ O Benfica visita o Aarhus, na Dinamarca, para a 2ª mão do play-off de acesso à Liga Europa (19h, Sport TV5), e o SC Braga vai a casa do Áustria de Viena (19h30, Sport TV1) para a mesma causa.
Sexta-feira, 28
🚴 Vuelta: sétima etapa (a partir das 12h30, Eurosport 1).
🏀 A seleção nacional de basquetebol vai a Espanha (17h) para um jogo de qualificação rumo ao próximo Mundial.
⚽ Começa a 4ª jornada da I Liga com a vida do Sporting a Vila do Conde para jogar frente ao Rio Ave (20h15, Sport TV1). Lá fora, o AC Milan de Ruben Amorim, Gonçalo Ramos e Rafael Leão é anfitrião do Venezia (19h45, Sport TV2) na Serie A.
Sábado, 29
🚴 Vuelta: oitava etapa (a partir das 12h30, Eurosport 1).
⚽ Mais I Liga: Arouca-Marítimo (15h30, Sport TV3), Alverca-Santa Clara (15h30, Sport TV2), Académico-FC Porto (18h, Sport TV1),
Domingo, 30
🚴 Vuelta: nona etapa (a partir das 12h30, Eurosport 1).
🎾 Arranca o quadro principal de singulares do US Open (a partir das 17h, Eurosport 1), onde estão Nuno Borges e Jaime Faria.
⚽ Prossegue a I Liga: Nacional-Estrela da Amadora (15h30, Sport TV1), Casa Pia-Moreirense (18h, Sport TV2) e Famalicão-Gil Vicente (20h15, Sport TV1).
Hoje deu-nos para isto
Uma pessoa sente saudades, e depois? Há quase quatro anos, em Londres, um homem deu a mão a outro, Roger segurou a de Rafa e ambos num pranto de choro se agarraram com a tristeza do fim da carreira de um levar com ele parte da que ainda continuaria do outro. Bonito e triste ao mesmo tempo, melancólico ainda que simbólico, era a despedida de Federer. Alguma coisa me deve ter entrado para o olho lá na bancada, a mim e a uns milhares: ia-se embora o tenista-esteta, pináculo da beleza de um atleta a mover-se na sua prática, que 20 anos atrás motivou uma das melhores vénias literárias a um desportista.
Fruto de esforços partilhados entre o “The New York Times” e a ATP, o escritor David Foster Wallace, um súbdito do ténis, foi posto em Wimbledon para perfilar Roger Federar, então em plena melhor época da sua vida, no torneio onde eram exaltadas as suas melhoras qualidades. Praticante em jovem, dizem que com bastante jeito, Wallace adicionou à sua prosa o conhecimento de causa e o olhar escatológico de quem sabia o quão grotescamente difícil era fazer certas coisas deixadas pelo suíço em campo com a facilidade que exibia. Há quem tenha esta última frase como a definição mais certeira do que é o talento. No seu texto, amiúde Wallace embrulhou a aptidão de Roger como “finesse”; .
Ler essa escritura quase uns exatos 20 anos depois serve para revisitar se não o talento maior que já brotou no ténis, pelo menos o ostentador de mais qualidades inatas, cheio de arestas acomodadas a cada ditame da modalidade. David Foster Wallace pintou uma gravura de um homem entremeada com a descrição de Wimbledon, dos trejeitos do torneio, da fauna que atraía, fazendo esponja dos seus sentidos enquanto presenciava o desportista mais popular no mundo à época.
O ensaio, titulado “Federer como uma experiência religiosa”, estampado foi na capa da Play, uma revista que o “The New York Times” dedicava ao desporto, na edição que saiu por ocasião do US Open de 2006. Esse Grand Slam seria ganho sabem vocês por quem, imparável na temporada em que venceu 92 jogos e perdeu somente cinco (94,8%), arrebatando 12 torneios em 16 finais de 17 possíveis. Quatro das derrotas que sofreu foram da responsabilidade de Rafael Nadal, o seu antípoda no estilo, antagónico adversário com quem nos anos seguintes partilhou uma das rivalidades icónicas do desporto.
O suíço ganhou ao espanhol nesse US Open e consentâneo portanto é que esta semana, duas décadas passadas, seja em Nova Iorque que Roger Federer entre oficialmente na Hall of Fame do ténis. Na terça-feira, no estádio de Flushing Meadows, a maior arena de ténis do mundo que só podia ter sido erigida em Nova Iorque, o suíço estará num jogo de exibição para nos saciar a saudade e suscitar melancolia: como Federer não há, provável que jamais haja, tal subtileza e destreza num tenista, com explicações devidas à metafísica como David Foster Wallace se alongou a justificar.
O seu exercício acaba assim: “Whether anything like a nascent Federer was here among these juniors can’t be known, of course. Genius is not replicable. Inspiration, though, is contagious, and multiform — and even just to see, close up, power and aggression made vulnerable to beauty is to feel inspired and (in a fleeting, mortal way) reconciled.” Que haja contágio na terça-feira, em Nova Iorque.
Que tenha uma boa semana, esta mais friorenta apesar de veraneante, e obrigado por nos ler aí desse lado e no site da Tribuna Expresso, onde poderá seguir a atualidade desportiva e as nossas entrevistas, perfis e análises. Siga-nos também no Facebook ,Instagram e no X. Se quiser, escute também o nosso podcast “No Princípio Era a Bola”, no qual tentamos descomplicar o futebol.
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