Peguei nas páginas d’A Morte de Ivan Ilitch e senti-me um futebolista profissional. Era uma ilusão que não tinha desde os nove anos, altura que percebi que seria difícil tornar-me no melhor jogador da minha rua (e os candidatos eram poucos). Vou comprovando a falta de talento nos dias que correm a cada domínio tosco com a canela em partidas recreativas que se assemelham a um grupo de reabilitação para antigas promessas, lugar onde se partilham, através da trôpega atividade desportiva, histórias de percursos gorados.
O estilo de vida de um astro da bola não é vendido num pacote de experiências e está geralmente vedado ao cidadão comum. As roupas extravagantes, os restaurantes gourmet, as férias em lugares paradisíacos ou os carros de luxo não são dividendos que se retirem de uma carreira feita a calçar as chuteiras aos sábados de manhã para jogar com amigos.
Alheio aos estigmas associados aos futebolistas, Gustavo Scarpa pegou numa câmara e entreteve a audiência que o segue por ser jogador do Atlético Mineiro com uma crítica de dez minutos à obra de Lev Tolstói. O vídeo colocou A Morte de Ivan Ilitch no topo da lista de livros mais vendidos no Brasil via Amazon. Além disso, a recomendação levou os adeptos do emblema brasileiro a criarem um clube de leitura onde se debatem os títulos sugeridos por Gustavo Scarpa e se fazem angariações de livros. A comunidade conta com 117 mil seguidores no Instagram.
Gustavo Scarpa já passou pela Premier League e regressou mais tarde ao Brasil, como tantos outros. Uma carreira semelhante e a vida que dela resulta não estão ao alcance de todos, ao contrário de ler um livro. É uma forma original de uma celebridade se mostrar aos milhares de pessoas que a admiram e talvez a mais íntima.
É curioso imaginar que um futebolista tenha mergulhado na história do juiz cuja morte não causa tristeza, apenas cobiça pelo seu cargo e dinheiro. Ivan Ilitch sofre de uma doença indecifrável e vai sucumbindo lentamente com consciência da irrelevância que o seu desaparecimento terá na vida da família e dos amigos. Fenece por motivos físicos, mas o que o mata é a tristeza profunda. Estranho que Gustavo Scarpa, alguém que parece ter tudo para viver longe dela, se tenha deixado levar por esta escuridão.
Os jogadores de futebol são aliciados em permanência para divulgarem vícios ou organizações de origem duvidosa. Direcionar a influência para a promoção da leitura é abdicar de encher o próprio bolso em prol de uma sociedade culturalmente mais rica. Uma atitude louvável.
A este propósito, o basquetebolista Victor Wembanyama pronunciou-se recentemente sobre a quantidade de patrocínios que rejeita por considerar que uma eventual colaboração transmitiria à sociedade uma mensagem à qual não quer estar associado: “É muito triste ver jogadores a promover casas de apostas. Recusei muito mais dinheiro do que aquele que fiz por não promover coisas que não representam os meus valores. Quero promover coisas que tenham uma boa influência no mundo e através das quais possa transmitir mensagens e valores.”
O uso que Gustavo Scarpa faz das redes sociais também é um lembrete para os influencers de banalidades. A cacofonia pode gerar alcance, mas o impacto exige um empenho intelectual um pouco mais trabalhoso.
O que se passou
Zona mista
“Todos, sem exceção, queremos estar juntos novamente em novembro”
Aparentemente, a Federação Portuguesa de Futebol deseja que Cristiano Ronaldo não seja castigado pelo abandono do estágio. Pedro Proença aponta ao regresso do capitão já na próxima janela internacional sem a punição que o próprio jogador da seleção nacional admitiu merecer no mesmo comunicado em que visou a conferência de imprensa de Jorge Jesus em Copenhaga. Por agora, o Conselho de Disciplina da FPF suspendeu preventivamente o avançado.
O que vem aí
Segunda-feira, 12
⚽ I Liga: Famalicão-Alverca (20h15, Sport TV1)
Terça-feira, 13
⚽ Liga dos Campeões: Lens-Sporting (17h45, Sport TV5), Atlético Madrid-Manchester United (20h, DAZN), Viking-Bayern (20h, DAZN), Arsenal-Lille (20h, DAZN), Galatasaray-Barcelona (20h, DAZN)
Quarta-feira, 14
🚴 Mundiais de pista (11h25, Eurosport 2)
⚽ Liga dos Campeões: LASK-Liverpool (17h45, DAZN), Bétis-FC Porto (20h, Sport TV5), AS Roma-Real Madrid (20h, DAZN) e Manchester City-PSG (20h, DAZN)
🚴 Giro del Veneto (15h, Eurosport 1)
Quinta-feira, 15
🚴 Mundiais de pista (9h55, Eurosport 2)
⚽ Liga dos Campeões: Sporting-Pick Szeged (19h45, Sporting TV) e FC Porto-Fuchse Berlin (19h45, Porto Canal)
⚽ Liga Europa: RB Salzburg-AC Milan (17h45, DAZN), Torreense-Sunderland (17h45, DAZN), Benfica-Celtic (20h, Sport TV5)
⚽ Liga Conferência: Copenhaga-SC Braga (20h, DAZN)
Sexta-feira, 16
🚴 Mundiais de pista (9h55, Eurosport 2)
Sábado, 17
🚴 Mundiais de pista (10h25, Eurosport 2)
⚽ Premier League: Manchester City-Ipswich (15h, DAZN) e Brentford-Liverpool (15h, DAZN)
🏐 Supertaça: Sporting-Benfica (16h, Sport TV2)
⚽ Ligue 1: Estrasburgo-PSG (16h15, Sport TV4)
⚽ La Liga: Bétis-Barcelona (17h30, DAZN)
⚽ Serie A: AS Roma-Génova (19h45, Sport TV1)
Domingo, 18
🚴 Mundiais de pista (6h25, Eurosport 2)
⚽ Premier League: Leeds-Manchester United (14h DAZN) e Nottingham Forest-Arsenal (16h30, DAZN)
⚽ Serie A: AC Milan-Atalanta (17h, Sport TV1)
⚽ La Liga: Real Madrid-Sevilha (20h, DAZN)
Hoje deu-nos para isto
Os passeios são manifestamente insuficientes para as pessoas, que começam a escorrer para a estrada. A determinado momento, o speaker diz como se chama um dos 160 dorsais. Numa circunstância em que a visibilidade não fosse afetada pelo nevoeiro de gente, a apresentação seria desnecessária. O público é vizinho de quem vem a pedalar a subida. Mais do que o nome, sabe onde mora e, provavelmente, o que faz da vida.
A ciclista é Rita Luís e, anuncia o portador do microfone, está grávida de oito meses. Os telemóveis saltam dos bolsos para registar o momento em que o barrigão, destacado pelo uso de uma camisola de licra cor de rosa, irrompe a multidão. Para motivar, acompanha-a o barulho de um estádio a céu aberto.
A Rampa do Vale de Santo António é o último reduto do bairrismo lisboeta. Participantes e espetadores convivem à porta das próprias casas. “Então, já subiste?”, pergunta alguém a um morador que segura a bicicleta com uma mão e uma cerveja com a outra no meio de um grupo com camisolas a ostentar o lema “Ciclismo e Alcoolismo” e bonés que identificam um “Ciclista Antifascista”.
A subida é um desafio pessoal. Alguns corredores soltam-se tresloucados para tentarem completar brevemente os cerca de 450 metros. Outros só querem mesmo terminar. Nos momentos em que as pernas fraquejam, o povo mete as mãos na bicicleta e alivia o esforço do ciclista com um pequeno empurrão. A grande maioria do público concentra-se na parte mais íngreme para poder apoiar nos momentos mais difíceis. A meta, onde o resultado se consuma, está mais desflorestada de entusiastas. É uma metáfora para a vida.
A celebração do desporto popular decorre com laivos de manifestação. O espírito vicinal é o pretexto indicado para relembrar a crise da habitação. “Moedas é o pior que aconteceu a Lisboa desde 1755”, lê-se escrito à mão num cartaz. André Ventura é outro visado com as críticas criativas. Neste lugar, enaltece-se sobretudo o bairrismo, a sensação de que se pode encontrar na porta ao lado o ingrediente que falta para o jantar.
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