Tribuna 12:45

Vermos o ‘falhanço’ é a única forma de sabermos reconhecer a grandeza

Ilia Malinin a cair sob pressão no gelo com os fotógrafos, e o mundo, a verem
Tim Clayton

Michael Jordan era o tipo a quem passar a bola nos clutch moments, naqueles últimos segundos de um jogo, para ir ao cesto pelos Chicago Bulls. Usain Bolt olhava atrás e ria-se para os adversários ao acabar os 100 metros. Se entrava numa piscina, Michael Phelps virava peixe de água com cloro, imbatível para humanos. Às molas nos pés de Simone Biles ninguém equivale na ginástica artística. Era raríssimo Johnny Wilkinson não acertar um pontapé aos postes no râguebi.

Serena Williams saiu de Compton, bairro de perspetivas adversas para quem lá nasce, rumo a domar o mundo à raquetada. Lionel Messi joga “como se visse o jogo de cima”, já dizia Gary Lineker. Armand Duplantis bate (os próprios) recordes do mundo cada vez que pega na vara. A elegância exuberante de Roger Federer fazia crer que tudo nele existia sem esforço, nem trabalho. Katie Ledecky nada com guelras sem igual. Contra os neurónios de Garry Kasparov no xadrez nem computadores podiam. Kelly Slater era um só com as ondas, Marta já marcou 17 golos em Mundiais de futebol.

Ficaríamos com um longo papiro e não faríamos aqui outra coisa se a lista de lendários desportistas, dos que definiram a bitola das respetivas eras, fosse além dos que me lembro de ver desde que vim ao mundo. Ilia Malinin não é, por enquanto, um deles.

Todos os mencionados são casados com o sublime, bodas de prata e ouro atadas à sensação de serem intocáveis na sua modalidade, mas cada um, sem exceção, viveu momentos de episódica ruína na sua carreira.

Federer desfez-se em choro copioso perante Rafael Nadal, achando que nunca lhe ganharia. Biles pôs o mundo a aprender o significado de “twisties” a meio de uns Jogos Olímpicos. Messi chegou a sucumbir na cara do ‘quase’ ganhar pela seleção, mas nunca ganhar, ao ponto de recusar jogar mais pela Argentina. Jordan ficou esvaziado de basquetebol com a tragédia de perder o pai. Kasparov estendeu a mão a uma mulher, Judit Polgár, admitindo a derrota perante quem não concebia ser possível um homem perder. Serena estragou o ponto alto da carreira de uma adversária, na final do US Open, ao fazer-se de vítima.

Por estar carregado de potencial para ser incrível como eles, Ilia Malinin, o americano de pais russos, ambos patinadores na flor da idade, corporizou a mais abastada expetativa dos Jogos Olímpicos de Inverno. Bicampeão mundial, sem perder uma prova há mais de dois anos, nestes tempos em que propagar modas é tão fácil o seu alcance tocou até em quem pouco se importa com modalidades frias, da neve e do gelo: havia um rapaz que andava a aterrar axel quádruplos como quem bebe um café, único na história a fazê-lo em competição, com uma auto-posta alcunha altiva (“Quad God”) e causador de títulos jornalísticos como “o homem que ganhou à Física”. Uma qualquer força maior urgia-nos a mergulharmos de cabeça na excitação-Malinin.

Houve quem culpasse os media, a organização dos Jogos de Milão-Cortina, o próprio patinador, pelo que aconteceu depois, quando em menos de quatro minutos, na sexta-feira, Malinin desmoronou. A ansiedade carcomeu a perícia, os nervos apagaram a memória muscular e a magnitude cénica fez o melhor patinador no gelo do mundo hesitar no maior dos palcos. Era suposto ser a concretização da ânsia acumulada em torno de uma iminente coroação: um novo ícone desportivo havia sido anunciado, vinha aí um prodígio, foi pedido sem se pedir para se formarem os batalhões da idolatria. No final, repetiu-se que o miúdo falhou.

Ilia Malinin levou as mãos à cara assim que terminou a sua atuação na prova livre de patinagem artística
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Será justo atribuirmos um falhanço a um rapaz de 21 anos, estreante em Jogos Olímpicos, por ter sucumbido à pressão?

Não, e nunca deveríamos fazê-lo seja qual for o atleta, vitoriosos já só por estarem na prova que acontece a cada quatro anos, um apogeu na carreira de qualquer um. Dizer que falham, como o futebolista que falha um entre dezenas de passes a cada jogo, ou o tenista que vê uma de centenas de bolas a falhar a linha do court por uma unha, é simplista ao mesmo tempo que um resumo demasiado conclusivo - e vindo de fora, de quem debita dedos no teclado ou está no sofá de casa com a TV à frente. Falta-nos em contenção o que nos sobra em precipitação ao usar o termo no desporto.

“Isto são os Jogos”, desabafou Ilia Malinin, ido ao encontro dos jornalistas pouco após ficar no 8º lugar, ultrapassado por adversários que ele e todos sabiam ser patinadores menos capazes: em Milão-Cortina ou nos dois Mundiais anteriores, nenhum sequer pôs tantos saltos quádruplos nos seus programas. Sem se esconder, apoderou-se do seu descalabro perante a magnitude da ocasião e domou a sua própria desgraça: “As pessoas apenas se apercebem da pressão e dos nervos quando estão cá. Foi algo que me assoberbou, senti que perdi o controlo.”

Ver um rapaz assim de novo, verdinho nas andanças olímpicas, dispor-se a assumir que as ansiedades o aprisionaram merece elogio, diria mesmo admiração. Lidar de frente com o insucesso é o contrário de falhar. No desporto e na vida, abundam os exemplos de desculpabilização externa, ainda mais os de compreensível fuga ao enfrentar os holofotes a quente mal as expetativas são incumpridas.

Saído do gelo depois de cair duas vezes e arrepender-se outras tantas, já no ar, do salto que ia dar, disse que “eles pensam que é fácil, mas não é”. Estava já sentado no lugar onde os patinadores esperam pelas pontuações com uma câmara especada à sua frente, adequadamente identificado como kiss & cry. Foi o seu único momento de estribeiras um nico desreguladas após sair do gelo. “Disse-lhes”, visando provavelmente quem toma essas decisões na federação norte-americana, “que me deveriam ter enviado a Pequim, não teria patinado assim”. Referia-se ao sucedido há quatro anos, quando ele, com 17, não foi escolhido para ir aos Jogos apesar de ser o 2º melhor patinador nos trials dos EUA.

A vida secunda o suspiro de Malinin: os últimos seis homens que venceram um ouro olímpico pelo país fizeram-no à segunda vez que competiram nos Jogos de Inverno, já com uma certa habituação ao contexto. Se o nervosismo paralisa até o atleta mais amador no momento decisivo de uma disputa do mais lúdica que há, imagine-se o que faz à cabeça de quem motivou o maior falatório destes Olímpicos. A imensa aptidão de Malinin, o provável patinador mais talentoso alguma vez visto, ficou trémula naqueles quatro minutos decisivos do programa livre, mas isso não o diminui. Além da forma como reagiu, ter tremido servirá de alavanca para maravilhar quem estiver a vê-lo quando conseguir o próximo pedaço de extraordinário sobre o gelo. Esse é um filme repetido por todas as lendas do desporto.

O solavanco de Ilia Malinin não equivale a falhanço, antes mostra que nunca perder está longe de ser algo sacrosanto no desporto: todos vacilam, os melhores vacilam. Parecerem sobre-humanos nos seus feitos impressiona por sabermos, mesmo que muito nos esqueçamos, que tal é apenas uma aparência. E já sabemos o que elas fazem. “No maior palco do mundo, aqueles que aparentam ser os mais fortes podem estar a lutar batalhas invisíveis por dentro”, escreveu no Instagram. Não me parece que ele esteja a falhar.

P.S. O título desta newsletter foi surripiado de um texto de Dan Wolken, jornalista norte-americano da YahooSports que está em Itália e de perto acompanhou o desmoronar de Ilia Malinin. Apesar de usar o termo “falhanço” (“failure”), tem razão no argumento.

O que se passou

Zona mista

Em termos de ordenados, os jogadores e os treinadores são mal pagos. A Polónia paga mais que Portugal. Em Espanha, o Ribera Navarra, que está em último lugar, quase condenado à descida, paga mais que o SC Braga e tem melhores condições no dia a dia.

João Almeida é treinador da equipa de futsal do Johor, da Malásia, antes trabalhou no Bahrein e Líbano, em Inglaterra e na Indonésia, sabe da poda e foi uma das vozes ouvidas pelo Francisco Martins na sua senda por radiografar o estado atual da modalidade em Portugal, após a terceira final seguida de Europeus que a seleção disputou. Há muito que está bem, mas nem tudo.

O que vem aí

Segunda-feira, 16

🎾 Começa o torneio ATP 500 em Doha, no Catar (todos os dias até domingo, a partir das 10h30, Sport TV2).
❄️ Jogos Olímpicos de Inverno: prova de medalhas na patinagem de velocidade feminina e no esqui alpino masculino (a partir das 11h45, Eurosport). À noite (20h em diante), o mesmo acontece nas duplas da patinagem artísticas, nos saltos de esqui e no bobsleigh.
⚽ Encerra a 22ª jornada da I Liga com o Rio Ave-Moreirense (20h15, Sport TV1)

Terça-feira, 17

❄️ Jogos Olímpicos de Inverno: haverá vecendores no snowboard e no nordic combined (a começar às 12h, Eurosport) e depois (15h22) é uma tarde dedicada à patinagem de velocidade.
⚽ O Benfica recebe o Real Madrid (20h, Sport TV5) na primeira mão do play-off de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões. À mesma hora, o Borussia Dortmund recebe a Atalanta e defrontam também o AS Monaco e o PSG numa eliminatória desprovida de originalidade.

Quarta-feira, 18

❄️⛷️ O esqui freestyle abre o dia com a prova feminina de medalhas (10h30, Eurosport) dos Jogos Olímpicos de Inverno. Pela noite (20h) pode ver as finais de estafetas da patinagem de velocidade.
⚽ O Qarabag é anfitrião do Newcastle na Champions (17h45, DAZN1). Nos outros quatros jogos do dia, atenção ao potencial de surpresa no círculo polar ártico: o Internazionale visita o Bodo/Glimt (20h, DAZN2).
⚽👩 Taça Europa feminina: o Sporting acolhe as suecas do Hammarby na segunda mão dos quartos de final (18h, Sport TV1), após perder o primeiro encontro por 1-0.

Quinta-feira, 19

❄️⛷️🏒 É a vez de os homens decidirem que fica com as medalhas nos saltos e truques de esqui freestyle (10h30, Eurosport). E finalmente joga-se pela medalha de ouro no hóquei feminino (18h10).

Sexta-feira, 20

⚽🏆 Final da Supertaça da América do Sul entre os brasileiros do Flamengo e os argentinos do Lanús (00h30, Sport TV1).
❄️ Jogos Olímpicos de Inverno: há sete eventos para medalhas (a partir das 12h10) entre o esqui freestyle, a patinagem de velocidade ou o curling.
⚽ Arranca a 23ª jornada da I Liga com o Estrela da Amadora-Tondela (20h45, Sport TV1).

Sábado, 21

❄️🥇 Penúltimo dia dos Jogos Olímpicos de Inverno cheio provas (11) para medalhas. O melhor é ligar a TV a partir das 9h30 e deixar-se ficar (canais Eurosport).
🏉 Torneio das Seis Nações: Inglaterra-Irlanda (14h10, Sport TV7) e Gales-Escócia (16h40, Sport TV7).
⚽ Prossegue a I Liga: Arouca-Nacional (15h30, Sport TV4), Alverca-Santa Clara (15h30, Sport TV1), Benfica-AFS (18h, BTV), Moreirense-Sporting (TVI) e SC Braga-Vitória (20h30, Sport TV1).

Domingo, 22

❄️ Terminam os Jogos Olímpicos de Inverno com a cerimónia de encerramento (19h, RTP e Eurosport).
🏉 Seis Nações: França-Itália (15h10, Sport TV7).
⚽ Mais I Liga: Estoril Praia-Gil Vicente (18h, Sport TV2) e FC Porto-Rio Ave (20h30, Sport TV1).

Hoje deu-nos para isto

O capacete da memória que fez o Comité Olímpico Internacioal desqualificar o ucraniano Vladyslav Heraskevych dos Jogos de Inverno
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Agora uma piada, para nos rirmos: o desporto e a política não se misturam.

Vladyslav Heraskevych já tinha participado em várias sessões de treino com o capacete posto, falado várias vezes aos jornalistas com ele nas mãos e as suas redes sociais já estavam carregadas de imagens do acessório. “Este é o preço da nossa dignidade”, escreveu, ao partilhar uma outra dele a usar o dito cujo, o “capacete da memória” com as fotografias de 24 dos mais de 600 atletas do país mortos na Guerra da Ucrânia, já depois de o Comité Olímpico Internacional o desqualificar dos Jogos de Inverno por infringir a regra que zela para selar a prova em vácuo contra temas políticos.

Vamos então rir outra vez.

A norma 50.2 da Carta Olímpica diz: “Nenhum tipo de demonstração ou propaganda política, religiosa ou racial é permitida nos locais de prova ou outras zonas dos Jogos Olímpicos.” Depois, o Comité disse: “Depois de lhe ser dada uma última oportunidade, o atleta de skeleton Vladyslav Heraskevych não irá competir.” Mas, após autorizar o ucraniano a usar o capacete nos treinos e nas conferências de imprensa, portanto ignorando a sua própria regra, Kristin Coventry, presidente do COI, voou até Milão-Cortina para o tentar convencer a não exibir o acessório só durante os 60 segundos em que estivesse a competir no gelo. Uma versão do ‘é proibido, mas pode-se fazer’.

A dirigente verteu lágrimas, mostrou-se destroçada com a recusa do ucraniano em aceitar os termos porque “ninguém está a discordar da mensagem”. Candidato às medalhas pelos tempos que vinha apresentando, o ucraniano abdicou do sonho, de todos os sacrifícios feitos durante quatro anos, para não abdicar da sua chamada de atenção ao horror que a Rússia ainda leva à Ucrânia. “O desporto não devia significar amnésia”, defendeu depois, já banido dos Jogos: “O movimento olímpico deveria ajudar a parar guerras.”

O diretor de comunicação da prova, Mark Adams, defendeu a intransigência do COI citando as “os mais de 130 conflitos” que decorrem no mundo, advogando que “assim que começas, enquanto organização desportiva, a tomar posições contra guerras, não haverá fim”. Mas é suposto haver? Ou vamos continuar a fingir que o desporto vive de forma hermética, higienizado contra qualquer influência política?

Mais vale rir, como se pode ter rido gente dentro do próprio Comité Olímpico ao lembrarem como, no Rio de Janeiro 2016 e pela primeira vez, houve uma equipa de refugiados nos Jogos, criada para acolher atletas fugidos de zonas devastadas pela guerra e chamar a atenção para o problema. E Gianni Infantino, líder da FIFA que é um visitante assíduo da Sala Oval na Casa Branca, amigalhaço de Donald Trump, presidente dos EUA que será anfitrião do próximo Mundial, a quem deu um prémio da paz.

Risos também terão existido em qualquer pessoa com memória antiga, rebobinadora até 1936, quando o COI achou por bem manter os Jogos em Berlim, na Alemanha nazi de Adolf Hitler, que aproveitou para exibir os símbolos do mal com os quais devastaria a Europa dali a poucos anos. E também em quem prefere a memória mais recente: seja no inverno ou no verão, os atletas de Taiwan competem nos Jogos oficialmente pelo Taipé Chinês para ninguém ferir os sentimentos da China; e na cerimónia de abertura nem de há duas semanas, o israelita Jared Firestone vestiu uma quipá para homenagear as 11 vítimas do sequestro terrorista cometido na edição de 1972, em Munique, com a mensagem: “Nós recordamos. Nós perseveramos. Nós erguemo-nos.” Competiu depois no skeleton onde Vladyslav Heraskevych não pôde honrar outras vítimas.

O Comité Olímpico justificou-se, em linhas com outras entidades que governam sobre os maiores eventos desportivos, que visa salvaguardar o “terreno de prova”. Querem um invólucro em torno dos Jogos que creem ser possível aplicar apesar de a história sempre mostrar - e os punhos levantados e cerrados de Tommie Smith e John Carlos no pódio do México 1968, em protesto contra a violência racial nos EUA? - que é impossível manter. Mais vale rirmos.

Tenha uma boa semana, finalmente algum sol para colocarmos roupa a secar lá fora. Obrigado por nos ler aí desse lado e acompanhe-nos no site da Tribuna Expresso, onde poderá seguir a atualidade desportiva e as nossas entrevistas, perfis e análises. Siga-nos também no Facebook, Instagram e no Twitter. Se quiser, escute também o nosso podcast “No Princípio Era a Bola”, no qual tentamos descomplicar o futebol com o Tomás da Cunha e o Rui Malheiro.

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