Tribuna 12:45

A Barbie acabou com a decência

Sophie Cunningham representa as Indiana Fever, onde é colega de Caitlin Clark
Icon Sportswire

Quando comecei a acompanhar a WNBA, sentia genuinamente que era impossível mais alguém estar a assistir aos mesmos jogos que eu. Até lá, nos Estados Unidos, os castiços pavilhões de muitas equipas tinham dificuldade para atrair gente. Era, por isso, inimaginável que alguém à distância sintonizasse voluntariamente no mesmo programa que me ocupava.

A WNBA era uma ceia desportiva que no meu calendário fazia as férias da NBA. Comecei a ler mais sobre o tema e a seguir o fenómeno. Percebi que existiam jogadoras que acumulavam trabalhos, representando também equipas europeias, o que as obrigava a estarem em atividade 365 dias por ano. Não existiam mordomias como as dos homens: as equipas viajavam em voos comerciais e, nos hotéis, não usufruíam de quartos individuais. Ser mãe e garantir direitos era um pesadelo.

Após uma ameaça de greve, entrou em vigor no início da época um novo contrato coletivo de trabalho, o mais vantajoso de sempre para as jogadoras da WNBA. Em 2025, o salário mais alto que uma basquetebolista podia receber era de $250.000. Este ano, o mínimo é de $270.000. A valorização financeira, baseada na distribuição de 20% da receita da liga, foi acompanhada de outros benefícios para quem, por exemplo, concilie a profissão com a maternidade.

A evolução está sustentada num aumento de audiências e de pavilhões lotados, em alguns casos, os mesmos que as equipas da NBA utilizam. A chegada de Caitlin Clark impulsionou os números que continuam a crescer graças à nova vaga de jogadoras que se tornam estrelas ainda na universidade.

Acompanhar a transformação da WNBA, que atingiu um nível desportivo absurdo face ao que conheci, permite-me saber que Sophie Cunningham é letal a lançar triplos do canto, o tipo de suplente que vai marcar tiros que alteram a tendência de um jogo a favor da sua equipa ou ampliam o resultado para uma margem irrecuperável para o adversário. No entanto, muitos dos que têm ouvido falar dela nos últimos tempos conhecem-na por outros motivos.

Cunningham disse querer “proteger as meninas mais novas no balneário ou as meninas mais novas que não deviam ter de enfrentar homens biológicos”. A oposição às atletas transgénero no desporto feminino fez as delícias dos apoiantes de Donald Trump, entre os quais é conhecida como Barbie MAGA. Como, de momento, não existe nenhuma jogadora na WNBA que se identifique dessa forma, os conservadores desencantaram os bons desempenhos de uma jogadora da segunda divisão francesa, Julie Tétart, para provarem o ponto de vista. Vale tudo quando dividir é o maior propósito.

Sophie Cunningham num conflito recente com DiJonai Carrington após sofrer uma falta dura
Icon Sportswire

Apesar das mais-valias e de ter representado equipas vencedoras, Sophie Cunningham não é uma das caras da WNBA. No entanto, a opinião partilhada sobrepô-la a pessoas muito melhores do que ela a jogar basquetebol. Há margem para discutir a presença de atletas transgénero no desporto feminino sem suprir decência ao tópico. O debate seguiu por um caminho de argumentos pouco profundos que contribuem tanto para a discussão como ervas daninhas a nascerem no passeio.

Enes Freedom está há vários anos afastado da NBA. Não anunciou oficialmente o fim da carreira, porque, segundo o próprio, continua no ativo e apto a assinar um contrato, se alguma equipa o quiser. Esta última parte é importante. Nenhum franchise se mostrou interessado nele nas últimas quatro épocas. O ego desidratado matou a sede de atenção com um vídeo em que se declarou à WNBA, aumentando as possilidades de continuar a jogar, visto que, nos últimos tempos, não lhe têm oferecido chances de o fazer.

O poste de 34 anos explorou a zona cinzenta dos regulamentos, onde se diz que “apenas mulheres são elegíveis para jogar na WNBA”, descrição pouco esclarecedora para o futuro ex-basquetebolista que adquiriu nacionalidade norte-americana em 2021 após se dizer perseguido pelo regime de Erdogan, a quem chamou “Hitler do nosso século”, e de ter perdido o passaporte do país onde cresceu, a Turquia. O atual apelido – anteriormente, era conhecido como Enes Kanter – celebra o sucesso do imbróglio burocrático, um processo que chamou a atenção de Trump, com quem se encontrou.

“Não estou aqui para gozar, ridicularizar ou desrespeitar qualquer comunidade ou escolhas pessoais. Estou simplesmente a pedir que as regras atuais sejam aplicadas igualmente a todos, regras que representam os valores que muitas jogadoras e treinadoras da WNBA defendem publicamente”, ironizou quando colocou o nome à disposição do Draft de 2027, processo em que as jogadoras são distribuídas pelas equipas. Boa sorte a tentar ficar à frente de JuJu Watkins.

A WNBA, até aqui alheia ao assunto, decidiu intervir perante o descabimento. Face às posições ensandecidas, a comissária enviou a todas as equipas um memorando para frisar que o assunto seria abordado “com cuidado, respeito e em consonância com os valores da liga”. Cathy Engelbert esclareceu que “preservar a integridade e garantir justiça competitiva serão sempre as maiores prioridades da liga”.

Cheryl Reeve tomou uma posição sobre o tema através de uma camisola
Star Tribune via Getty Images

Ao contrário da organização, algumas intervenientes não demoraram a reagir aos comentários de Sophie Cunningham. Cheryl Reeve, uma das treinadoras mais conceituadas da competição, usou uma camisola com a mensagem “as crianças trans pertencem”, posição que sustentou no contacto com os jornalistas. “A narrativa problemática é a de que as mulheres transgénero são o maior problema no desporto feminino”, desconstruiu a técnica das Minnesota Lynx. “Para mim, é um problema de direitos humanos. Todas as crianças têm direito a praticar desporto.”

Sobre este tema, o Comité Olímpico Internacional definiu recentemente que “a elegibilidade de qualquer atleta feminina [...] está agora limitada ao género biológico” para promover “a justiça, a segurança e a integridade”. Foi mesmo a propósito que a basquetebolista Brianna Turner escreveu no “USA Today” um contraditório. A jogadora das Las Vegas Aces, campeãs da WNBA, considerou que a medida “não protege as mulheres”, apenas cria “bodes expiatórios enquanto os verdadeiros desafios do desporto feminino continuam sem resposta”. A exclusão, considerou a atleta, “cria um precedente perigoso que se pode espalhar para a saúde, a educação e outras áreas”. “Em mais de 15 anos de basquetebol organizado, joguei contra várias pessoas transgénero e com variações intersexuais e nunca senti desvantagens.”

Sophie Cunningham, a promotora de tudo isto, entretanto, acusou os media de cobrirem tudo “exceto basquetebol”. “Quero assegurar que o foco continua onde deve, porque estamos a jogar a um grande nível”, apontou numa tentativa de desviar a atenção para a campanha das Indiana Fever. Too late…

O que se passou

Zona mista

“Infantino tem de sair”

O ex-internacional português, Luís Figo, fez uma crítica assertiva à liderança da FIFA. O antigo jogador de Sporting, Barcelona, Real Madrid e Inter escreveu um artigo de opinião no “Daily Mail” contra o comportamento “baixo”, “desonesto” e “descaradamente egoísta” de Gianni Infantino. O presidente do organismo que tutela o futebol mundial propôs-se a vender os direitos comerciais do Mundial, projeto entretanto abandonado, e perdeu apoios ao ponto da reeleição estar em risco.

O que vem aí

Segunda-feira, 10
⚽ II Liga: Lus. Lourosa-FC Porto B (18h, Sport TV+) e Benfica B-Leixões (18h, BTV)
🚲 Volta a Portugal: etapa 5 (15h, RTP 1)
⚽ I Liga: Santa Clara-Nacional (20h15, Sport TV1)
🏃 Europeus de atletismo (19h, RTP 2)

Terça-feira, 11
🏃 Europeus de atletismo (10h30, RTP 2)
🏊 Europeus de atletismo e de desportos aquáticos (17h30, RTP 2)

Quarta-feira, 12
🏃 Europeus de atletismo (10h30, RTP 2)
🚲 Volta a Portugal: etapa 6 (15h, RTP 1)
🏊 Europeus de desportos aquáticos (17h30, RTP 2)
🏃 Europeus de atletismo (19h30, RTP 2)
⚽ Supertaça Europeia: PSG-Aston Villa (20h, Sport TV5)

Quinta-feira, 13
🏃 Europeus de atletismo (10h30, RTP 2)
🚲 Volta a Portugal: etapa 7 (15h, RTP 1)
🏊 Europeus de desportos aquáticos (17h30, RTP 2)
🏃 Europeus de atletismo (19h40, RTP 2)
⚽ Pré-qualificação Liga Europa: Hearts-Benfica (19h45, Sport TV5)
🎾 WTA 1000 de Toronto: final (23h, DAZN)

Sexta-feira, 14
🎾 Masters 1000 de Montreal (1h, Sport TV3)
🏃 Europeus de atletismo (10h30, RTP 2)
🚲 Volta a Portugal: etapa 8 (15h, RTP 1)
🏊 Europeus de desportos aquáticos (17h30, RTP 2)
🏃 Europeus de atletismo (19h35, RTP 2)
⚽ I Liga: Sporting-Vitória SC (20h15, Sport TV1)

Sábado, 15
⚽ II Liga: Torreense-Penafiel (11h, Sport TV1)
🏃 Europeus de atletismo (11h50, RTP 2)
🤸 Europeus de ginástica artística feminina (13h50, RTP 2)
🚲 Volta a Portugal: etapa 9 (15h, RTP 1)
⚽ I Liga: Alverca-Estrela (15h30, Sport TV1), Académico-Santa Clara (18h, Sport TV2) e Rio Ave-FC Porto (20h30, Sport TV1)
🏊 Europeus de desportos aquáticos (17h30, RTP 2)
🏃 Europeus de atletismo (19h50, RTP 2)

Domingo, 16
🏃 Europeus de atletismo (7h25, RTP 2)
⚽ II Liga: Portimonense-Vizela (11h, Sport TV1), Leixões-Tondela (15h30, Sport TV2)
🤸 Europeus de ginástica artística feminina (14h50, RTP 2)
🚲 Volta a Portugal: etapa 10 (15h, RTP 1)
⚽ Supertaça de Inglaterra: Arsenal-Manchester City (15h, Sport TV3)
⚽ I Liga: Nacional-Estoril (15h30, Sport TV1), Arouca-Moreirense (20h30, Sport TV2), Famalicão-Marítimo (20h30, Sport TV2) e SC Braga-Gil Vicente (20h30, Sport TV1)
🏊 Europeus de desportos aquáticos (17h30, RTP 2)
⚽ Supertaça de França: PSG-Lens (19h30, Sport TV3)

Hoje deu-nos para isto

Rodrigo Dias a contornar os buracos na Reboleira
Gualter Fatia

Sem que os grandes campeonatos tenham ainda começado, foi um fim de semana de zapping frenético para percorrer os vários cenários do arranque do futebol português. Um pouco por toda a parte, as telas televisivas transmitiram um quadro lastimável. Alguns relvados simplesmente parecem não ter ido de férias e, ainda antes dos primeiros jogos, já se iam esfarelando.

O tapete hirsuto que por mais olhos terá passado foi o da Reboleira, onde o Sporting empatou contra o Estrela da Amadora. Se descermos de patamar, o Farense ganhou a um Torreense, de regresso à realidade, em cima de um passadiço irregular que fazia a bola tremer os dentes. Aprofundando ainda mais, o que dizer do retângulo onde se jogou Marco 09-Paços de Ferreira? Sei que este último exemplo pode dizer pouco à grande maioria das pessoas, mas a Liga 3 é a competição contínua mais importante da Federação Portuguesa de Futebol. São sinais que diminuem a surpresa de uma Supertaça jogada num campo de minas.

Não abona a favor da venda de direitos televisivos ter um embrulho tão precário. O Feirense, que se estreou na II Liga contra o Felgueiras, inclusivamente jogou no Olival, porque o relvado do Estádio Marcolino Castro não recuperou a tempo devido a uma avaria no sistema de rega. Podemos assegurar que o futebol português está de volta quando se realizam jogos entre equipas separadas por 240 km às 11h, como aconteceu no GD Chaves-Académica, ou a uma segunda-feira às 18h, como vai acontecer com o Lus. Lourosa-FC Porto B e com o Benfica B-Leixões.

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