Tribuna 12:45

O futebol não precisa de Gianni Infantino porque o futebol não precisa de um Gianni Infantino

O futebol não precisa de Gianni Infantino porque o futebol não precisa de um Gianni Infantino

Pedro Barata

Jornalista

Infantino, rei da FIFA, auto-proclamado imperador do futebol, debaixo de fogo durante uma semana
Alexander Hassenstein - FIFA

Gianni Infantino perdeu quando Gianni Infantino deixou de ser Gianni Infantino.

Ao longo de anos e anos, durante décadas, este foi um homem que subiu na vida à custa de ser um dos mais dignos representantes da classe de dirigentes desportivos de colarinho branco da Suíça, todo ele controlo, pensamento, o domínio de diversos idiomas usado como um superpoder. Gianni, escalando na UEFA e na FIFA, foi um calculista, nunca um passo maior do que a perna, tudo medido e ponderado em minuciosa precisão.

Até que algo mudou. Gianni não foi Gianni. Começou a acenar com planos muito ambiciosos muito rapidamente. Saíram importantes trabalhadores da FIFA — esta é também uma história de falhas de gestão, de reduzir equipas em nome de uma alegada eficiência e ir minguando o conhecimento e centralizando procedimentos — e Infantino ficou cada vez mais com o palco para si, um homem no trono, gradualmente o adeus à política do pouco a pouco, do progresso em passinhos pequenos.

Infantino foi ficando todo-poderoso, Luís XIV do futebol. “L'État, c'est moi”, o Estado sou eu, a FIFA sou eu, a FIFA é o futebol, o futebol sou eu.

Juntou-se com os mais poderosos do planeta. Tornou-se um chefe de Estado, um dos senhores que acredita que o mundo se move quando ele move os fios que o seguram. A Sala Oval. A companhia de gente com muito dinheiro. Uma existência de rei de um Estado de cofres recheados, talvez daqueles do Médio Oriente com quem Infantino tão bem se dá.

Conta o britânico “Observer”, num excelente relato sobre a vida e obra de Infantino, que, quando o presidente da FIFA esteve na cimeira de Sharm El-Sheikh, diplomatas experientes do Reino Unido mostraram-se visivelmente espantados por haver, entre tantos primeiros-ministros e reis e presidentes, um mero dirigente de uma federação desportiva internacional, ali a fazer do que não é. Era Gianni feito estadista, imperador do futebol, Papa da bola.

Chegou o deslumbramento. Infantino não foi Infantino quando, privando com Trump e o dinheiro dos Estados Unidos e prescindindo de know-how da FIFA e fazendo tudo sozinho, “l''état, c'est moi”, quis lançar em modo sprint um plano arrojado. Possivelmente, como escreveu o “Times”, ficou embasbacado pelo salário do comissário da NFL, muitas vezes superior ao presidente da FIFA, e tenha pensado que o seu agora ex-futuro papel como comissário da agora ex-nova subsidiária da FIFA o levasse para esse patamar financeiro.

O futebol une o mundo em oposição a certas ideias. Será mesmo assim?
Robert Hradil

A notícia do “Times” trocou-lhe as voltas. Perdeu o controlo da narrativa, não lhe foi possível embrulhar a proposta em suave envelope, dar-lhe tons mais amigáveis e parecendo menos o que era: alinear parte de um produto cultural que é altamente lucrativo a investidores privados que poderão não o cuidar devidamente. Era mau porque este é um produto cultural e não um ativo financeiro, porque o Mundial é uma máquina de fazer dinheiro e não necessita ajudas nesse campo, porque as apresentações que foram vindo a público desprezavam o futebol feminino.

É importante, aqui, sublinhar o papel decisivo do jornalismo, e sobretudo de Martyn Ziegler, o homem que inicialmente trouxe a história a público.

É, também, fundamental realçar que boa parte da crítica não se deveu propriamente a princípios ou a uma grande noção de ética. Foi, sobretudo, uma questão de poder, de influência. De controlo, e do controlo da narrativa que Gianni perdeu. Presidentes de federações, líderes de confederações, membros dos órgãos mais importantes da FIFA, todos foram postos de parte por Infantino, que embarcou nisto rodeado dos seus amigos mais poderosos. E os chefes do futebol não o perdoaram, sentiram-se postos de lado, não informados ou consultados.

E agora?

Bem, há quem argumente que o sucessor de Blatter — está a valer ter saudades de Blatter? — está ferido de morte. Que a UEFA procure derrubá-lo, tentando encontrar um candidato para as eleições de março, não surpreende, mas mais significativo é o fraquejar de apoio vindo de Ásia ou das Américas. Por outro lado, há os que sustentam que Infantino mantém uma base considerável, que o Mundial 2026 deu camiões de dinheiro que serão distribuídos, que Gianni treme, mas não cai.

Não obstante a relevância do futuro da FIFA, há algo aqui que ultrapassa Infantino, como ultrapassava Blatter. Sim, o futebol não precisa de Gianni Infantino, amigo de autocrátas, auto-considerado chefe de Estado. Mas, mais do que isso, o futebol não precisa de um presidente da FIFA tão poderoso, tão influente, de poder tão pessoalizado, de campo de atuação tão vastamente alargado.

O futebol é um jogo brutalmente resiliente, extraordinariamente popular, que encantava multidões no século XIX e encanta no século XXI, que reinava na era do telégrafo e reina na era da internet, cujo Mundial masculino representa um incrível motor financeiro. O futebol não precisa de um imperador; precisa de um burocrata, um chato, um nerd que cumpra as leis e regulamentos, em vez de os contornar, que faça por distribuir o dinheiro e verifique se vai mesmo para onde tem de ir — só um quinto das federações mostram contas auditadas e, por esse planeta, não faltam casos de desvios de fundos da FIFA — , que não extravase competências.

A casa de Gianni poderá cair. A casa da FIFA, infelizmente, apresenta vícios que vão além de um líder, por muito tóxico e nocivo que ele seja.

O que se passou

O FC Porto venceu a Supertaça, batendo um duro Torreense por 1-0. A crónica é da Lídia Paralta Gomes.

Após a derrota na Luz, o Benfica deu a volta e superou o St. Gallen na Liga Europa. Foi a despedida de António Silva. Também o SC Braga deu continuidade ao percurso na Liga Conferência.

O Francisco Martins entrevistou Neemias Queta, o senhor $56 milhões.

A última dança de LeBron James na NBA: o que está em causa na escolha pelos Philadelphia 76ers?

O Benfica estrear-se-á na I Liga 2026/27 sem adeptos.

Morreu Franco Baresi, o grande líder do grande Milan.

Ainda em Itália, a escolha do novo selecionador deu muitas reviravoltas. Depois de muita polémica, Roberto Mancini regressou ao cargo. França também tem novo técnico, a lenda Zidane.

O Sporting teve um ensaio geral para a nova época, goleando o Forest.

Martim e Kiko, Kiko e Martim, os dois Costa. Ambos sairão do Sporting para o Flensburgo.

A Vuelta terá Tadej Pogačar e João Almeida.


Zona mista

As conversas agora vindas a público – repito, privadas, informais, truncadas, meticulosamente selecionadas, incompletas e descontextualizadas - foram mantidas há mais de dois anos, num contexto pré-eleitoral, com todos os clubes do futebol profissional e todos os restantes stakeholders do futebol português

Pedro Proença, abordando a polémica dos áudios que rebentou há dias. Digamos que o futebol português, já de si com clima tenso e rodeado de suspeições, tinha zero necessidade de, na antecâmara de uma nova temporada, ver-se rodeado de mais um caso, com a associação de árbitros a pedir esclarecimentos, exigências de desculpas, faltas à primeira formação da época. Proença acabou a desculpar-se, deixou de haver o fantasma do boicote à Supertaça, mas mantêm-se as investigações do Ministério Público. Isto mal começou e já está complexo.

O que aí vem

Segunda-feira, 3 de agosto
🎾 Siga o Masters 1.000 de Montreal (16h00, Sport TV2)
⚽ Um dos primeiros campeonatos a arrancar foi o escocês. Celtic-Dundee (19h30, Sport TV1)
🚴 A etapa 3 do Tour feminino liga Genebra a Poligny, entrando em França (14h45, Eurosport 1). Também a Volta à Polónia, com regresso previsto de João Almeida à competição (9h20, Eurosport 2)

Terça-feira, 4
🎾 Masters 1.000 de Montreal (16h00, Sport TV2)
🚴 Etapa 4 do Tour feminino, com contrarrelógio individual (14h45, Eurosport 1). Etapa 2 da Volta à Polónia, corrida World Tour (11h55, Eurosport 2)

Quarta-feira, 5
🎾 Masters 1.000 de Montreal (16h00, Sport TV2)
⚽ Liga argentina, Boca Juniors-Estudiantes (23h00, Sport TV1)
🚴 Arranca a Grandíssima, a Volta a Portugal. O prólogo é um pequeno percursos, de 6,5 quilómetros, em Lisboa (15h00, RTP1)
🚴 Etapa 5 do Tour feminino (12h30, Eurosport 1). Também Volta à Polónia (10h55, Eurosport 2)

Quinta-feira, 6
⚽ O Benfica na terceira pré-eliminatória da Liga Europa, recebendo o Hearts (20h00, SIC). Na Liga Conferência, o SC Braga principia, em casa, a eliminatória perante o Dinamo Minsk (20h30, Sport TV5)
🎾 Masters 1.000 de Montreal (17h30, Sport TV2)
🚴 A segunda jornada da Volta liga a Lourinhã a Queluz (15h00, RTP1)
🚴 Etapa 6 do Tour feminino (14h45, Eurosport 1) e etapa 4 na Polónia (11h05, Eurosport 2)

Sexta-feira, 7
⚽ Principia a segunda jornada da I Liga: Estoril-Famalicão (20h15, Sport TV1)
⚽ A estreia oficial de César Peixoto no Wolverhampton é na Taça da Liga contra o Port Vale (19h45, Sport TV3)
🚴 Na Volta a Portugal, há etapa entre Sines e Albufeira (15h00, RTP1)
🎾 Masters 1.000 de Montreal (17h30, Sport TV2)
🏍️ Moto GP, GP Grã-Bretanha, treinos livres (10h00, Sport TV4)
🚴 Etapa 7 do Tour feminino, terminando no Mont Ventoux (14h15, Eurosport 1). Também Volta à Polónia (10h20, Eurosport 2)

Sábado, 8
⚽ Em fim de semana de retornos, o Marítimo volta ao principal campeonato com a visita do Casa Pia (15h30, Sport TV1). Mais tarde, Vitória SC-Arouca (18h00, Sport TV2) e Estrela-Sporting (20h30, Sport TV1)
⚽ O começo da II Liga traz-nos um embate entre clubes que somam 82 temporadas na I Liga: Chaves-Académica (11h00, Sport TV1). Também na divisão de prata, Penafiel-Portimonense (14h00, Sport TV+) e Tondela-Amarante (18h00, Sport TV3)
🚴 Dia de ir de Beja a Elvas na Volta (15h00, RTP1)
🎾 Masters 1.000 de Montreal (17h30, Sport TV6, e 23h00, Sport TV3)
🏍️ Moto GP, GP Grã-Bretanha, qualificação (11h50, Sport TV4). Corrida sprint às 16h00 e primeira corrida às 17h10
🚴 Etapa 5 na Polónia (12h45, Eurosport 2) e, no Tour feminino, chegada a Nice (14h30, Eurosport 1)

Domingo, 9
⚽ O campeão regressa com um confronto perante o Alverca (18h00, Sport TV1). Ao fim do dia, a Luz é o palco do regresso, passados 37 anos, do Académico de Viseu ao principal campeonato (20h30, BTV). Também no mesmo horário, Moreirense-SC Braga (20h30, TVI) e Gil Vicente-Rio Ave (20h30, Sport TV2)
⚽ II Liga: Farense-Torreense (11h00, Sport TV1), Feirense-Felgueiras (11h00, Sport TV3), Vizela-União de Leiria (14h00, Sport TV+), AFS-Sporting B (15h30, Sport TV2), Benfica B-Leixões (18h00, BTV) e Lusitânia-FC Porto B (18h00, Sport TV+)
🚴 Um primeiro dia decisivo na Volta, partindo de Figueiró dos Vinhos e chegando à Torre (15h00, RTP1)
🎾 Masters 1.000 de Montreal (17h30, Sport TV6, e 23h00, Sport TV3)
🏍️ Moto GP, GP Grã-Bretanha, corrida (13h00, Sport TV4)
🚴 Conclusão do Tour feminino (14h45, Eurosport 1) e da Volta à Polónia (12h25, Eurosport 1)

Hoje deu-nos para isto

Era um tempo de menor massificação da internet, sem smartphones, sem termos na mão o acesso a golos, resumos, sem consumirmos futebol através de toneladas de pequenos vídeos, reels e afins. Era um tempo em que ver o que se passava no futebol internacional era mais difícil, mais inacessível, construindo um panorama mais misterioso.

No início dos anos 2000, a grande porta para aceder à bola externa, para ver equipas e jogadores e estádios e cores, era um mítico programa de segunda-feira à tarde no Eurosport. Eurogoals, ou Eurogolos na versão portuguesa, assumia-se como uma jóia. Dava depois das aulas, diria que com arranque ali depois das 16h00, talvez qualquer coisa como 16h30. Eu perdia sempre o arranque do programa, apressando-me a voltar da escola para me sentar a ver aquelas maravilhas.

Durante aquela hora, o futebol tinha menos fronteiras. Havia resumos de todas as principais ligas, havia rankings de golos. “Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o mundo”, escreveu Cesário Verde. Era um pouco isso que sucedia ali: Real Madrid, Barcelona, Juventus, Lyon, Bayern Munique, Ajax, a Europa.

Não ver o Eurogolos era, basicamente, perder a ação do fim de semana, ficar de fora da conversa, sem possibilidade de ver mais tarde no telefone. Não havia propriamente outra hipótese para ver aquela finta de Ronaldinho, aquele golo de Shevchenko, aquele livre de Juninho Pernambucano.

Ou ver Aílton e o Werder Bremen.

Aílton e Thomas Schaaf, símbolos de tempos de glória em Bremen, símbolos de Eurogolos
Alexander Hassenstein

Eurogolos, na minha memória, é Aílton e Werder Bremen. Em 2003/04, um brasileiro com corpo que não parecia propriamente de desportista, a pender para o gordinho, destruiu a Bundesliga. Marcou, marcou, marcou, e cada golo passava no Eurogolos, desfilando como um objeto estranho num futebol estranho, distante. Mas que nos entrava pela casa à segunda-feira.

Creio que Nuno Arantes Santos e Olivier Bonamici, mítica dupla que o Eurosport também apresentava na CAN, eram, a certa altura, a parelha que comentava os resumos em português. Que saibam que fazem parte da minha infância.

Sinceramente, não me recordo de ver no programa jogos da Premier League. Talvez a máquina de venda dos direitos internacionais em Inglaterra já na altura fosse exigente. Recordo-me, sim, de Espanha, Itália, França, Alemanha, Países Baixos. Portugal também passava.

Era um programa relativamente sóbrio, em que os resumos brilhavam por si próprios, sem adornos nem enfeites.

Lembro-me do Eurgolos em semana de começo da I Liga, na antecâmara do recomeço de vários campeonatos. Agora está tudo nas nossas mãos, no Instagram, no TikTok, conteúdo infinito que se confunde com barulho de fundo, como um papel de parede que está lá, mas em que, frequentemente, nem reparamos. Há 20 anos, há 20 e poucos anos, era impossível não reparar no Eurogolos, porque ou se via ali, ou não se via.

E queríamos ver Aílton, o peculiar goleador da Alemanha.

Tenha uma boa semana de recomeço do futebol profissional no nosso país. Se estiver de férias, descanse, se não estiver de férias, nós também não estamos, em qualquer um dos casos continue a ler-nos no site da Tribuna Expresso, onde poderá seguir a atualidade desportiva e as nossas entrevistas, perfis e análises. Siga-nos também no Facebook e Instagram.

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