• Suécia
    18:0020 JUN
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    Grupo F
  • Tribuna 12:45

    Um Mundial entre biberão e biberão

    Um Mundial entre biberão e biberão

    Pedro Barata

    Jornalista

    Bebés e Mundial, uma relação de amizade em fuso horário europeu
    Julian Finney - FIFA

    Todos adoramos um bom jogo de futebol ao fim da tarde. Sair do trabalho, juntar com amigos ou ver a solo, segundo preferências, e vamos a isto. Uma partida que não começa demasiado cedo, interferindo com o horário laboral, nem termina excessivamente tarde, sem roubar horas de sono, é uma preciosidade de agenda.

    Certo? Bem, sim, ou mais ou menos. Há uma aldeia gaulesa resistente a esta ideia, rodeada de hostes invasoras, mas mantendo-se firme, particularmente em altura de grandes competições. São os pais e mães de bebés.

    Para quem tem um — ou mais — filhos pequenos, um desafio ali a rondar as 19h00 calha no pior momento possível, anda às cotoveladas com o banho, o dar jantar, os afazeres prévios a ir para a cama, o ir dormir propriamente dito, esse melão misterioso por abrir, sem nunca sabermos se demorará um minuto ou uma hora. O risco de vermos pouco mais do que a cerimónia dos hinos é real, palpável, acentuado a cada novo motivo de choro ou necessidade de socorro ou interveção rápida porque o miúdo achou que era boa ideia pegar na nossa carteira e lançá-la ao caixote do lixo.

    É aqui que, salvador, providencial, entra o Mundial 2026. Bem-vindo sejas, caro Mundial das Américas, Mundial dos jogos noite dentro. O Mundial amigo dos pais e mães.

    Um jogo às 22h00 é, assim, a perfeição. Eles já dormem, mas o encontro não se prolonga excessivamente. As faixas horárias seguintes já são mais inimigas do sono, mas quem estamos a enganar? Os últimos meses foram quase um estágio para isto. Acordar constantemente ao longo da madrugada. Dormir pouco. Capacidade de despertar, executar tarefas, voltar a deitar. Foi quase como um ciclista que, antes do Tour de France — que começa sábado, como andávamos com poucos motivos de interesse desportivo —, vai estagiar para uma montanha, preparando-se para as subidas.

    Um bebé protegido contra o barulho no Argentina-Áustria
    Chris Brunskill/Fantasista

    O Mundial 2026 encaixa perfeitamente nesta existência noturna, silenciosa, de morcego. Dá-se toda a atenção e carinho e amor quando a creche termina, maximiza-se as horas do fim da tarde sem distrações. Após os olhinhos do petiz se cerrarem, abre-se o double screen: televisão mais câmera a mostrar o bebé deitado, sereno, repousando.

    Obrigado, futebol, por este contexto em que todos ganham: o bebé com dedicação plena enquanto está acordado, o pai a ver jogos na íntegra. A mãe, que neste caso não faz especial questão de ver o Gana-Panamá à meia-noite ou o Marrocos-Países Baixos às duas da manhã, dorme sabendo que há alguém acordado pronto a intervir quando se escutarem gritos de fome ou só a pedir um pouco de xuxa e embalo.

    Há, ainda assim, um toque de lotaria aqui no meio. Quando é que ele vai querer biberão? Este período a dormir vai dar para ver este jogo inteiro? Há momentos de perfeição. Obrigado, filho, pelo sono ininterrupto durante o Marrocos-Brasil, queria mesmo ver esse sem pausas. Filho, aquele biberão prolongado no começo da segunda parte do Noruega-Senegal, indo ter contigo quando estava 1-0 e voltando quando estava 3-1, não foi ideal, mas tudo bem.

    O encaixe mágico dá-se quando os sonhos do pequeno estão alinhados com mais uma criação deste Mundial pensada para progenitores: as pausas de publicidade, perdão, de hidratação. Tornar o futebol um jogo de quatro quartos é uma aberração, é péssimo para a dinâmica e fluidez, é uma facada na estrutura básica da modalidade desportiva mais popular da história da humanidade. Mas, egoísta, ganhei-lhe algum carinho logo na primeira madrugada do torneio: Coreia do Sul-Chéquia, pausa para anúncios, choro a pedir biberão. Alimento dado, regresso à sala a coincidir com o recomeço do desafio. Obrigado, Gianni, grato por estes minutos. Pausas de biberão, verdadeiras pausas de hidratação, não as que se fazem lá nos relvados das gigantescas arenas.

    O Mundial vivido entre biberão e biberão é, uma vez mais, o Mundial a fazer parte da vida, a dançar com ela. O Mundial como símbolo do começo das férias, há 20 anos, o Mundial como intervalo do estudo para exames, há 10 ou 15. O Mundial como experiência anexa à paternidade, agora.

    No Alemanha 2006 aprendi o significado de “instigado”, porque Scolari a usou para descrever o incentivo dado por Van Basten à falta de fair-play dos neerlandeses na batalha de Nuremberga; no África do Sul 2010 percebi que o inverno naquela ponta do continente deveria ser rigoroso, porque toda a gente aparecia encasacada nas imagens; em 2026 olho para um ecrã a ver jogos enquanto desejo que de outro ecrã não venha nada mais do que a perfeição do silêncio.

    Vibra-se em silêncio na sala, com um esforço para passar despercebido, sem pisar nada, sem deixar cair coisas, sem perturbar esta ordem em mutismo. O Mundial vai entre biberão e biberão, o biberão vai entre o Mundial, a vida no meio do futebol, o futebol no meio da vida. Hoje há Países Baixos-Marrocos às 02h00. Já sabes, filho: é para ter fome ali pelas 02h25, que estes senhores criaram as pausas de biberão a pensar em nós.

    O que se passou

    Portugal defrontará, nos 16 avos de final, a Croácia, após uma pouco convincente igualdade diante da Colômbia. Martínez partilhou a sua habitual visão otimista, a imprensa internacional não gostou, Diogo Costa foi o melhor em campo para a Tribuna Expresso. Eis, agora, as hipóteses para o caminho futuro da seleção nacional.

    O Diogo Pombo prossegue nas Américas a trazer-nos o melhor do Mundial e em torno do Mundial: a oitava maravilha, onde Elvis cantou, Ali lutou e Billie Jean King ganhou ao machismo. Neymar, Brasil, Miami, Ney de volta 980 dias depois. E Galvão Bueno, a voz dos pentacampeões.

    O Canadá chegou ao Mundial sem nunca ter somado, sequer, um ponto na sua história no torneio, mas já está nos oitavos de final.

    O fim da fase de grupos trouxe-nos a epopeia de Cabo Verde, França a mostrar o seu poderio, um triunfo histórico para o Equador, Manzambi a consolidar-se como candidato a jovem do torneio, o Brasil a fazer clique e Carlos Queiroz, as muralhas de Carlos Queiroz.

    Há figuras dos Mundiais do século XXI com sabores bem diferentes no adeus: Ochoa teve uma despedida em grande, ainda que continue com o México, e a Lídia Paralta Gomes escreveu sobre isso. Marcelo Bielsa viu o seu Uruguai ser eliminado, culminando uma competição que o técnico parece ter odiado, como indica o Francisco Martins.

    Os jogadores dos Estados Unidos são o oposto de Donald Trump. O que precisam para terem influência social? Ganhar o Mundial, provavelmente.

    Quem é o homem que preside a quase todos os jogos do Mundial, quase imperador do futebol a viajar em jato privado? Eis Gianni Infantino, pela Mara Tribuna.

    Acha que sabe tudo sobre a história da competição? Jogue aqui para o comprovar.

    Zona mista

    Na cultura do Haiti não se desiste facilmente. Os nossos jogadores refletiram isso. Acho que eles representaram bem o país.

    Num Mundial repleto de pequenos grandes contos de fadas, é justo reconhecer o que o Haiti fez. A equipa de Sébastien Migné, autor da frase transcrita, vem de um Estado falhado, arrasado pela miséria, perseguido pela catástrofe. A seleção é nómada, não jogando em solo haitiano desde 2021, por não haver condições para tal. O seu treinador, que não pode ser acusado de ter falta de mundo — já trabalhou em Omã, RD Congo, Congo, Quénia, Guiné Equatorial e África do Sul —, jamais foi ao Haiti por “ser, simplesmente, demasiado perigoso”, confessa. Não obstante a montanha de dificuldades, a seleção da CONCACAF competiu, deixou uma boa imagem, quase empatou com a Escócia, encostou Marrocos às cordas. Ganharam o Mundial.

    O que aí vem

    Segunda-feira, 29 de junho
    ⚽ Os 16 avos de final a todo o ritmo: Brasil-Japão (18h00, Sport TV5/LiveMode), um duelo para testar as reais capacidades dos de Ancelotti, e Alemanha-Paraguai (21h30, Sport TV5), em Boston
    🎾 Por vezes parece, mas a vida não é só Mundial. E está aí o All England Club, o Grand Slam de relva, Wimbledon (11h00, Sport TV2/ Sport TV3)

    Terça-feira, 30
    ⚽ Embate de alta voltagem de madrugada: Países Baixos-Marrocos (02h00, Sport TV5). Na tarde seguinte, Costa do Marfim-Noruega (18h00, Sport TV5) e França-Suécia (22h00, Sport TV5)
    🎾 Wimbledon prossegue (11h00, Sport TV2/ Sport TV3)

    Quarta-feira, 1
    ⚽ A força do Azteca contra quem acabou de bater a Alemanha: México-Equador (02h00, Sport TV5). Depois há Inglaterra-Congo (17h00, Sport TV5) e, em Seattle, Bélgica-Senegal (21h00, Sport TV5)
    🎾 Mais Wimbledon (11h00, Sport TV2/ Sport TV3)

    Quinta-feira, 2
    ⚽ Um dos co-anfitriões a tentar aceder aos oitavos de final: EUA-Bósnia (02h00, Sport TV5), em São Francisco. Na noite seguinte, o desafio que cruza com a eliminatória de Portugal: Espanha-Áustria (20h00, Sport TV5)
    🚴 Mundial e Wimbledon era pouco? Tomem lá o Tour, então. A apresentação, em Barcelona, arranca às 17h30 (Eurosport 1)
    🎾 Wimbledon (11h00, Sport TV2/ Sport TV3)

    Sexta-feira, 3
    ⚽ Portugal à procura dos oitavos de final, defrontando, em Toronto, a Croácia (00h00, SIC/Sport TV5/LiveMode). Madrugada dentro, há Suíça-Argélia (04h00, Sport TV5). Já quando o sol se voltar a levantar, Austrália-Egito (19h00, Sport TV5) e, depois, Cabo Verde atrás do impossível contra a Argentina de Messi (23h00, TVI/Sport TV5)
    🎾 Wimbledon prossegue (11h00, Sport TV2/ Sport TV3)

    Sábado, 4
    ⚽ A conclusão da primeira fase a eliminar é com Colômbia-Gana (02h30, Sport TV5). Os oitavos de final arrancam às18h00, em Houston, com o Canadá diante do vencedor do Países Baixos-Marrocos. Às 22h00 há confronto entre Alemanha ou Paraguai e Suécia ou França
    🎾 Wimbledon como ferramenta de desenjoar do futebol (11h00, Sport TV2/ Sport TV3)
    🚴 Começa o Tour, com partida de Barcelona. A etapa inaugural é um contrarrelógio coletivo na cidade catalã (15h45, Eurosport 1)
    🏃 Atletismo, Liga Diamante, Eugene (21h00, Sport TV3)

    Domingo, 5
    ⚽ Jogo entre Brasil ou Japão e Costa do Marfim ou Noruega (21h00, Sport TV5)
    🎾 Wimbledon (11h00, Sport TV2/ Sport TV3)
    🚴 A segunda tirada da Volta a França liga Tarragona e Barcelona (12h30, Eurosport 1)

    Hoje deu-nos para isto

    Durante algum tempo, o futebol, aprendendo com as lições do passado, afastou-se das competições em que alguns terceiros classificados superavam as fase de grupos. O consenso era grande na rejeição do formato: premia a mediocridade, porque geralmente basta fazer três pontos em nove possíveis e ter uma diferença de golos positiva para passar, retira emoção, porque menos equipas são eliminadas e os encontros contam para menos, perde-se espontaneidade, já que se concluem vários grupos sem se saber se este terceiro passou ou não, e é injusto, porque quem entra em campo por último já sabe o que necessita.

    Não que se pretenda aqui fazer a defesa da Escócia, que achou que o caminho para bater o Brasil era tentar sair a jogar desde o seu guarda-redes, mas a verdade é que os escoceses, a certa altura da sua última jornada, não sabiam se era melhor segurar a derrota por aqueles números ou ir em busca de golos. Em sentido inverso, os últimos grupos do calendário tinham a plena noção do panorama global, sendo capazes de viajar com um preciso mapa com todas as indicações quanto ao que era preciso obter.

    O Mundial 2026 tem tido excelentes jogos. Grandes histórias. Estrelas em ascensão ou em missão final. Emoção. Grandes estádios. Mas o desfecho da fase de grupos deu-se com o enorme asterisco desta fórmula de passarem melhores terceiros. Recorda-se da loucura do grupo de Japão, Espanha, Alemanha e Costa Rica em 2022? RIP a isso.

    Disputaram-se 72 jogos para eliminar 16 equipas. É demasiado futebol com poucas consequências.

    Lembra-se do desfecho deste grupo em 2022, caótico, emocionante? Nada de semelhante se viu em 2026. O culpado? O formato
    Soccrates Images

    A FIFA sabe disto. Assim, preparem-se: vem aí o Mundial de 64 seleções.

    O Mundial de 64 elimina esta questão dos terceiros, voltando à ideia perfeita, grupos de quatro em que passam os dois melhores. É mais uma tentativa de ter os países mais populosos do mundo na competição: dos 10 com mais pessoas, sete não estão presentes. A Índia e a China são colossos que a FIFA fará tudo por ter. A Indonésia é um gigante louco por futebol. A Nigéria tem somado mais ausências do que os senhores de Zurique gostariam, os EUA falharam 2018, o Egito e a Turquia, outros membros do top 20, vão entrando e saindo do palco.

    A beleza da bola é que a FIFA aumentou o Mundial a pensar na China e acabou a ter Curaçau ou Cabo Verde. E, diga-se, o alargamento não trouxe embaraços competitivos, o que também incentiva a ir às 64. Curaçau foi goleado pela Alemanha, mas empatou contra o Equador; o Haiti deixou uma bela imagem; a Nova Zelândia e o Catar pontuaram; o Panamá perdeu todos os encontros e não marcou golos, mas fartou-se de criar oportunidades perante Croácia e Gana; Cabo Verde foi o grande destaque.

    Usbequistão, Jordânia e Iraque tiveram mais dificuldades. Na verdade, a confederação asiática sai como a grande derrotada da primeira fase. Apenas 22% das suas seleções não foram eliminadas, sendo que uma das que prosseguiram foi a Austrália, que geograficamente nem é Ásia. Em sentido inverso, África vê justificado o seu histórico pedido por mais vagas, fazendo avançar nove dos seus 10 representantes. O único eliminado, a Tunísia, serviu para nos divertir pelo desastre que foi.

    Vamos, então, para as 64. Um engordar que obrigará, quase sempre, a ter organizações partilhadas entre países, que dificultará, cada vez mais, a existência de um anfitrião a solo que seja uma democracia responsável e funcional, pois as crescentes exigências, opacidades e gastos são mais amigas de autocracias. Talvez faça com que se aposte mais no formato dos play-offs intercontinentais, vindo daí mais qualificadas. É um bom sistema, promove a pouco frequente competição entre geografias diferentes, pode servir quase de antecâmara para o Mundial, juntando equipas num terreno neutro alguns meses antes do certame.

    Ah, e deixando as coisas mais importantes para o fim: mais seleções no Mundial são mais votos para Gianni. Ou melhor, mais aclamações de pé, por aplauso, que isso de voto secreto e universal é demasiado século XX para o futebol, sempre na vanguarda.

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