Tribuna 12:45

O favorecimento da classe alta do futebol português

Adepta protesta contra a mudança de local do Caldas SC-SC Braga
Caldas SC

Há um paradoxo que me atinge sempre que vou ver jogos das divisões inferiores. Andando o clube da minha cidade pelo subsolo do futebol português, é uma atividade que acontece com regularidade. Geralmente, a experiência começa com uma revista desconfortavelmente severa e desproporcional ao contexto. Quando o responsável por fiscalizar a entrada me permite que abandone a posição de Homem Vitruviano à qual me sujeito enquanto me apalpa, estou pronto para que me sirvam um jogo da Liga dos Campeões, daqueles onde é possível defender que a segurança seja assim tão apertada.

Ao invés do esperado, decorre um jogo com bolas desbotadas a um ponto que, se o patrocinador estivesse atento àquilo onde anda a investir o seu dinheiro, ficaria constrangido. Pelo menos, eram redondas. Um dos golos mandou a casa, literalmente, abaixo. A bancada revelou-se impreparada para essa coisa rara hoje em dia: encher-se de pessoas. O muro que separava a bancada do relvado não estava pronto para tal entusiasmo e cedeu, causando alguns feridos. A partida atrasou-se um pouco, mas não se estendeu até ao horário de descanso do sol. Seria um problema, pois iluminação nem vê-la.

A bancada em causa é aquela que suporta o painel publicitário que todos os dias espia os milhares de pessoas que passam na Ponte 25 de Abril. Fica assim revelado que o estádio em causa é a Tapadinha, local que não serviu para acolher o Atlético-Benfica da Taça de Portugal, mas serviu para receber o Atlético-Académica da Liga 3.

O organizador de ambas as competições é a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) que tem andado seletivamente picuinhas. Há muito mais ADN futebolístico no Estádio da Tapadinha do que no Benfica District. As condições precárias têm o seu romantismo (exceto quando o bem-estar dos adeptos é colocado em causa) e zelam pela sobrevivência do espírito popular. Porém, a FPF tem-se interessado por impedir que essas realidades se toquem.

O exemplo maior aconteceu na receção do Caldas SC ao SC Braga. Um dia antes, a FPF considerou que o relvado do Campo da Mata estava “impraticável” e o jogo dos oitavos de final da Taça de Portugal realizou-se em Torres Vedras. Esta época, para a Liga 3, SC Covilhã, 1º Dezembro, CD Mafra, Lusitano de Évora, Amora FC, Atlético CP e União Santarém já passaram pelo Campo da Mata. Escusado será dizer que nenhum destes jogos mereceu tão detalhada avaliação ao estádio, ou seja, os padrões que a FPF considera aceitáveis para uma das suas competições não é os que considera aceitáveis para outras. Não terão estes clubes razões para duvidar da imparcialidade da FPF?

Na semana passada, foi anunciado que as equipas da I Liga apenas começarão a competir na 4ª eliminatória da Taça de Portugal. A FPF continua a demonstrar que não quer que a elite ponha os pés na lama e coloca a Taça de Portugal num rumo que a aproxima da Taça da Liga, competição moldada para favorecer quatro clubes. Chamar competição a este match fixing estrutural começa a parecer um exagero. Não prestemos atenção e, em breve, a final da Taça não vai para fora do Jamor, mas para fora de Portugal.

A prova rainha deve ser vista como um torneio em si só e não deve depender do que os clubes façam nos respetivos campeonatos. A Taça de Portugal leva à Lua quem está na Terra e traz à Terra quem anda com a cabeça na Lua. O desaparecimento desta horizontalidade extingue a Taça de Portugal tal como a conhecemos.

A FPF parece estar a tomar um caminho de reforço de laços com o futebol profissional, ignorando que o resto da pirâmide também precisa de bons relvados, iluminação e estádios dignos, assuntos que só importam quando há muitos olhares atentos. Entretanto, as classes mais baixas estejam a ser guetizadas.

O que se passou

O que vem aí

Segunda-feira, 5
⚽ II Liga: Vizela-Torreense

Terça-feira, 6
🏀 NBA: Boston Celtics-Chigaco Bulls (00h30, Sport TV2)
⚽ Taça da Liga: Sporting-Vitória SC (20h, Sport TV1)
🏐 Liga dos Campeões de voleibol masculino: Sporting-Warta Zawiercie (19h30, Sporting TV)

Quarta-feira, 7
⚽ Taça da Liga: Benfica-SC Braga (20h, Sport TV1)
⚽ Supertaça espanhola: Barcelona-Athletic (19h, Sport TV3)
⚽ Premier League: Manchester City-Brighton (19h30, DAZN2); Fulham-Chelsea (19h30, DAZN3); Burnley-Manchester United (20h15, DAZN1)

Quinta-feira, 8
🏀 NBA: Boston Celtics-Denver Nuggets (00h, Sport TV1)
🏑 Liga dos Campeões de hóquei em patins: Sporting-Benfica (16h, Sporting TV); Trissino-FC Porto (19h45, Porto Canal)
⚽ Supertaça francesa: PSG-Marselha (18h, Sport TV2)
⚽ Supertaça espanhola: Atlético Madrid-Real Madrid (19h, Sport TV1)
⚽ Premier League: Arsenal-Liverpool (20h, DAZN1)
🏐 Liga dos Campeões de voleibol feminino: Benfica-AGIL Volley (20h, BTV)

Sexta-feira, 9
⚽ Bundesliga: Eintracht Frankfurt-Borussia Dortmund (19h30, DAZN1)

Sábado, 10
🏀 NBA: Boston Celtics-Toronto Raptors (00h, Sport TV1)
🏐 Voleibol masculino: Sporting-Benfica (17h, Sporting TV)
⚽ Final da Taça da Liga (20h, Sport TV1)

Domingo, 11
🏀 NBA: Boston Celtics-San Antonio Spurs (1h, Sport TV1)
⚽ Bundesliga: Bayern Munique-Wolfsburg (16h39, DAZN1)

Zona mista

“Não queremos transformar o Benfica num clube de betão.”

Um dos grandes trunfos eleitorais de Rui Costa foi aprovado pelos sócios do Benfica e vai mesmo arrancar. 59,24% dos votantes mostraram-se a favor do Benfica District. O presidente do clube da Luz defende que o foco “é a parte desportiva”, mas que é preciso “criar condições para uma melhoria financeira significativa”.

Hoje deu-nos para isto

Ash Donelon

Na notícia da saída de Enzo Maresca do Chelsea, foi possível antecipar a de Ruben Amorim. Os resultados dos londrinos não estavam a ser propriamente escandalosos e o italiano até tinha créditos pela conquista da Liga Conferência e do Mundial de Clubes. Ninguém percebeu ao certo o que quis dizer quando, após vencer o Everton, desabafou que tinha passado pela “piores 48h da carreira”.

A mensagem enigmática ganhou sentido assim que, na sequência de três jogos sem ganhar, o italiano abandonou o cargo. Os motivos começaram a surgir escarrapachados na imprensa. As conversas mantidas com o Manchester City terão azedado a relação com o Chelsea, mas a falta de liberdade para tomar decisões também desagradou Maresca. Após cada jogo, com o objetivo de evitar lesões, o departamento médico fazia recomendações quanto à utilização de jogadores no compromisso seguinte. Dando primazia às escolhas táticas, o treinador começou a ignorar as sugestões.

Vivemos numa era em que a cara da equipa técnica continua a ser o treinador, mas há cada vez mais razões para duvidar que o elemento mais exposto seja o mais importante. Ruben Amorim não quis ser um mero subordinado e causou um terramoto no Manchester United, deixando subentendido o esvaziamento de poder dentro do clube. Reforçar que rumou ao Manchester United “para ser o manager, não apenas o treinador" e que “todos os departamentos têm de fazer o seu trabalho” mostrou maior lealdade às capacidades de gestor do que aos superiores hierárquicos, o que lhe pode ter saído caro.

Sempre pareceu que Ruben Amorim ia ter tempo infinito para tornar o Manchester United numa equipa vencedora. No entanto, começou-se a duvidar do método do treinador quando os resultados demoraram a surgir, numa falta de noção clara de que reerguer os red devils pode tratar-se de um trabalho de vários anos. Falta de liderança apenas arrastará o processo que o português, apesar de tudo, conseguiu iniciar.

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