Tribuna 12:45

O feitiço dos Jogos

O feitiço dos Jogos

Pedro Barata

Jornalista

Acabaram os Jogos Olímpicos de inverno Milão-Cortina 2026. Agora só 2030
Dustin Satloff

Os grandes eventos desportivos têm a incrível capacidade de, sendo de duração relativamente curta, parecerem parte fundamental da nossa rotina, um momento que sempre lá esteve, que está, que estará. Enquanto se disputa um Mundial de futebol, achamos que acordar e ver um Uruguai-Gana é o pão nosso de cada dia, por muito que o pão só venha parar à mesa um mês a cada quatro anos.

A magia destes acontecimentos é esta: sendo esporádicos, invadem-nos de tal forma que nos convencemos que são parceiros quotidianos de lavar os dentes ou dormir. Hábitos. Há dois mil anos que se sabe que os Jogos — o circo — têm este potencial, daí serem um instrumento tão apelativo para os poderosos.

Conjuram um feitiço, criam uma bolha, fazem-se passar por nossos vizinhos. Mas não são hábitos, não são o normal.

Porque não é normal acordar e ter Jogos Olímpicos de inverno. O festim é quadrienal e, nestes que agora terminaram em Itália, assistimos a uma edição extraordinária de gelo e neve, com paisagens que nos reconciliam com a ideia desta cimeira de florestas, de bosques, de montanhas, de natureza, longe das imagens pós-apocalípticas de Pequim 2022, com fábricas abandonadas reinando no horizonte, centrais nucleares inutilizadas como pano de fundo de acrobacias e saltos de esqui.

Na verdade, a trilogia Euro 2024 na Alemanha, Jogos 2024 em Paris e Jogos 2026 em Milão-Cortina foi um ganhar fôlego, um respirar para recuperar de onde se vinha e ganhar forças para o que aí vem. Depois do infame trio de Rússia 2018-Pequim 2022-Catar 2022, que se assemelhou a uma guerra por descobrir o pior regime possível para ser anfitrião, os recentes Europeu de futebol e Jogos de verão e inverno suavizaram essa sensação.

Milão-Cortina, obviamente, não foi alheio à controvérsia e à discussão política porque os Jogos são política e política é controvérsia e discussão. Houve o caso do capacete ucraniano, JD Vance assobiado, a noção clara que um regresso da bandeira russa aos Jogos está próximos. Mas, produzindo o seu feito, a montanha italiana encantou-nos com os seus cenários de pequenas vilas alpinas, onde poderíamos imaginar uma Heidi cantando. Ganhou-se fôlego para o que se segue: o Mundial MAGA 2026.

Klæbo, uma medalha de ouro, neve: palavras que vivem juntas
picture alliance

Foram os Jogos de Johannes Høsflot Klæbo, o admirável homem das neves, rei de ouros; do golpe de teatro de Ilia Malinin, tão sobrehumano, tão humano; do reaparecer e morte dos fantasmas de Mikaela Shiffrin; do grito de dor de Lindsey Vonn; do skimo, a novidade, arte em que, além do físico, importa ser rápido na lida doméstica, como se estivessemos atrasados para o trabalho e tivéssemos de nos arranjar velozmente.

Aprendemos que o pénis pode criar casos na busca pela aerodinâmica; que no hóquei no gelo não vale tudo; que a patinagem continua a dar histórias extraordinárias; que há quem traia e decida confessar logo após vencer uma medalha; que é possível roubar uma colega e, meses depois, ganhar o ouro na mesma competição da lesada.

O medalheiro tem, novamente, a Noruega no topo. A tabela permite-nos comprovar que estes Jogos são, sejamos honestos, coisa de ricos: entre os 10 países com mais medalhas, todos estão no top 30 dos territórios com maior PIB per capita do planeta.

A Noruega brilhou, é certo, mas, como o New York Times especificou, há rankings para todos os gostos. A Alemanha reinou nas competições por equipas e em pistas a descer (com o bobsleigh e o luge), os EUA foram os mais fortes nas provas femininas, os Países Baixos dominaram quando se corria em pistas de gelo (olá, patinagem de velocidade). Entre os países cujos territórios ficam entre os 45º norte e os 45º sul de latitude, isto é, longe das zonas mais frias, os melhores foram a Coreia do Sul.

O desfile de glória teve os suspeitos do costume, a tradição e elitismo mantêm-se fortes nos Jogos de inverno, mas houve assomos de novidade. Espanha ganhou o primeiro ouro desde 1972, o Cazaquistão subiu ao lugar mais alto do pódio pela primeira vez desde 1994, o Brasil e a Geórgia lograram inéditas medalhas.

E acabou. Adeus à rotina que não era rotina porque uma rotina não é rotina se dura duas semanas. Mas todos nos convencemos que era rotina porque é esse o feitiço envolvente do grande desporto.

Até 2030, quando todos voltarmos a acordar para o curling, seguir com o esqui alpino, dar um salto ao biatlo e terminar com a patinagem.

O que se passou

O infeliz caso da semana deu-se no Estádio da Luz: Vinícius acusou Prestianni de insultos racistas, proferidos logo após o golo do brasileiro no 1-0 do Real contra o Benfica. Cumpriu-se o protocolo? Que sanção poderá ter o brasileiro? As reações foram de Mourinho a Infantino, passando pelo governo brasileiro.

No campeonato, as águias bateram sem problemas o AFS, à mesma hora e pelo mesmo resultado do triunfo do Sporting em Moreira de Cónegos. No dia seguinte, o FC Porto respondeu e deixou tudo na mesma.

Lembram-se de quando o Rio Ave perdeu quase todos os seus golos no fim do mercado? O Estrela da Amadora ameaça ir para tribunal contestar a venda de André Luiz ao Olympiacos, clube também detido por Marinakis.

Antes do dérbi de Lisboa em futsal, a PSP deteve 124 adeptos na sequência de uma rixa. Toda a informação, pelo Hugo Franco.

Houve estreia para Miguel Oliveira no Mundial de Superbikes.

João Almeida foi terceiro na Volta ao Algarve, vencida por Ayuso e onde o fenómeno Seixas se estreou a ganhar em elites.

Leu a estreia de “Previsão do Tempo”, o novo espaço da Lídia Paralta Gomes? Vale e valerá a pena.

Zona mista

A minha crítica é mesmo direta às instituições responsáveis que gerem os nossos desportistas: nós sempre fomos geridos por amadores. O desporto nacional sempre foi gerido por amadores

Nelson Évora, em entrevista sem filtros à Alexandra Simões de Abreu. O momento do adeus “ainda não aconteceu”, Nelson está a “preparar” essa despedida.

O que aí vem

Segunda-feira, 23 de fevereiro
A primeira mão dos quartos de final da Liga dos Campeões de futsal com dérbi de Lisboa: Benfica-Sporting (20h00, Canal 11)
A jornada 23 da I Liga fecha com o Famalicão-Casa Pia (20h15, Sport TV1)
Em Itália, Fiorentina-Pisa (17h30, Sport TV2) e Bologna-Udinese (19h45, Sport TV2). Na Premier League, Everton-Manchester United (20h00, DAZN)
🎾 Ao longo da semana, ATP 500 do Dubai (15h00, Sport TV4). Na América do Sul, ATP 250 de Santiago (23h00, Sport TV7)

Terça-feira, 24
A primeira vaga de decisões no play-off da Liga dos Campeões: Atlético de Madrid-Club Brugge (17h45, DAZN), Inter-Bodø/Glimt (20h00, Sport TV5), Newcastle-Qarabag (20h00, DAZN) e Bayer Leverkusen-Olympiacos (20h00, DAZN)
O Sporting nos oitavos de final da Youth League, diante do Eintracht Frankfurt (15h00, DAZN)
🎱🥢🎱🥢 Snooker, Open do País de Gales (13h00, Eurosport 1)
🎾 ATP 500 de Acapulco (00h00, Sport TV6) com presença de Nuno Borges no quadro principal, ATP 500 do Dubai (10h00, Sport TV2) e 250 de Santiago (21h30, Sport TV7)

Quarta-feira, 25
🏀 Os Boston Celtics de Neemias Queta contra os Phoenix Suns (02h00, Sport TV1)
Jogo grande no Bernabéu: Real Madrid-Benfica (20h00, Sport TV5). Ainda, na segunda mão do play-off, Atalanta-Dortmund (17h45, DAZN), PSG-Mónaco (20h00, DAZN) e Juventus-Galatasaray (20h00, DAZN)
Brasileirão: Cruzeiro-Corinthians (23h00, Canal 11)
Youth League: Benfica-AZ Alkmaar (15h00, DAZN)

Quinta-feira, 26
Liga Europa: Estugarda-Celtic (17h45, DAZN), Genk-Dinamo Zagreb (20h00, DAZN), Forest-Fenerbahçe (20h00, Sport TV5), Celta-PAOK (20h00, DAZN)
Brasileirão: Santos-Vasco da Gama (22h00, Canal 11)
🏀 Denver Nuggets-Boston Celtics (03h00, Sport TV1)
🏌️ DP World Tour, South African Open Championship (10h30, Sport TV3)

Sexta-feira, 27
Luta pelo título em dose dupla: FC Porto-Arouca (18h45, Sport TV2) e Sporting-Estoril (20h45, Sport TV1)
Na Premier League, Wolves-Villa (20h00, DAZN). Na Ligue 1, Estrasburgo-Lens (19h45, Sport TV4), em Itália, Parma-Cagliari (19h45, Sport TV3). Em Espanha, o Levante do português Luís Castro recebe o Alaves (20h00, DAZN)
🏑 🧊 NHL: Carolina Hurricanes-Tampa Bay Lightning (00h00, Sport TV3)
⛷️ Saudades de esqui alpino? Taça do Mundo em Soldeu, Andorra (9h45, Eurosport 1)
🏌️ DP World Tour, South African Open Championship (10h30, Sport TV3)
🏍️ Arranca a época de Moto GP, com o GP Tailândia. Treinos livres a partir das 02h00, Sport TV4
🥋 Judo, Grand Slam de Tashkent (12h00, Sport TV4)

Sábado, 28 de fevereiro
I Liga: AFS-Estrela da Amadora (15h30, Sport TV1), Nacional-SC Braga (18h00, Sport TV1) e Vitória SC-Alverca (20h30, Sport TV1)
Dia cheio de pontos de interesse no futebol internacional: Liverpool-West Ham (15h00, DAZN), Barcelona-Villarreal (15h15, DAZN), Leeds-City (17h30, DAZN), Dortmund-Bayern (17h30, DAZN), Inter-Génova (19h45, Sport TV2), Oviedo-Atlético (20h00, DAZN) e Le Havre-PSG (20h05, Sport TV3)
🏍️ Qualificação do GP Tailândia, a partir das 03h50 (Sport TV4)
🚴 A época de ciclismo na Bélgica abre simbólica e festivamente com a Omloop Het Nieuwsblad (12h30, Europosrt 2)
🎾 Final do ATP 500 do Dubai (15h00, Sport TV6)

Domingo, 1 de março
I Liga: Tondela-Santa Clara (15h30, Sport TV1), Casa Pia-Moreirense (18h00, Sport TV1) e Rio Ave-Famalicão (20h30, Sport TV1)
O Forest de Vítor Pereira contra o Brighton (14h00, DAZN), o Fulham de Marco Silva contra o Tottenham (14h00, DAZN) e dérbi de Londres entre Arsenal e Chelsea (16h30, DAZN). Em Espanha, o escaldante dérbi de Sevilha entre Betis e Sevilla (17h30, DAZN) e, em França, o Lyon de Paulo Fonseca visita Marselha (19h45, Sport TV3). Em Itália, Roma-Juventus (19h45, Sport TV2)
🎾 Final do ATP 500 de Acapulco (03h00, Sport TV6) e do ATP 250 de Santiago (22h30, Sport TV3)
🏍️ GP Tailândia, corrida (8h00, Sport TV4)
🥋 Terceiro dia do Grand Slam de Tashkent (12h00, Sport TV4)

Hoje deu-nos para isto

E se continuarmos no frio? Não com os Jogos Olímpicos, mas com um dos principais milagres do futebol internacional.

A era é de maior estratificação no futebol do que nunca. A tabela da Liga dos Campeões assemelha-se a um decalque da Deloitte Money League. O tempo em que se sonhava com as maiores conquistas em Lisboa, Glasgow, Porto ou Amsterdão terminou.

Mas há quem resista. Quem invente horizontes impossíveis.

A norte do Norte está Bodø. Vindo de uma terra de meros 42 mil habitantes, localizada no Círculo Polar Ártico. No futebol em que os limites dos teus sonhos são determinados pelo mercado televisivo em que vives, a sorte não parecia amiga dos noruegueses que, em 2017, estavam na segunda divisão.

Mas uma mistura de trabalho em continuidade, um treinador que parece milagreiro, um grupo de jogadores entusiasmante, um forma de jogar rica e corajosa e muita crença global no processo, o Bodø virou a lógica do avesso.

O Bodø/Glimt a festejar um dos golos da vitória contra o Inter no seu pequeno estádio com neve
Martin Ole Wold

Da conquista da liga às primeiras experiências europeias, de bater FC Porto ou SC Braga a entrar na Liga dos Campeões. E, na estreia, ser a grande sensação da presente edição.

O Bodø está em pré época. Os rigores do inverno da Noruega ditam que a época seja entre março e o começo de dezembro, pelo que ainda faltam três semanas para que a equipa de Kjetil Knutsen lute para recuperar um título que, em 2025, foi para o Viking. Pois bem, eis os resultados dos últimos 3 jogos oficiais que fizeram, logrados enquanto na Noruega não rola a bola: Bodø 3-1 City, Atlético 1-2 Bodø, Bodø 3-1 Inter.

Talvez em Milão haja reviravolta italiana, na segunda mão do play-off. Mas o conto de fadas do Bodø prossegue e intensifica-se. O futebol em que certos patamares parecem proibidos para uns e reservados incondicionalmente para outros teima em surpreender-nos.

Tenha uma boa semana, procurando preencher o vazio que nos deixa o fim dos Jogos Olímpicos de inverno da melhor forma. Como viver sem ver curling? Onde está o esqui alpino? Enfim, cá nos arranjaremos. Obrigado por nos acompanhar aí desse lado e acompanhe-nos no site da Tribuna Expresso, onde poderá seguir a atualidade desportiva e as nossas entrevistas, perfis e análises. Siga-nos também no Facebook, Instagram e no Twitter. Escute ainda o nosso podcast “No Princípio Era a Bola”, no qual tentamos descomplicar o futebol com o Tomás da Cunha e o Rui Malheiro.


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