Tribuna 12:45

Será que Rui Costa sabe que as épocas não começam em setembro?

Será que Rui Costa sabe que as épocas não começam em setembro?

Pedro Barata

Jornalista

Rui Costa, com Mário Branco atrás de si, é um presidente em contrarrelógio
NurPhoto

É fácil perdermos a perspetiva global dos acontecimentos, envoltos que estamos no quotidiano que nos consome. Mas, por vezes, devemos parar e refletir em certas coisas, certos números.

Por exemplo: desde que Rui Vitória saiu do Benfica, na já distante 2018/19, só por uma vez um treinador cumpriu duas épocas completas no banco do clube. Note-se que Bruno Lage, o sucessor de Vitória, fez parte de 2018/19 e saiu no final de 2019/20; seguiu-se Jorge Jesus, técnico em 2020/21 e despedido a meio da campanha seguinte.

Chegamos a Roger Schmidt, o tal oásis de relativa estabilidade, treinador em 2022/23 e 2023/24 e, a bem do planeamento, despedido à quarta jornada do campeonato seguinte, meses depois de um voto de confiança do presidente. Foi, então, resgatado Bruno Lage, contratado em setembro e despedido no setembro seguinte, pontual como o regresso às aulas (já dos exames nacionais não se pode dizer o mesmo), fora do cargo meses depois de um voto de confiança do presidente.

Saiu Lage, entrou José Mourinho, técnico das águias entre setembro de 2025 e até Florentino Pérez ter decidido que queria o special one para o Real Madrid. Oficialmente, Mourinho assinou pelos blancos a 11 de junho, certamente sem nunca ter pensado no cargo nem na hipótese durante 2025/26, particularmente naquela parte final em que conseguiu a proeza de, perante o colapso físico e mental do Sporting, perder quatro pontos de seguida e deixar o segundo lugar escapar.

Principiou, então, a era Marco Silva. Criticavam Rui Costa por despedir treinadores muito cedo nas temporadas? Pois bem, agora o líder do clube — reeleito com forte apoio no passado outono, em histórica ida às urnas com afluência massiva — contratou um treinador muito tarde.

Pelo terceiro ano seguido, o Benfica tem as coisas preparadas de forma caótica. Ora monta plantéis para quem sai após as primeiras rondas do campeonato, ora deixa-se enredar numa novela espanhola, perde semanas de trabalho e vê-se com um recém-chegado técnico a lidar com um plantel brutalmente incompleto em plena competição, uma equipa em pré-época durante a época.

O Benfica ganhou o hábito de se atrasar no planeamento e na ação. Dá vontade de perguntar: será que Rui Costa sabe que as temporadas não começam em setembro?

Marco Silva tem sido a face da desconfiança
Gualter Fatia

A derrota perante o St. Gallen traduziu uma péssima exibição. Há mais do que margem para dar a volta na Luz, a diferença individual é grande, os suíços não terão o embalo emocional do seu público. Mas o que o 2-1 helvético evidenciou é um Benfica que entra em 2026/27 viciado no para já.

António Silva deve sair, mas para já joga e é capitão. Não há centrais, então lá vai o quase-vendido-mas-para já-não para campo. Tiago Gouveia saiu, mas para já joga. Jakub Kamiński esforça-se para provar que não deveria ter sido contratado, mas para já é titular porque não há muito mais extremos.

Claro que vão chegar reforços. Claro que os futebolistas que estiveram no Mundial vão aumentar a qualidade do plantel. Mas analisar a cara de Marco Silva deveria preocupar qualquer benfiquista. É uma face cuja expressão se vai alterando, como uma exposição de emojis: ora visivelmente chateado, ora incrédulo, ora protestando com os seus futebolistas, ora olhando para o chão com olhar vazio.

Marco Silva começou a criticar a estrutura no primeiro amigável que disputou. Criticou a equipa no primeiro jogo oficial que realizou. É incrível o que seis semanas podem fazer a um homem: o ar fresco e ambicioso, com cheiro a aura de Premier League, da apresentação já foi trocado por uma espécie de fatalismo na postura e no verbo.

É importante não haver erros de interpretação: isto não é uma certidão de óbito à época do Benfica. Há gente altamente talentosa — Tomás Araújo, Aursnes, Rafa, Pavlidis, Schjelderup —, há dinheiro para contratar, há um treinador muito competente. Há um campeonato muitíssimo desequilibrado, onde os grandes se arriscam sempre a fazer muitos pontos e a, nos momentos decisivos da temporada, fazerem click e embalarem para o título.

Mas Rui Costa, uma vez mais, brinca com o fogo. E ignora o passado, incluindo o seu próprio.

Últimos campeões nacionais: FC Porto de Sérgio Conceição, um coletivo de identidade clara, de anos de trabalho em continuidade, um clube à boleia da marca de um treinador; Sporting de Ruben Amorim, uma equipa de autor, plena de marcas reconhecíveis, anos e anos juntos; Sporting de Rui Borges, que foi o prolongamento emocional e tático do Amorismo; FC Porto de Farioli, princípios claros, uma forma de fazer as coisas definida com tempo, com aquisições à medida das intenções.

Quem falta aqui? Benfica de Roger Schmidt, curiosamente o primeiro treinador contratado por Rui Costa enquanto presidente. Convicções claras, jogadores contratados para o modelo do alemão.

Schmidt chegou há mais de quatro anos. Desde então, não mais um treinador aterrou sem asterisco, sem um contexto complicado, sem um aroma a ano zero associado. Sempre em modo para já. É arriscado. As temporadas não começam em setembro.

O que se passou

O Benfica entrou na época com uma derrota na Suíça. Na Liga Conferência, o SC Braga foi ganhar fora ao Zeleznicar Pancevo, da Sérvia.

O Tour é, novamente, de Tadej Pogačar. Antes da consagração em Paris, palco da epopeia de Van der Poel, o esloveno brilhou no Alpe d'Huez, mítica montanha gaulesa cuja história o Miguel Branco nos conta. Tadej ainda deu uma ajuda a Isaac del Toro, que terminou no pódio, com Carapaz, dono de duas etapas e da montanha, a provar ser um craque das bicicletas. E houve recorde para Nelson Oliveira.

Espanha é campeã do mundo às cavalitas de um processo, de um método. O Francisco Martins falou com Manu Fernández, diretor das seleções jovens do país.

Van Assche é o campeão do Estoril Open.

A Alemanha tem novo selecionador. É Jürgen Klopp, que chegou pleno de energia e vontade de falar.

Os melhores tenistas do mundo querem uma parte das receitas dos torneios do Grand Slam. E ponderam avançar para um boicote no US Open.

LeBron James assiniu pelos Philadelphia 76ers. O que esperar? O Francisco Martins explica.

No enorme mundo dos amigáveis, o FC Porto superou o Aston Villa e o Sporting bateu o Mónaco.

Zona mista

Cresci a ver este torneio, poder jogá-lo é um sonho tornado realidade e estar nos quartos de final, na minha primeira edição... Só jogar já é, por si só, uma coisa brutal e estar nos quartos de final, nos oito melhores jogadores do torneio, é qualquer coisa de inesquecível e impressionante. Estou a delirar, basicamente

Tiago Torres, a disputar o quadro principal de um torneio ATP pela primeira vez na carreira, foi o grande conto de fadas do Estoril Open. Brilhou ao chegar aos quartos de final, com triunfo frente a Alejandro Tabillo, 30.º do ranking ATP, incluído, ele que, aos 24 anos, é 427.º da hierarquia mundial.

O que aí vem

Segunda-feira, 27 de julho
🎾Ao longo da semana, ATP 500 de Washington (16h00, Sport TV3)
🎱🥢Começa o Masters de Xangai (7h00, Eurosport 1)
👟 Nos Jogos da Commonwealth, acompanhe o atletismo (19h00, Eurosport 1)
🤺 Os Mundiais de esgrima decorrem em Hong Kong até dia 30 (11h00, Eurosport 2)

Terça-feira, 28
🎾Prossegue o ATP 500 de Washington (16h00, Sport TV3). Também o ATP 250 de Los Cabos (2h00, Sport TV2)
⚽ O Famalicão vai a Itália jogar a Como Cup, torneio de pré-época em formato acelerado. Defronta o Crystal Palace às 19h30 (Sport TV1) e o Lens logo às 21h00 (Sport TV1), dois jogos de apenas 45 minutos cada
🎱🥢Mais Masters de Xangai (7h00, Eurosport 1)
🤺 Prosseguem os Mundiais de esgrima (10h00, Eurosport 2)

Quarta-feira, 29
⚽Futebol do lado de lá do Atântico: o Santos de Neymar contra o Universidad Central, da Venezuela, para a Sul-Americana (1h30, Sport TV1) e, na liga da Argentina, Rosario Central-Racing (1h15, Sport TV2)
🎾ATP 500 de Washington (18h00, Sport TV3)
🎱🥢Masters de Xangai (7h00, Eurosport 1)
🚴Começa a Volta à Dinamarca (15h00, Eurosport 1)
👟 Atletismo nos Jogos da Commonwealth (19h00, Eurosport 1)
🤺 Quinto e penúltimo dia dos Mundiais de esgrima (10h00, Eurosport 2)

Quinta-feira, 30
⚽O Benfica sem margem de erro na Liga Europa: Benfica-St. Gallen (20h00, SIC)
⚽O SC Braga a tentar carimbar a passagem na Liga Conferência: Zeleznicar Pancevo-SC Braga (20h00, Sport TV2)
🎾ATP 500 de Washington (01h00, Sport TV3 e depois 16h00, Sport TV2) e Los Cabos (02h00, Sport TV2)
🎱🥢Masters de Xangai (7h00, Eurosport 1)
🚴Volta à Dinamarca (15h00, Eurosport 1)
🤺 Terminam os Mundiais de esgrima (08h15, Eurosport 2)
⛐ Começa o rali da Finlândia (18h00, Sport TV4)

Sexta-feira, 31
🎾ATP 500 de Washington (19h00, Sport TV3)
⚽Os campeonatos vão iniciando. A Escócia tem pontapé de saída com um Dundee United-Rangers (20h00, Sport TV2)
🎱🥢Masters de Xangai (7h00, Eurosport 1)
🚴Volta à Dinamarca (14h45, Eurosport 1)
⛐ Rali da Finlândia (A partir das 6h30 e ao longo do dia, Sport TV4)
🏊 Começam, em Paris, os Europeus de natação (17h00, RTP2)

Sábado, 1 de agosto
⚽O primeiro troféu da temporada é a Supertaça: FC Porto-Torreense (20h15, RTP1)
🚴Arranca o Tour feminino (14h45, Eurosport 1). A primeira etapa parte e chega a Lausanne, na Suíça
🎱🥢Masters de Xangai (7h00, Eurosport 1 e 13h00, Eurosport 2)
🎾ATP 500 de Washington (01h00, Sport TV3 e 23h30, Sport TV3) e as meias-finais de Los Cabos (03h30, Sport TV2)
⚽Aberdeen-Hearts (17h30, Sport TV6)
⛐ Rali da Finlândia (6h00, Sport TV4)
🏊 Europeus de natação (15h00, RTP2)

Domingo, 2
🚴 Segunda etapa do Tour feminino, entre Aigle e Genebra (14h45, Eurosport 1)
🎱🥢Masters de Xangai (7h00, Eurosport 1)
🎾A final de Los Cabos (04h00, Sport TV2) e a final de Washington (22h00, Sport TV3)
⚽Dois dos clubes de Maradona em confronto: Newells'-Boca Juniors (21h00, Sport TV2)
⛐ O Rali da Finlândia termina (8h00, Sport TV4)
🏊 Europeus de natação (15h00, RTP2)

Hoje deu-nos para isto

Ele quer, ele pode, ele faz, ele decide. Ele decide não só por ele, mas também pelos outros. Quem ganha, quem não ganha, quem fica em primeiro — ele, claro —, mas também quem termina em terceiro. Quem fica com a camisola branca, sua segunda pele durante tantos verões.

É Tadej Pogačar, claro. Já não é só o rei-sol do ciclismo, estatuto que leva algum tempo carregando. É, mais do que nunca, o ditador, um ditador simpático e sorridente, carismático e de face leve, mas um ditador.

O Tour 2026 teve um encaixe mediático complexo. Partilhar os primeiros dias com o Mundial nunca ajudou. Ter um vencedor definido à partida também não. No fim de tudo, em Paris, o guião do passado recente repetiu-se: Tadej vencedor. São já cinco vitórias, igualando o máximo que outras quatro lendas (Miguel Induráin, Jacques Anquetil, Bernard Hinault e Eddy Merckx) lograram. Apostar que terminará a carreira como solitário dono do estatuto de rei do Tour nem é bem apostar, é constatar a óbvia passagem do tempo, como dizer que para a semana entramos em agosto.

O rei-sol do ciclismo, novamente o senhor amarelo do Tour
Dario Belingheri

Há 12 meses, na sequência da quarta vitória, o esloveno parecia mais cansado. A roçar o farto, o esgotamento competitivo. Agora a expressão é diferente, a fome revigorada.

Caso vá à Vuelta, e cumprindo a vitória que soa a formalidade, ficará ainda mais perto da sala de troféus perfeita. As três grandes voltas, quatro dos cinco monumentos, campeão do mundo. Ficaria, basicamente, a faltar o Adamastor de Roubaix.

Pogačar parece um palco que Pogačar levanta. Ele brilha lá e, agora, decide quem entra, como uma luta pela sucessão em que Tadej decidiu que Del Toro seria o seu eleito. Em julho de 2026, a sensação que fica é que assim será até que o rei-sol se aborreça.


Sem Mundial, sem Tour, sem Wimbledon, o desporto de elite segue em dias algo menos agitados. Se estiver de férias, descanse, se não estiver de férias, nós também não estamos, em qualquer um dos casos continue a ler-nos no site da Tribuna Expresso, onde poderá seguir a atualidade desportiva e as nossas entrevistas, perfis e análises. Siga-nos também no Facebook e Instagram.

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